Emicida, Coruja BC1 e Drik Barbosa fazem show de encerramento da Semana do Hip Hop 2015 no Vitória Régia

IMG_1632Rapper traz discussão racial e periférico para o coração do Vitória Régia

Por Keytyane Medeiros
Fotos: Lucas Rodrigues Alves e Felipe Amaral

Vozes e passos firmes de uma tropa de soldados sem bandeira a caminho do campo de batalha inundaram o Vitória Régia no domingo, 15 de novembro. Como se estivesse em Casa, com paus, pedras e mísseis, Emicida comandou um exército de sonhadores pela noite de encerramento da Semana do Hip Hop de Bauru, consagrando mais de 20 anos de luta e militância da cidade com um show eletrizante, combativo e envolvente.

Após dez dias de atividades com shows, debates, cinema e celebração dos quatro elementos da cultura Hip Hop pela cidade, a Semana não poderia ter encerrado de maneira mais adequada. Com a presença de um dos maiores ícones da música nacional e uma das referências de resistência e poder negro entre os jovens, Emicida chegou a Bauru com uma apresentação carregada de significados e disputas discursivas, trazendo o debate racial e periférico para o centro do Vitória Régia, com a ajuda de artistas que entendem muito bem do assunto como Drik Barbosa, Muzzik e a prata da casa, Coruja BC1.

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A voz da criança irada gritando e ecoando “nunca deu nada pra nois, carai! nunca lembrou de nois, carai!” em Mandume reverberou por quilômetros abaixo, acima e ao lado do palco na voz do público.  Num dos momentos mais marcantes do show, esse era o grito dolorido de toda uma geração que se vê representada na canção, na voz de Emicida e Drik Barbosa, de um grupo que sofreu opressões diárias por várias gerações, era o grito preso dos pretos, pobres e periféricos dessa cidade sem limites. O feminismo preto da Drik Barbosa assumiu o protagonismo nos palcos quando sua participação no single Hoje Cedo fez correr pela espinha de cada um da plateia o drama e a tragédia cotidiana de milhares de mulheres negras do Brasil, numa sintonia e troca muito mais enérgica e simbólica que a melancolia da versão original.

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Drik Barbosa

Em mais de uma ocasião, Emicida trouxe para o repertório músicas de seus primeiros trabalhos profissionais, sempre acompanhado pelo público. O artista parece ter estudado muito bem a cidade, pois trouxe canções como Então Toma!, I Love Quebrada e Bang!, numa levada pesada, com beats bem elaborados e renovados. I Love Quebrada, lançada há cinco anos voltou repaginada com beat pesadão, estilo gangsta, levando o público ao delírio.

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Coruja BC1

Coruja BC1, rapper em ascensão na capital e muito querido em Bauru, passou o show inteiro no palco, consagrando mais uma vez a cidade como um pólo de articulação cultural, absolutamente relevante no cenário Hip Hop nacional, haja vista a quantidade de artistas locais que passou pelo palco Vitória Régia horas antes. Além de acompanhar as músicas e mandar um freestyle improvisado e ovacionado, Coruja também cantou a inédita “Gana”, de seu próximo CD, ao lado do mestre e ídolo Emicida. Outro momento inesperado desse show que já entrava na história da cidade antes mesmo de chegar ao fim, foi a chegada repentina de Renan Inquérito, que subiu ao palco descalço, de surpresa, dando Corpo e Alma ao lado de Emicida e Coruja.

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Renan Inquérito, Coruja e Emicida

A Semana do Hip Hop de Bauru, a maior do país, segundo Emicida, é um momento divertido de encontro e trocas de saberes. “Acho que o que tá acontecendo aqui hoje é uma grande vitória para o Hip Hop mundial porque não é fácil fazer isso, em instância nenhuma, mover as coisas num país tão preconceituoso e racista, você conseguir brigar fazer um evento desse porte falando ‘isso aqui é a Semana do Hip Hop de Bauru’. As vezes, as pessoas da cultura local nem entendem o Hip Hop como uma propriedade da cidade”, afirmou em entrevista exclusiva.

Em Bauru, ficou evidente pela voz das 30 mil pessoas presentes no parque Vitória Régia que o Hip Hop é parte da identidade cultural da cidade, das mentes inquietas e dos militantes de milianos da Rui Barbosa. Depois de tantos murros no estômago e gritos engasgados finalmente liberados numa celebração narrada linha a linha pelas letras decoradas, verdadeiros hinos de resistência, Emicida lembrou ao público que mais do que cinco elementos, o Hip Hop é postura, conduta e sonho. Satisfeito com os milhares de acompanhantes da noite, mais um grito sincero, desta vez, da estrela do palco para a constelação da plateia,  “aí Bauru, na moral, eu amo esse lugar!”.

