Ano de luta, anos de Hip Hop

2016 foi ano de transformações, mudanças e crescimento da cultura. E a Casa do Hip-Hop respirou (e transpirou) cultura esse tempo todo.

Por Lucas Mendes e Felipe Sousa
Fotos do Acervo Casa do Hip Hop Bauru


O primeiro de muitos: esse é o sentimento que fica na cabeça sobre o ano de 2016. A Casa do Hip Hop de Bauru completou 1 ano de atividades, ocupando os espaços e mostrando a força e articulação que o interior possui pra impulsionar e fortalecer a cultura e a cena local. 
Vale lembrar que foi nesse último mês de setembro que comemoramos 1 ano de presença no prédio da Estação Ferroviária, lá no centrão da cidade. Com apoio da Secretaria de Cultura, a Casa do Hip Hop foi o primeiro coletivo a ocupar as salas da 1º andar da Estação – que tinha ficado abandonada por mais de 20 anos.

Quem entra lá hoje já nota rápido a transformação do lugar. Diversos grupos estão utilizando o espaço – tem aulas da Divisão de Ensino às Artes da Secretaria de Cultura, Academia Bauruense de Letras, teatro, dança.. fazendo dali uma importante incubadora e fomentadora de cultura e efervescência artística.

 

Pra comemorar esse aniversário de 1 ano, a Casa do Hip Hop realizou a festa com atrações conhecidas da cidade, da região e do cenário na nacional do Rap. Os grupos Ment Blindada, Renegados Mc’s, Betim Mc e Dentão da Rima representaram Bauru, enquanto o grupo Revolução LDE veio de Marília. Síntese e família Matrero colou pra fechar o evento. O Mc De São José dos Campos  conversou com a gente, relatando a importância de se ter um espaço como a Casa de Cultura Hip Hop e também mostrou seu ponto de vista sobre o cenário do Rap hoje. A entrevista exclusiva você confere aqui.

Renegados Mc’s foram uns dos grupos que representaram a Bauru
Síntese e Família Matrero foram umas das atrações no Aniversário da Casa Do Hip Hop

Eventos importantes realizados pelo Ponto de Cultura Acesso Hip Hop, como Rap Hour, Estação Hip Hop e o Projeto Ensaio marcaram presença, trazendo artistas locais em apresentações nos quatro cantos da cidade, ou na própria Estação Ferroviária – prédio que abriga a Casa H2, que atua como parceira na realização.Bairros como Núcleo Gasparini, Mary Dota, entre outros, receberam bem as atividades, que contam também com apoio da Secretaria Municipal de Cultura.

A Batalha da Panelinha foram uns dos eventos que se consagrou esse ano
A batalha acontece toda quarta-feira.

 

Atividades, rolês, encontros

Balada Samba Rock, foi um sucesso em seu primeiro ano de realização

Dentro do que é feito pela Casa H2 existem atividades de formação, discussão e também espaço pra rolês e eventos da cultura. Umas das atrações que mais o público curtiu nesse ano foi  a clássica Batalha da Panelinha, realizada toda quarta-feira com os mc’s da cidade e região. Também um sucesso de público é a Balada Samba Rock, que teve 3 edições.

Movimento social rico, orgânico e criativo, o Hip Hop sempre se reinventa e incorpora novas discussões através de suas expressões. Seja nas rimas, batidas, latas de spray ou passos do breaking, as lutas e enfrentamentos diários são politizados por meio do conhecimento.E nesse campo a Casa H2 marcou sua presença com a realização de debates, rodas de conversa e saraus sobre os diferentes temas de relevância na sociedade.

Nessa missão foi que recebemos o II Fórum Regional de Mulheres no Hip Hop, projeto de realização da Frente Nacional de Mulheres no Hip Hop, contemplado pelo Proac-SP. A Frente Feminina de Hip Hop de Bauru integra esse coletivo nacional e foi parceira local para a realização do evento.

Com uma programação voltada à visibilidade das artistas da região, os fóruns têm como principal objetivo criar um espaço de acolhimento através de apresentações artísticas, workshops, rodas de conversa e oficinas para as mulheres. Os Fóruns Regionais são encontros prévios para o Fórum Nacional de Mulheres no Hip Hop, que acontece anualmente em São Paulo, e este ano contou também com a presença das integrantes da Frente Feminina de Hip Hop de Bauru.

Momentos envolvendo filmes e debates também marcaram presença por aqui nesse ano. O Cine Pixote proporcionou a exibição de filmes de conteúdo e fora do circuito comercial, sempre com uma temática política pra engatar um debate.

