Frente Feminina de Hip Hop realiza bate-papo sobre desconstrução dos padrões de beleza pelas mulheres do Hip Hop

Por Mariana de Moraes
Fotos: Bianca Moreira

Nesta terça-feira (08), rolou a roda de conversa “A Desconstrução do Padrão de Beleza pelas Mulheres no Hip Hop”. Com a presença de mulheres e homens do movimento hip hop, a discussão se deu início às 19:30, no auditório da Estação Ferroviária.
Foram discutidos diversos tópicos que apontam a dificuldade em ser mulher dentro da sociedade patriarcal, que impõem atividades como obrigação das mulheres, como a maternidade, a submissão através de crenças religiosas, o cuidado do lar, submissão aos familiares do gênero masculino, a representação das mulheres na mídia através de padrões estéticos, entre outras opressões.
As discussões iniciaram apontando como o padrão de beleza, que é mantido como o ideal, existe apenas para o lucro da indústria de produtos e serviços estéticos e afeta a auto estima da mulher que se submete à procedimentos cirúrgicos que as deixa expostas à correr riscos de vida.
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A cobrança da mídia e da sociedade por um padrão de beleza estético influencia na saúde mental e física das mulheres, principalmente negra e periférica, que buscam cada vez mais por métodos arriscados a fim de se encaixar em um padrão ilusório e impossível de alcançar.
Também foi pauta a urgência e importância da democratização dos meios de comunicação e a maneira como a publicidade é feita para produtos e serviços oferecidos para as mulheres, que são sempre machistas e de mau gosto, mostrando sempre uma busca pela aparência perfeita na intenção de agradar os homens.
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Uma das integrantes do Rap Plus Size, Issa Paz, que participou do debate disse que dentro do hip hop, a mulher ainda tende a se masculinizar para se encaixar no padrão do movimento e ser aceita como parte integrante, mas que ao mesmo tempo, ainda é exigido que a artista mulher se apresente como uma atração e seja feminilizada para agradar o público, que em sua grande maioria é composto por pessoas do sexo masculino. No entanto, a rapper também aponta que atualmente as mulheres estão mantendo-se femininas dentro da cena, independente da opinião do público e não acreditam mais na padronização do estilo. Ainda assim, a aparência da mulher no rap é o primeiro aspecto avaliado por algumas pessoas dentro da cena hip hop. Se a mulher que está no rap é bonita demais, pode ser que ganhe visibilidade somente por isso ou é desacredita por ser bonita demais para fazer rap, ou por estar fora do padrão e não se encaixar nos padrões que a mídia pede. Pode ser que passem por uma transformação ou não ganhe força na cena.

A roda de conversa também levantou tabus relacionados ao corpo da mulher dentro da sociedade como a menstruação, a masturbação feminina, sexualidade, a hipersexualização da mulher negra, a gordofobia, a mulher negra e a miscigenação, a cultivação dos pelos naturais do corpo, entre outros assuntos.
A roda, composta por muitas mulheres negras, também abordou o feminismo negro e a luta para que as mulheres periféricas tenham os mesmo direitos de mulheres brancas relacionados à saúde. Principalmente no caso do aborto, em que é estatisticamente comprovado que a maioria das mortes que ocorrem são de mulheres periféricas, na tentativa de técnicas desesperadas, enquanto mulheres com boas situações financeiras encontram refúgio em clínicas no exterior ou clínicas que são acobertadas por autoridades. Este ainda é o tema menos discutido pela sociedade conservadora e quando é discutido, é colocado em pauta de maneira hipócrita e egoísta.
No total, participaram cerca de 15 pessoas, todas com muitas histórias de vida parecidas ou que tinham alguma coisa para acrescentar e ajudar a outra.
Foi uma noite de muita troca e conhecimento, podemos perceber que cada vez mais as mulheres tem buscado se empoderar, crescer e estão dispostas a ajudar umas as outras e também a importância da participação dos homens dispostos a escutar e colaborar com esse crescimento para que possamos passar isso a diante através das próximas gerações.

“Bandido bom é bandido recuperado”, diz Karluz Magum sobre a maioridade penal




Tema foi pauta de debate na V Semana do Hip Hop de Bauru no Centro Cultural

Por Ana Carolina Moraes
Fotos: Lucas Mendes

A segunda-feira, 9 de novembro, foi marcada com a mesa redonda sobre a redução da maioridade penal e o genocídio da população preta, pobre e periférica, no Centro Cultural de Bauru, contemplando o quinto elemento do Hip Hop na programação da Semana.

