“Eu tenho medo do descontrole do vício” – Entrevista com Dom Black

 

Dom Black. Foto: Guaíra Maia
Dom Black. Foto: Guaíra Maia

Por Keytyane Medeiros, para o blog e-Colab*

Toco a campainha da sede o Ponto de Cultura Acesso Hip Hop pela quarta vez em menos de duas semanas e imediatamente penso que o simpático Felipe Canela – que sempre me recebeu muito bem – já deve ter cansado da minha cara. É bem provável. Lá em cima, o rapper e também aspirante a documentarista, Dom Black me aguarda. Super prestativo e bem humorado, Dom Black me recebeu em nome da equipe do e-Colab para falar um pouco mais sobre o processo de produção do documentário realizado em parceria com Thigor MC, outro importante músico de Bauru. O filme intitulado “A Praga Do Século” funciona como uma extensão de uma canção homônima da dupla e assim como a música, fala sobre o crack, a depredação pessoal gerada pelo uso e, sobretudo, indica que os usuários podem se livrar da dependência química e retornar a uma vida saudável e próxima de seus familiares. Ouça “A Praga Do Século” aqui.

Qual o objetivo principal do documentário “A Praga Do Século”?
O objetivo é conscientizar a molecada a não se envolver com drogas, e também mostrar a realidade do usuário e da família dele. Todo mundo pensa “ah, ele é nóia” e eu penso que ele [o usuário] não é isso, e sim um cara doente que está passando por um momento difícil. O consumo de crack é um problema que a sociedade tem que se mobilizar para resolver.

E por que a opção de estender esse tema para um documentário, se vocês já haviam tratado do assunto na canção “A Praga Do Século”?
Nós achamos que seria pouco só cantar esses problemas da droga, porque algumas pessoas ouvem, acham legal, entendem, mas acabou por ali. Não fazem mais nada além de ouvir a música. Já vi muita gente fazendo rap, cantando os problemas e isso faz bem, mas podemos fazer alguma coisa a mais, podemos ir e mostrar como é realmente. Uma coisa é a pessoa ouvir, a outra é ela ver e entender o que está acontecendo a partir da voz de outros usuários que conhecem a droga, que fumam e que sabem como ela age.

Ao contrário de canções que em geral falam da maconha e das bebidas, por que você escolheu falar justamente do crack no seu projeto? 
Em primeiro lugar, porque eu tive problemas com parentes próximos que se tornaram usuários e então eu vi essas pessoas ficarem fora de si. Eu acho que todas as outras drogas, a bebida, a maconha, são a porta de entrada dos vícios e eu tenho medo do descontrole do vício. Não só do vício nas drogas, mas em qualquer coisa.

E na sua opinião, por que o consumo de crack têm crescido em Bauru e nas outras cidades do interior do Brasil? 
Crack é barato e vicia rápido. O traficante sabe que vai ter sempre aquele usuário que vai comprar a pedra uma vez e vai retornar atrás de outra. Entre as drogas, o crack é a única que te pega de uma vez só. Acho que só a heroína, que é injetável faz isso também.

Como a temática da droga e dos usuários está sendo tratada no documentário? 
As pessoas não tem dimensão da delicadeza do problema. Queremos mostrar as coisas do jeito são mesmo, desde o familiar que não sabe como lidar até o usuário que quer sair do vício, mas não sabe como fazer isso. Na maioria das vezes, o usuário quer sair, mas não sabe a quem recorrer, e também o usuário em recuperação que sabe que vai ter que lutar contra a dependência química a vida inteira, e outras situações. Não quero formar a opinião de ninguém, eu quero que as pessoas vejam e tirem suas próprias conclusões sobre o crack e sobre os usuários.

Como está sendo o processo de produção e quais as dificuldades de gravar “A praga do século”? 
Tá sendo difícil. Nem todo mundo quer falar abertamente sobre isso, alguns têm medo que patrão descubra que o individuo já foi usuário vai tratá-lo diferente, e coisas assim. Têm muita gente ajudando, mas é difícil por causa do dinheiro também, do deslocamento dos materiais até os locais de filmagem… É complicado, mas está sendo gratificante. A gente tá vendo a melhora de muitas pessoas e sabemos que quando o documentário sair vai abrir a mente de muita gente sobre o crack e sobre os usuários.