Muzzik e Emicida
Muzzik e Emicida
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Muzzik, Drik Barbosa, Emicida, Coruja BC1 e DJ Nyack

Quem diz que mina não pode ser Sensei? Com a palavra, Drik Barbosa

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Texto: Thamires Motta
Fotos: Lucas Rodrigues Alves da Silva e Felipe Amaral

Drik Barbosa: em algum momento, você já ouviu falar esse nome. A MC começou nas rodas de freestyle da Batalha do Santa Cruz, em São Paulo, e logo começou a ser reconhecida pela voz inconfundível e pelo talento no free. Já teve participações nos discos de Marcello Gugu, DJ Caique, Novato e mais recentemente na faixa “Mandume”, de Emicida. Convidada pelo rapper para dividir o palco em Bauru, ela cantou o single e entoou vários refrões durante o show.

Arrepiando em “Mandume”, Drik leva feminismo e mais voz para as mulheres negras nos seus versos. Ela acredita que o próprio Rap já tinha dificuldades em alcançar visibilidade, mas que elas estão chegando cada vez mais longe, já que as portas foram abertas pelas mulheres que batiam de frente. “Quero que a gente possa falar do que a gente quer, não só falar de violência e preconceito, que é extremamente importante, mas que a gente passe nossa visão sobre amor, felicidade, sobre rolê. Que não fique só essa perspectiva do homem”, explica a rapper.

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Para ela, a maior importância da Semana do Hip Hop está em alcançar as pessoas e mostrar o poder da cultura. “É importante trocar uma ideia legal cara a cara com as pessoas, não ser só essa parada de internet”, conta. “Tem muita gente que fala que falta mais show aqui, principalmente de mina, mas é uma coisa que vai chegar”, acredita a MC.

Para o próximo ano, Drik Barbosa está envolvida em dois projetos, e planeja o lançamento de um EP. “Espero pode lançar uns singles antes, uns acústicos. Em 2016 a gente vai chegar bolada”, afirma. E nós esperaremos ansiosos.

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III Semana Municipal de Hip Hop de Bauru: evento entra no calendário oficial da cidade

Terceira edição conta com nomes como GOG, Thaíde, Sombra e Projota

por Revista Rap Nacional*

Já consagrada como um dos maiores eventos culturais de Bauru, a Semana Municipal de Hip Hop chega à sua terceira edição mais forte que nunca. De 9 a 17 de novembro, o festival vai ocupar diversas áreas da cidade com shows de rap, exposições de graffiti, batalhas de breaking, sessões de cinema, oficinas, debates e ações educacionais.

É a primeira vez em que a Semana acontece como parte integrante do Calendário Oficial de Eventos da cidade, instituída pela Lei 6358, de 24 de maio de 2013. O reconhecimento do poder público trouxe novas dimensões ao festival, que este ano conta com quatro nomes de peso do rap nacional em sua programação. Thaíde, GOG, Sombra e Projota são shows confirmados, respectivamente, para os dias 9, 10, 16 e 17.

A agenda de shows inclui também artistas e grupos que fazem sucesso no cenário local do movimento. A escalação de bauruenses para a Semana conta com AlemDaRima, DJ Ding, D’Bronx, JotaF, BetinMC, Abanka, Dois1Dois, Thigor MC, Ment Blindada, Bandidos em Harmonia, Tiago Vurto, D’Quebra, Dom Black, RapNobre MC e Coruja BC1, menino prodígio que vem conquistando reconhecimento no circuito nacional desde o ano passado.

 

Palco “Interior tem voz”. Buscando valorizar a rica produção do Hip Hop além dos holofotes das grandes cidades, o festival realiza no feriado do dia 15 uma sequência de shows trazidos de diferentes cidades do interior paulista. Ao longo de toda a tarde, a praça pública do Parque Santa Edwiges recebe apresentações de Veneno H2 (Franca), Ramonstro (Barretos), Lheo Zotto (Ribeirão Preto), Sintonia Sonora (Barra Bonita), Daniel Garnet e Pqnoh (Piracicaba), Revolução LDE (Marília) e Prodígios (Jaú).

Lugar de mulher é no palco. Tendo entre seus organizadores a Frente Feminina de Hip Hop da cidade, a Semana não poderia deixar de ter atrações que representassem a força das mulheres no movimento. Duas MCs têm presença confirmada no evento: a são-carlense Sara Donato, que canta no Sambódromo no dia 10, e a paulistana Tábata Alves, escalada para o encerramento no Parque Vitória Régia, no dia 17. Além delas, a b.girl Aline Afrobreak vem da capital para ministrar uma oficina de breaking para meninas no dia 14, no Centro Cultural.