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Maioridade penal diz respeito a idade em que o indivíduo passa a responder criminalmente como adulto. A Proposta de Emenda Constitucional (PEC 171/93) conferiria, aos adolescentes de 16 anos, julgamento segundo o Código Penal para crimes hediondos – como latrocínio, homicídio qualificado, extorsão e estupro.

Mais do que dar visibilidade à polêmica redução, a mesa propôs ouvir seus protagonistas por meio do diálogo, espaço ainda pouco explorado pela sociedade devido a supressão dos meios de comunicação em relação ao tema.  Assim, necessidade de discussão se reflete nas estatísticas, visto que segundo o instituto Datafolha, 87% dos brasileiros são favoráveis à redução. Para Sara Donato, “Ser contra a maioridade penal é o mínimo, e; o que podemos fazer é tentar dialogar com o pessoal, com a molecada da quebrada e apresentar na prática o que é ser a favor da redução, é ir contra si próprios e isso porque eles não tem acesso a essa informação, esses argumentos, esse debate”. A PEC 171/93 foi aprovada pela Câmara dos Deputados em agosto e agora segue em votação no Senado.

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Considerando uma dimensão macro do assunto, o debate reuniu 20 pessoas para pontuar os interesses socioeconômicos e as consequências da medida. O rapper Henrique Thomas, do grupo Além da Rima, entende a medida como uma forma inerte de amenizar a criminalidade no país, porque “o crime é a opção da periferia”. Aliada ao fechamento das escolas públicas, a privatização dos presídios e a criminalização do aborto, a redução da maioridade penal soa como instrumento de desarticulação da sociedade preta, pobre e periférica. “Não é só a questão da maioridade penal, mas sim tudo que ela engloba. Os jovens – pretos, pobres, da periferia – precisam de oportunidade e o sistema nunca nos deu nada. Medidas como essas só contribuem para um extermínio da juventude”, aponta a jornalista livre Mariana Lacava.

O ponto de convergência da mesa redonda foram as opções de saída do crime, como apresentado pelo MC Karluz Magum.

“Bandido bom é bandido recuperado. Quando relançaram esse projeto, eu vi uma ação sombria para condenar a juventude a sofrer com sistema carcerário brasileiro, mas ao mesmo tempo, vi também uma forma de a gente tentar se unir para lutar contra essa forma de opressão”, comenta.

Com mais de duas horas de duração, a discussão evidenciou o Hip Hop como referência para os jovens, um meio de ofertar oportunidades e superar as negligências do Estado.

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Cinema no Frontside

Semana do Hip Hop de Bauru leva cinema para pistas de skate

Por Keytyane Medeiros
Fotos: Lucas Rodrigues

Logo no primeiro dia de atividades da Semana do Hip Hop 2015, aconteceu o Cine Hip Hop edição especial do CEU das Artes, no bairro Bauru 22.

O filme exibido foi “Os Reis de Dogtown – a história do skate nos Estados Unidos”, ao lado de uma pista da skate no bairro, é de 2005, mas ainda é muito atual e traz a história dos Z-boys, um grupo de skateboarders que revolucionou o esporte nos anos de 1970. A história de Tony Alva, Jay Adams e Stacy Peralta emociona a medida que é bastante realista, mostrando o espírito dos jovens skatistas numa época de quebra de paradigmas. A profundidade emocional dos atores e do elenco também chama a atenção e traz proximidade com o público.

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Filme no CEU das Artes

O filme retrata a história de jovens que procuram maneiras de praticar o esporte e não conseguem por questões de infraestrutura, falta de políticas públicas e expulsão dos jovens periféricos do espaço público. Sobre a escolha do filme, William Rodrigues, um dos organizadores da V Semana Municipal do Hip Hop de Bauru acredita que “neste sentido, o filme vem a calhar, por ligar a questão da prática, do esporte, da ocupação do espaço público e da luta por melhores condições para qualquer prática esportiva”.