Com três meses de produção, Dom Black conta que “A Praga Do Século” ainda não tem data de lançamento definida, mas pela conversa que tive com esse experiente músico e artista bauruense, posso garantir: uma boa obra de denúncia social está por vir. Bauru, assim como o Brasil, precisa compreender que não dá mais para ignorar o efeito devastador do crack, e que ele deve ser tratado urgentemente como uma questão de saúde pública.

*publicado originalmente em 21/08/2012

Entre shows, debates, filmes e atividades de formação, a III Semana do Hip Hop de Bauru ganha robustez e traz Thaíde, GOG e Projota

Com mobilização social, a Semana Municipal do Hip Hop de Bauru tornou-se política pública da cidade. Evento ganha robustez e traz nomes de peso à Bauru.

Por Keytyane Medeiros, para Casa do Hip Hop Bauru

Realizada entre os dias 9 e 17 de novembro, a III Semana Municipal do Hip Hop de Bauru entrou para o Calendário Oficial de atividades da cidade. Até então produzida de maneira independente, a Semana Municipal do Hip Hop se tornou política pública em maio de 2013 por meio de mobilização social pela aprovação da Lei 6258. Com isso, a Semana Municipal do Hip Hop passa a ter também apoio financeiro e de infra-estrutura garantidos pela Secretaria Municipal de Cultura da cidade.

Nesta edição, a Semana trouxe shows de grandes artistas do Hip Hop nacional para participações especiais em shows e oficinas. Com shows de Thaíde e GOG, precursores da primeira e segunda onda do movimento no Brasil, a Semana passa a ser focada em atividades de formação de público e prioriza o quinto elemento: o conhecimento sobre a cultura Hip Hop, sobre a luta dos movimentos negros no país e sobre a criminalização da pobreza.

O show de abertura ficou sob responsabilidade do rapper Thaíde, no Muamba Music. O rapper faz parte da primeira geração do Hip Hop no país, iniciando sua carreira nos anos 80. Ao lado do ex-parceiro DJ Hum participaram da primeira coletânea de rap nacional, Hip Hop Cultura de Rua. O cantor entoou seus maiores sucessos como “Senhor Tempo Bom”, “A noite” e “Apresento meu amigo” com a casa lotada.  Além de Thaíde, a noite de abertura também contou com a participação de rappers locais como Jota F, BetinMC, Abanka e Dois1Dois.

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Formação. Uma das atividades consolidadas com a parceria com a Secretaria Municipal de Cultura está o aumento do número de escolas atendidas pelo Combo 5 Elementos. O projeto levou conhecimento e mini-oficinas dos cinco elementos do Hip Hop (graffiti, breaking, DJ, Rap e conhecimento) para oito escolas municipais e estaduais. O projeto ainda contou com a participação da Frente Feminina de Hip Hop de Bauru que levou questões de gênero para estudantes das escolas, alertando para igualdade de gênero e violência doméstica como males a ser evitados por todos.

A Frente Feminina ainda trouxe duas rappers para ocupar os palcos Interior Tem Voz com Sara Donato no dia 10 de novembro e Tábata Alves no palco de encerramento no dia 17. Além delas, a b.girl Aline Afrobreak ainda ministrou oficinas de breaking durante a Semana.

EMEF Lydia Alexandrina
EMEF Lydia Alexandrina
Henrique Tomas no Combo 5 Elementos
Henrique Tomas no Combo 5 Elementos
EMEF Guia Lopes
EMEF Guia Lopes

Cinema de crítica social. O Cine Hip Hop, realizado no Pontilhão da 13 de Maio, em parceria com a Casa Fora do Eixo de Bauru, trouxe produções audiovisuais bauruenses como o clipe com forte crítica social de Thigor MC e Dom Black, “A Praga do Século” e “Livre Escolha”, documentário de Thigor MC.