 

Em meio a todas as frentes de atuação da Casa do Hip Hop de Bauru também se destaca a presença do Cursinho Popular Pré-Vestibular “Acesso Hip Hop”, uma importante iniciativa de educação pra juventude que não tem como pagar aquele cursinho particular.Oferecendo aulas que trazem discussão política ao mesmo tempo em que prepara os manos e minas pro vestibular, o Cursinho busca  colocar cada vez mais gente da periferia nas universidades, ocupando um lugar que também é nosso por direito. Esse ano rolou uma Festa Julina pra auxiliar na manutenção do projeto educacional do Cursinho. Teve bingo, quadrilha, correio elegante e discotecagem.

Oficinas e aprendizado

Ao longo de todo ano também demos seguimento à disseminação da cultura Hip Hop através de seus elementos. As oficinas atraem um pessoal diverso e movimentam o espaço da Casa H2.Graffiti, Rap, DJ e Breaking oferecem essa vivência pra quem quiser conhecer mais da cultura. Elas são abertas e totalmente gratuitas. Também rola oficina de Freestep e Krump, além de Kickboxing, Dança do ventre, Kizomba, samba de gafieira, pandeiro e capoeira.

 

Dança do Ventre em Apresentação
A oficina de Capoeira em apresentação na Casa Do Hip Hop
As oficinas de KickBoxing são realizadas as quartas e sextas feiras

Aqui o destaque é para as oficinas profissionalizantes, oferecendo um meio de emancipação ou complemento de renda: unhas artísticas, design de sobrancelhas e maquiagem. Quem quiser saber mais ou participar é só chegar lá na Casa do Hip Hop e acompanhar os trabalhos.

No começo de dezembro também aconteceu uma oficina de escrita criativa, organizado pela Biblioteca Móvel Quinto Elemento, coletivo que compõe a Casa. A atividade contou com patrocínio do Programa de Estímulo à Cultura. O poeta Ni Brisant colou pra mediar a atividade, que buscou oferecer uma vivência e um despertar para a literatura e a poesia.

Ni Brisant na oficina de Escrita Criativa, realizada com apoio da Biblioteca Quinto Elemento
A oficina de Escrita Criativa foi uns dos destaque do mês de dezembro

Semana do Hip Hop

Novembro foi o mês que a cidade mais uma vez respirou o hip hop e seus elementos. A sexta edição da  Semana Municiapl do Hip-hop foi realizada pela Secretaria Municipal de Cultura e o Ponto de Cultura  Acesso Hip Hop. A Casa do Hip Hop sediou grande parte da programação e o espaço recebeu shows de grupos da cidade e da região, como Marília, Barretos, São Paulo,  e até de outros estados, como Minas Gerais e Rio Grande do Sul, todos bem representados.

Maestro do Caos diretamente de Barretos, representando Barretos

A Estação também recebeu  as finais do breaking, Krump e All Style  e grandes representantes como Casper Back Spin, Mister Jeff, Hatkilla, tudo no comando dos toca disco com dj Basin e Niko.

Ainda rolou a Marcha do Orgulho Crespo, a segunda edição do “Favela fashion zick”, com estilo e representatividade em um desfile de moda, e o tradicional Sarau do Viaduto, realizado pela Biblioteca Móvel Quinto Elemento.Ao todo foram dez dias de programação da Semana do Hip Hop, considerado o maior evento público de Hip Hop da América Latina.

O Tradicional Sarau do viaduto foi realizada esse ano na casa do Hip Hop
Favela fashion zick, representativadade e moda na Semana do Hip Hop

Expectativas

Recentemente a Casa do Hip Hop foi contemplada pelo Programa de Ação Cultural (Proac), do governo estadual. O concurso contou com 127 projetos inscritos, e a Casa foi selecionada em 1º lugar. Os projetos concorreram a prêmios de R$ 40 mil cada e que serão executados a partir de 2017.Esse é um edital próprio para a cultura Hip Hop, e veio como um incentivo pra manter nossa cultura viva e atuante. A Casa vai poder formar e impulsionar a cena Hip Hop e a essência da cultura nos trabalhos de formação.A verba será destinada para a manutenção das atividades da Casa, como as oficinas, e servirá para remuneração de gestores e oficineiros, garantindo a continuidade e aprimoramento de todo o projeto.

 

Estilo e representatividade marcam a noite de sexta-feira da Semana do Hip Hop Bauru

Por Mariana de Moraes
Fotos: Bianca Moreira

 

Nesta sexta-feira (11) rolou na Casa do Hip Hop (Estação Ferroviária) o Favela Fashion Zick, um desfile organizado dentro da programação da Semana Municipal do Hip Hop de Bauru.
O evento se deu início às 20h e contou com a presença de integrantes do movimento que participam das atividades anuais da casa e desfilaram com as camisetas da Casa do Hip Hop, Ponto de Cultura Acesso Hip Hop, peças da loja ÔVizu e Silvia Bolsas.