William ainda acredita que o filme é muito importante por levantar o debate entre esporte, política e educação na juventude. Ele também acredita que a escolha do filme tem no evento tem muito a ver com a essência do movimento, como algo cultural e ao mesmo tempo, político. “O Hip Hop sempre procura dialogar com a cultura local e contextualizar o espaço onde ele pretende desenvolver qualquer tipo de trabalho. Escolhemos o Bauru 22 por conta da pista de skate e da proximidade com os jovens da região que tem o esporte como hobby”, afirma.IMG_0103

Apenas a Semana do Hip Hop, por si só, não é capaz de sanar todas as dificuldades, dúvidas e discussões possíveis dentro da perspectiva do skate e da vida na periferia. Isso é sabido. No entanto, William acredita que a importância dessa atividade é justamente estimular os jovens a dialogar com o poder público, entender quais são os agentes políticos numa cidade e compreender que esporte, cultura e educação são faces da mesma moeda, a fim de “se tornar sujeito no mundo”.

 

1° Fórum Municipal do Hip Hop: a expressão da periferia ainda tem sua essência original?

Militância no movimento e retorno à comunidade são alguns dos assuntos discutidos no evento que reúne rappers, MCs e grafiteiros de Bauru

Por Bibiana Garrido, para Portal Participi*

Foto: Bibiana Garrido
Foto: Bibiana Garrido

As cadeiras que estavam primeiramente colocadas em fileiras na sala logo deram lugar a uma grande roda de conversa, organizada pelos próprios participantes do 1° Fórum Municipal do Hip Hop de Bauru. Reviver o antigo para entender o atual. Esse foi o centro da discussão entre os já veteranos do rap, do grafite, do break, da pixação e toda a atividade de protesto cultural na cidade, e também os iniciantes no caminho do hip hop bauruense.

Cada um dos presentes, os integrantes da mesa, teve o hip hop como uma mãe. Um meio de superação das dificuldades que – para quem nunca viveu na periferia – parecem algo distante, algo que infelizmente acontece. É, acontece. Onde não tem oportunidade tem crime, tem tráfico, tem violência e tem a válvula de escape. A arte, a música, a dança. Tudo se junta numa coisa só que é o sentimento e o viver do hip hop.

“Eu sei da onde eu vim, eu sei a que classe eu pertenço. Sei o que barra o hip hop na sociedade e o que a gente tem pela frente”, desabafa Renato, o “RapNobre”. São vinte e cinco anos na luta pela valorização do hip hop aqui em Bauru, e desde aquela época são organizados campeonatos, batalha de MCs, a união dos grupos começou como uma família.  De acordo com os manos presentes na roda, hoje existe um divisor de águas no rap. “Tudo que tá em atividade tem tendência há mudança. O rap agora começa a sair dos lugares tradicionais e aparecer na mídia, televisão, novela. E começaram a misturar música eletrônica, com rock, com samba, o que dividiu as águas entre um rap da modinha e um rap da velha escola”.

Foto: Bibiana Garrido
Foto: Bibiana Garrido

A questão do protesto, de mostrar a violência através da música, muitas vezes não marca presença em estilos de rap que vão surgindo tanto no Brasil quanto no exterior. Ao decorrer da conversa fica a lição de aprender a somar ao invés de dividir o movimento. “A gente tem que respeitar todo o tipo de rap que tá por aí, tem público para todo mundo”, defende André, participante do Fórum e também da cena cultural do hip hop na cidade.

Com cada vez mais visibilidade nos meios convencionais de informação, o hip hop tenta se ater ao compromisso original da arte, transmitir a mensagem da periferia, a realidade que é escondida por essa mesma mídia. “As grandes mídias são uma coisa que não tem nada a ver com o que a gente representa”, orgulha-se Renato. Pode-se dizer que o saldo do 1° Fórum Municipal de Hip Hop é retomar e relembrar o porquê dessa cultura estar aí, nas ruas, nas rádios, na cidade como um todo. É “plantando a sementinha” do questionamento, como diz um dos integrantes da roda no meio da discussão, da essência humilde e de união, de lembrar o que é o hip hop, que essa cultura vai poder se expandir e ser entendida tal como é por um público cada vez maior. Tendo batida eletrônica ou não, na galeria ou na rua, a mensagem política e a essência vão estar sempre presentes no que é a cultura de periferia de verdade. Como diz Edson, abraçado a seu pequeno filho Ian, “o hip hop não é só chegar e subir num palco. Tem que ter uma consciência e postura, não é só martelar os outros”.

*publicado originalmente em 9/11/2014, para Portal Participi