Cine Hip Hop II SEMANA
Cine Hip Hop na Semana 2013

Ambas as produções levantam problemas relacionados ao crack, a chamada praga do século. Longe da droga há quase 10 anos, Thigor MC conta em seu documentário como se afastou do vício e como o rap, o Hip Hop e a religião tiveram participação fundamental nesse processo. As produções alertam para uma inversão na lógica do tratamento do crack. Comumente associado à segurança pública, o crack é e deve ser tratado, segundo os produtores, como um problema de saúde pública. Além disso, as produções criticam o descaso do poder público com os usuários, que por meio da higienização da cidade afasta os usuários da paisagem urbana sem resolver seus problemas de saúde ou propor tratamentos alternativos. Os vídeos foram produzidos por Rafael Pessoto, Conrado Dacax e D’Bronx MC.

Shows de encerramento. A Semana foi encerrada com a participação mais que especial de GOG, rapper de Brasília e o primeiro a possuir um selo de gravadora independente do país em 1996, “Só balanço”.

Com canções críticas e politicamente posicionadas como “Brasil com P”, GOG chama a atenção para a questão racial no Brasil. Segundo suas letras, os mortos pelo poder público no Brasil tem CEP e cor, sendo em sua maioria jovens negros de periferias, como o Mapa da Violência 2012 comprova. Em dezembro de 2007, GOG lançou o CD “Cartão Postal Bomba!” totalmente online, apresentando uma nova proposta de negociação, divulgação e distribuição de música independente no país, promovendo o debate sobre auto-gestão entre artistas nacionais. O rapper visionário abriu o show para uma das promessas nacionais do mundo do rap, o jovem Projota.

Projota no encerramento da III Semana Municipal do Hip Hop de Bauru. Foto: Luringa
Projota no encerramento da III Semana Municipal do Hip Hop de Bauru. Foto: Luringa

Projota ganhou destaque no cenário independente após vencer quatro vezes a batalha de mcs da Santa Cruz, em São Paulo. A partir daí, o jovem de 26 anos lançou as mixtapes “Carta aos meus” em 2009 e “Projeção” em 2010. O rapper encerrou a Semana do Hip Hop 2013 com canções de sucesso, alegrando a molecadinha que tem se aproximado ultimamente do movimento Hip Hop. Entre suas canções mais famosas está “Rezadeira”, muito aplaudida pelo público de aproximadamente 10 mil pessoas no Parque Vitória Régia.

III SEMANA FINAL
Encerramento da III Semana do Hip Hop Bauru no parque Vitória Régia. Foto: Ponto de Cultura Acesso Hip Hop

 

I Semana do Hip Hop de Bauru: Hip-hop art

A partir de hoje, Bauru terá sua primeira Semana Municipal do Hip Hop com atividades em diversos bairros

por Bruna Dias, para JC Net*

Está oficialmente aberta a primeira Semana Municipal de Hip Hop de Bauru. Muitos acham que a arte do hip-hop engloba somente a música. Entretanto, esta modalidade cultural está ligada à vivência e à criatividade de cada um, seja com expressões corporais, grafites e outras manifestações regidas ao som característico, que surgiu nas periferias. Por isso, o organizador do evento, Renato Magu, 30 anos, acrescentou à programação palestras, oficinas, filmes e shows.

A ideia de fazer uma semana especial de Hip Hop em Bauru surgiu no início deste ano, quando o Instituto Acesso Popular, uma Organização Não-Governamental (ONG), tornou-se também um dos pontos de cultura da cidade.

Graffiti realizado por Eazy em comemoração à I Semana Municipal do Hip Hop

“Nós não queríamos somente oferecer oficinas e sim fomentar essas artes. Aqui, crianças, adolescentes e jovens aprendem a fazer grafite com material doado, temos um estúdio para eles aprenderem a fazer rap”, contou Magu, que também é coordenador do instituto, localizado no Jardim Altinópolis, em Bauru.