Hip Hop no currículo. Consciente do papel do Hip Hop como ferramenta de formação, a Semana tem como uma das suas principais características a realização de atividades educativas e conscientizadoras. Serão oficinas, debates e outras ações, com o objetivo de incentivar a reflexão e circular informação entre o público do evento.

Seis dos nove dias de festival contam com oficinas, dedicadas a oferecer informações básicas a quem gostaria de atuar em diversas vertentes do movimento. Haverá aulas gratuitas sobre produção de vídeos, graffiti, breaking e criação de beats. Já os debates e as rodas de bate-papo abordarão temas que vão da discriminação de camadas sociais desfavorecidas à presença da mulher no Hip Hop.

Henrique Tomas no Combo 5 Elementos

Além disso, a terceira edição da Semana tem como novidade a realização dos chamados “Combos dos Cinco Elementos” em escolas públicas de Bauru, levando bate-papos e apresentações aos alunos. Ao todo, oito escolas receberão os Combos, que acontecem nos dias 11, 12, 13 e 14.

 

Construção colaborativa. A 3ª Semana Municipal de Hip Hop é uma realização do Ponto de Cultura Acesso Hip Hop e da Prefeitura Municipal, em parceria com Frente Feminina de Hip Hop de Bauru, CurtaBauru, Casa Fora do Eixo Bauru, Wise Madness, Frente de Hip Hop do Interior Paulista, Rede Nacional das Casas de Hip Hop, Bauru Breakers Crew, Oficina Cultural Glauco Pinto de Moraes e Secretaria de Estado da Cultura. A iniciativa conta com o apoio de Caritas Diocesana, Conselho Regional de Psicologia, Rádio Unesp FM e Madiba Shop e Projeto Colorindo o Interior.

 

Flyer da III Semana Municipal de Hip Hop de Bauru
Flyer da III Semana Municipal de Hip Hop de Bauru

 

*publicado originalmente em 7/11/2013

Ponto de Cultura e o Hip Hop em Bauru: uma parceira

Antiga sede do Ponto de Cultura Acesso Hip Hop em 2012
Antiga sede do Ponto de Cultura Acesso Hip Hop em 2012

Texto e fotos por Keytyane Medeiros para e-Colab*

Articulação, sócio-desenvolvimento cultural e descentralização. Estas são as palavras de ordem de qualquer Ponto de Cultura espalhado pelo país, no entanto, qual é a origem desse programa e como funciona? Fruto do desejo de descentralizar o fazer artístico no Brasil, os Pontos de Cultura não têm um modelo único ou programações pré-determinadas pelo Ministério da Cultura. Podem funcionar em qualquer lugar, desde que os coordenadores e responsáveis prestem contas ao governo do que estão fazendo com o dinheiro público para a melhoria da comunidade em que vivem. Nada mais razoável.

Renato Magu no Ponto de Cultura Acesso Hip Hop

Com pouco mais de um ano de existência, o Ponto de Cultura Acesso Hip Hop, está em intensa atividade. Coordenado por Renato Moreira, também conhecido como Magu, o ponto funciona como “aglutinador”, unindo jovens com vontade de fazer arte e profissionais com recursos para a produção e divulgação desse material. Magu nos conta que o Acesso está produzindo três documentários, além de ter lançado recentemente o primeiro CD do rapper Coruja BC1.

Além de produzir clipes, documentários e discos, o Ponto de Cultura também realiza atividades nas comunidades carentes de Bauru, como é o caso do Projeto Ensaio. Nele, alguns integrantes do Acesso vão até o bosque do bairro Presidente Geisel dar oportunidade para que jovens possam expressar sua arte com o material de estúdio do Ponto. Magu destaca que “não somos organizadores de eventos, somos organizadores de vida”, e apesar do Projeto ocorrer a cada 15 dias, não se trata de uma oficina destinada ao ensino de técnicas de rap ou grafitti, e sim de um momento para dar oportunidade de trabalho aos militantes do movimento Hip Hop na cidade.

Entre os trabalhos desenvolvidos pelo Ponto de Cultura está o documentário e o clipe da música “A Praga do Século” do rapper Dom Black, a gravação do CD do grupo Além da Rima, um documentário sobre o assentamento de terra e os 15 anos de atuação do MST, o Projeto Doação Simultânea também em parceria com a organização e outros projetos socioculturais.

O Ponto de Cultura Acesso Hip Hop está localizado na Rua Maria José, junto ao Instituto Acesso Popular, na região central de Bauru. É só chegar e conversar, Magu, CorujaBC1 e seus amigos o receberão de braços abertos.