“Nós queriamos fazer um evento que agregasse todo nosso estilo e a nossa cultura, com pessoas fora do padrão, pessoas altas, magras, baixas, gordas.. que são as pessoas que nos representam, que não são os manequins que estão nas grandes passarela.” Disse Yngrid Suellen, idealizadora do desfile.

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A noite também contou com o mestre DJ Ding fazendo um som para animar o desfile e com um grande número de pessoas na plateia. Os modelos desfilaram, improvisaram e fizeram dança na passarela, todos cheios de charme e muito estilo.

Após o desfile rolou um super pocket show do David MC, Diogo gordão e dos grupos Raschimclam e Rimanos.
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E para finalizar a noite, rolou o Baile Flashback com os DJ’s Ding e Marcelão, com o melhor do rap e hip hop do passado. Foi uma noite de muita dança e agitação na Casa H2, a galera não parou um segundo.
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O Hip Hop é universal. Neto do Síntese trocou uma ideia com a Casa do Hip Hop de Bauru

Entrevista por Felipe Sousa
Fotos Lucas Rodrigues, Acervo Casa do Hip Hop

Integrante e formador do grupo de rap Sí­ntese de SãoJosé dos Campos, Gestério Neto, bateu um papo com a Casa do Hip Hop de Bauru em sua breve e marcante passagem nossa comemoração de aniversário. Com frases marcantes carregadas de mensagens e cultura, Neto falou um pouco sobre o movimento cultural em si, um pouco de rap e as mensagens transmitidas em suas letras carregadas de conteúdos líricos e poéticos.

Abaixo você confere a entrevista na Integra.

 

Neto em entrevista exclusiva a Casa Do Hip Hop

Qual a importancia desse evento para o movimento hip-hop?
Neto: Ah, eu acho muito da hora mano, ter uma casa de hip-hop assim na cidade, é uma coisa que a gente quer ter lá em São José, interior, fora do eixo, sabe quanto é difícil  mostrar a cultura para a rapaziada, para as pessoas. Poucos conseguem se sustentar disso no decorrer da vida e  é  dahora ter um espaço onde as pessoas podem ver cultura acontecer, por quem realmente faz, os verdadeiros. Eu acho muito loco esse encontro e me sinto honrado de está aqui no primeiro ano, uma causa tãoo dahora como essa da nossa cultura tão linda, trabalha com nossa energia criativa, é algo muito necessário e sempre foi, expressar essa ansiedade que a gente tem, que o jovem tem, expressar esse poder e canalizar para algo bom.

Você sendo do interior paulista também, como você está vendo hoje a cena do rap?


Neto: Pode crer, to  vendo que a gente está no momento de se fortalecer, de ver que é nó por nós, que não tem que esperar ninguém, vir, oportunidade, esperar nada acontecer, faça você mesmo e com as ferramentas que a gente tem. Eu acredito que essa mentalidade tem ganhado força na medida em que pessoas como eu, como o Coruja daqui, os irmãs que cola pra São Paulo, cola para os outros estados, cola pra lá, leva o rap da onde eles são para cá como eles são isso daqui pro mundo, de Bauru para o mundo, de São José para o mundo. A gente é muito forte e o poder está em nós.

 

Ligado a tudo que vocÊ falou, você acredita que o hip-hop salva vidas?
Neto: demais mano! Salva mentes, direciona mentes, no meio disso, cêª ta transmitindo toda aquela energia fazendo parte de toda aquela expressão é algo que diverte, entretêm, que mexe com o corpo, alimenta a mente. Musica é algo tãoo espiritual sabe, eu acho que isso muda a vida das pessoas para sempre, mudou a minha, a dos b-boys, dos irmãoo que veio comigo aqui, mudou as dos grafiteiros , dos Djs, dos Mcs que ficaram lá¡ também sabe, das pessoas da cultura que tô trombando aqui tambémm, o hip-hop é universal.

Para fechar, como é  para você  estar no palco transmitindo uma mensagem?
Neto: Eu acho que é um momento sagrado sabe, ser portal, a arte é divina, expressa divindade e a gente ta ali sendo canal disso tudo, é  uma responsabilidade muito grande, um amor muito grande que a gente sente, se provocando  e provocando sentimento mais profundo, se sentindo, se apalpando e nesse se por pra fora, os irmão se vê na gente, eu acho que é algo transcendental.