Como a ONG está localizada mais distante da periferia, o objetivo da entidade é aproximar os bairros mais carentes, que são ricos em arte e cultura. “A periferia tem muita cultura. O que queremos é agregar artistas de toda a cidade. Fizemos um evento com diversas atividades”.

Programação. A abertura da Semana Municipal de Hip-Hop de Bauru será hoje às 9h, no auditório da Secretaria Municipal de Cultura com as palestras de Jorge Soriano Moura, membro da Comissão de Direitos Humanos da Subseção da Ordem dos Advogados do Brasil-Bauru (OAB-Bauru); Sílvio Durante, professor de história, e Renato Moreira, do Instituto Acesso Popular.

Amanhã, mesmo sendo feriado, as atividades continuam no Centro Comunitário do Jardim Ouro Verde desde às 9h com oficinas de break, com o b.boy Maior e oficina de stencil e graffite para crianças, com Sérgio Oliveira.

Os participantes também poderão conferir, no Cine Ouro Verde, o filme “Profissão MC”, que traz a história de um rapper da periferia que recebe duas propostas: uma para entrar no tráfico de drogas e outra para seguir apostando no rap.

O encerramento da Semana Municipal de Hip Hop de Bauru será no domingo a partir das 14h, no Parque Vitória Régia com shows de Contexto Oeste, Bandidos em Harmonia e Pelther LB com SNJ Somos Nós & Justiça.

Serviço. A Semana Municipal de Hip Hop de Bauru acontece de hoje ao dia 6, e é uma parceria com a Oficina Cultural “Glauco Pinto de Moraes” e Secretaria de Estado da Cultura, além do apoio da Secretaria Municipal de Cultura de Bauru.

O Centro Comunitário do Jardim Ouro Verde fica na quadra 1 da rua Gabriel Morales; o Cras do Jardim Ferraz na rua Bolívia, 6-63; o Cras Nova Bauru na rua Laurindo Palaro, 1-75 e a Oficina Cultural “Glauco Pinto de Moraes” na rua Amazonas, 1-41, Vla Coralina.

Programação
Terça-feira – 1/11

Abertura da Semana Municipal de Hip Hop com palestra sobre o Movimento Hip  Hop e a Questão Racial e de Direitos Humanos. Palestrantes: Jorge Soriano Moura (Comissão de Direitos Humanos da OAB), Sílvio Durante (Professor de história), Renato Moreira (Instituto Acesso Popular).

Local: Auditório da Secretaria Municipal de Cultura

Horário: a partir das 9hs.

Quarta-feira – 2/11

Oficina de break (com b.boy Maior)

Oficina de stencil e graffiti para crianças (com Sérgio Oliveira)

Cine Ouro Verde – Filme “Profissão MC”

Apresentações de rap com Dom Black e convidados

Local: Centro Comunitário do Jardim Ouro Verde

Horário: a partir das 9h

Quinta-feira – 3/11

Exibição do filme “Profissão MC”

Apresentação da oficina de grafiti e break.

Local: CRAS Jardim Ferraz

Horário: 14h

Sexta-feira – 4/11

Exibição de documentário “Nos Tempos da São Bento”

Apresentação/oficina de Graffiti e Break e Rap

Local: Cras Nova Bauru

Horário: 14h

Sábado – 5/11

Oficinas de rap e break

Exibição de documentário “Nos Tempos da São Bento”

Bate papo sobre a atual conjuntura do movimento cultural Hip Hop.

Com Renato Moreira – Instituto Acesso Popular.

Local: Oficina Cultural “Glauco Pinto de Moraes”

Horário: 14h
Noite: Vozes da Periferia com Dom Black (Bauru) + Slim Rimografia (SP) + discotecagem João Lima

23h30 – R$ 7 (lista amiga) – R$ 12

Domingo – 6/11

Encerramento da Semana Municipal de Hip-Hop com shows de rap, apresentações de break, grafiti e DJs.

Local: Parque Vitória Régia

Horário: 14h

Shows de: Contexto Oeste, Bandidos em Harmonia, Pelther LB (Jaú) + SNJ Somos Nós & Justiça

* publicado originalmente em 01/11/2011