* publicado originalmente em 14/08/2012

Ernesto Hip-Hop: 2ª Semana Municipal do Hip Hop

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II Semana Municipal do Hip-hop invade o Geisel no feriado

Texto e Fotos: Higor Boconcelo para o blog e-Colab*

1“Em pleno feriado, meio dia, o cara me passa com essa música no último?”, reclama Gu, quando, como de costume, um carro qualquer corta a Alziro Zarur com o som “estourando”. Não que ele tivesse muita coisa contra Demi Lovato, mas aquele definitivamente não era dia para a música pop no Geisel, já que a II Semana Municipal de Hip-Hop tomava o bairro como palco para as atividades de seu quarto dia de programação.

Du é um dos grafiteiros escalados para exercer sua arte no muro da biblioteca ramal do bairro. Já estava fazendo seu trabalho havia quase meia hora quando o carro passou, o distraindo. Enquanto isso, o outro artista responsável pela grafitagem continuava a manejar a tinta spray.

Paulistano, Sergio Oliveira atua na arte há mais de sete anos. Ambos experientes, porém jovens, estavam trabalhando em uma nova “cara” para a biblioteca, atividade que fazia parte da programação do evento.

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Graffiti de Sérgio Oliveira

E ainda bem que o fazia. A obra não estava nem metade pronta e já arrancava elogios dos moradores que cruzavam por lá. “Isso nem parecia uma biblioteca! Olha como uma pinturinha já muda tudo”, comentou uma senhora do outro lado da rua. Não houve sequer uma criança que passasse em frente ao ramal sem voltar sua atenção para os jovens que grafitavam. Poucas horas depois, as palavras Biblioteca Ramal já ganhavam seus retoques finais pelos sprays de Sergio, e a obra de Du também estava quase pronta.

Mas se essa rapidez podia ser aplicada ao grafite dos garotos, certamente não era o caso para o que logo ia começar a rolar a poucos metros dali, no Bosque da Comunidade do Geisel. Lá, “o baguio ia estourar a tarde inteira”. Com o grafite já finalizado, ambos foram convidados pela organização à pintar um largo muro do bosque. Se estivessem pensando que seu trabalho estava chegando ao fim, certamente estariam se enganando.

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A selva tomada

Um palco, duas caixas de som e uma lona por cima formavam uma espécie de tenda, onde iriam subir vários MC’s durante a tarde. O Projeto Ensaio no Bosque estava marcado para começar às 15h, e se dependesse de público, poderia começar até antes.

Em meio às árvores do local havia todo o tipo de morador para prestigiar o evento. Crianças, famílias com seus cães, jovens e a dupla de grafiteiros, que já reiniciava sua arte nos muros da selva urbana.

O primeiro a mandar as rimas e as batidas foi o MC Vurto, abrindo a tarde de apresentações. A quadra de basquete onde o palco estava montado logo começou a ser preenchida de gente, vinda ora do próprio bosque (diga-se de passagem, grande), ora das próprias ruas do bairro.

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Em cima de um tapete quadriculado, os adeptos do breaking não paravam de rodar. Meia dúzia jogavam basquete na outra metade livre da quadra. As cabeças reagindo de maneira positiva às rimas que se propagavam.

Era assim com cada MC que subia naquele palco para executar suas próprias rimas. O rap independente mostrava naquela tarde a sua força – a maioria do público conhecia as letras compostas pelos artistas que, há alguns minutos atrás, também estavam curtindo outro MC rimar.

Seguiu rimando o MC Thigor, dando lugar depois para Betim. Após, foi a vez do RapNobre emendar rimas que protestavam contra a futilidade presente nas músicas comerciais e nos costumes da sociedade em geral.

Já conhecido do público, Coruja BC1 subiu ao palco junto do parceiro Dom Black e da dupla Além da Rima, em duas apresentações que mexeram com a galera presente. Ao fim da tarde, subia ao palco mais uma vez para rimar suas composições.

Mais de nove atrações mandaram suas rimas, beats e pensamentos para o público presente no bosque. Os rappers saldaram seus parceiros que vieram os assistir de vários bairros de Bauru, como também de outras cidades. A família do rap comemorou estar reunida novamente, e além disso, a realização da Semana pela prefeitura. Abrir espaço para uma festa de rap independente mostra que os artistas não estão trabalhando em vão, e mesmo que o preconceito ainda exista, os MCs continuam fazendo sua voz subir mais alto que ele. Tão alto que até Geisel deve ter ouvido.

* publicado originalmente em 19/11/2012