A entrevista foi concedida no último dia da Comemoração de 1 ano da Casa do Hip Hop de Bauru, encerrada com um grande show do Síntese e Família Matrero.

Combo 5 Elementos

 

Combo 5 Elementos na Escola Ada Cariane. Foto: Keytyane Medeiros
Combo 5 Elementos na Escola Ada Cariane. Foto: Keytyane Medeiros

Ao explicar cada um dos cinco elementos, isto é, o DJ, graffiti, rap, breaking e o conhecimento sobre a cultura negra e o feminismo, o Combo 5 Elementos proporciona momentos de aprendizado e diversão para jovens e crianças.

O Combo 5 Elementos é um projeto da Casa do Hip Hop de Bauru e do Ponto de Cultura Acesso Hip Hop, realizado em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura da cidade. Realizado desde 2013, o projeto leva conhecimento, mini-oficinas e porcket shows para escolas municipais e estaduais da cidade.

“Inicialmente pensamos em levar shows para as escolas, mas decidimos ampliar e dar mais atenção à formação e conhecimento durante a Semana do Hip Hop de 2013”, afirma Henrique Thomas, de 19 anos, do grupo Além da Rima e um dos organizadores do projeto.

Combo 5 Elementos na SORRI em 2014.
Combo 5 Elementos na SORRI em 2014.

Juventude. Organizado por jovens militantes da cultura Hip Hop da cidade, que tem entre 16 e 20 anos, o Combo apresenta os cinco elementos da Cultura à crianças e adolescentes, contando um pouco da história do movimento, relacionando à cultura negra, desconstruindo estereótipos de gênero e levando um pouco de bom humor e felicidade às crianças das periferias da cidade. Em 2014, apenas durante a Semana do Hip Hop, o Combo 5 Elementos visitou aproximadamente 10 instituições, incluindo centros de reabilitação de saúde como a SORRI.

A proximidade de idade entre os oficineiros e o público alvo torna as apresentações do Combo 5 Elementos um espaço de diálogo entre a cultura Hip Hop e os adolescentes da cidade, indicando que sempre há alternativas positivas para sair ou permanecer na periferia sem cair em caminhos obscuros. A confiança e a troca de saberes entre público e oficineiros é intensa e sempre gera novos sorrisos e convites de participação.

Escola Ada Cariani. Foto: Keytyane Medeiros
Escola Ada Cariani. Foto: Keytyane Medeiros

Escolas. “Em dois anos de projeto, muita coisa mudou. Sempre fomos muito bem recebidos, mas às vezes nem as escolas nem sabiam direito como ia funcionar. Hoje, como o projeto cresceu, as escolas nos procuram para fazer atividades lá, escolas de outros lugares, todo mundo nos recebe de outra maneira agora”, conta Henrique.

O espaço foi conquistado com muito trabalho e muito amor. Para Henrique, “é uma honra pra gente chegar e olhar no olho brilhando de uma criança, eles realmente se prendendo, esperando que a gente faça um super espetáculo pra eles, como nunca viram antes. É um negócio que tem muito mais valor que grandes públicos, grandes shows. A gente cria uma conexão muito legal e verdadeira com eles, com certeza fica gravado na memória”.

Combo 5 Elementos. Foto: Keytyane Medeiros
Combo 5 Elementos. Foto: Keytyane Medeiros

A coordenadora de apoio da Escola Ada Cariani, no Mary Dota, Marlene Oliveira de Preto acredita que a iniciativa é algo muito importante para as escolas porque o Hip Hop faz parte da cultura dos alunos. A professora também declarou que “o Hip Hop é uma cultura que mexe com muitos elementos e linguagens diferentes. É um movimento muito forte e organizado de resistência, de denúncia e identificação do povo pobre e negro. Vocês tem muito mais condição de apresentar esses elementos para os alunos do que a escola, que é mais conteudista”, afirma.

Foto: Allison Ferreira
Combo no Pousada Cultural. Foto: Allison Ferreira

Futuro. Henrique acredita que sempre é possível melhorar o projeto, “queremos que o projeto fique cada dia mais didático e mais envolvente para o nosso público”. Henrique conta que entre os planos para 2015 e 2016, está tornar o Combo 5 Elementos um projeto permanente e itinerante, que passe com mais frequência nas escolas de Bauru, na mesma intensidade que acontece durante a Semana do Hip Hop. “A partir de agora, queremos que haja também uma contra-mão no sentido de levar os alunos pra conhecer a Casa, criar um projeto de visitação onde eles possam ocupar nosso espaço, justamente para fazer esse intercâmbio de experiências”, afirma.