2ª Marcha do Orgulho Crespo De Bauru foi marcada por debates e empoderamento na Estação Ferroviária

Por Mariana de Moraes
Fotos: Mari Soares, Bianca Moreira

No último sábado (12), às 14h saiu da Praça Rui Barbosa a Marcha do Orgulho Crespo: 2º Encontro de Crespas e Cacheadas. A Marcha contou com a presença de mulheres lindas e empoderadas, de todas as idades e profissões. A já acontece em outras cidades e estados e tem como objetivo mostrar para as pessoas que o cabelo crespo é lindo e merece ser respeitado na sociedade.
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A Caminhada se estendeu até a Casa do Hip Hop (Estação Ferroviária), onde aconteceu uma roda de conversa em que foram debatidos temas como o Empoderamento Negro; A Mulher Negra no Brasil e Protagonismo Negro; também marcaram presença no evento as meninas do workshop Entre Dois Mundos, além de empresárias e influenciadores digitais da região.

O debate “Mulher Negra: Construindo Identidade da Cabeça aos Pés” foi ministrado por Patrícia Alves (Mestrado em Comunicação, Informação e Educação em Televisão Digital na UNESP Bauru), e Greice Luiz (Jornalista e Integrante do site QI Mídias) falou sobre “Empoderamento Afro” . Luana Protázio (estudante de Relações Públicas, administradora do site Elogie Uma Irmã Negra) ministrou o tema “Mulher Negra, Afetividade e Autoestima”. Todas abordaram a necessidade de elogiar, e apoiar outras mulheres negras em processo de transição capilar e aceitação de suas características, mas também da importância de empoderar os meninos na aceitação de suas características e identidade.

A conversa foi emocionante, a troca de experiências e as histórias contadas mostraram a importância da união entre os negros e fizeram com que saíssemos de lá com a alma lavada e com maior vontade de lutar por nosso lugar na sociedade.
Para Ivana, idealizadora local do evento, “”A marcha tem como importância passar a mensagem que padrões estão sendo quebrados, que a real importância e ser feliz  com o que cada um tem! O cabelo crespo já foi silenciado por tempo demais por uma padrão de beleza que não no cabe e nem nos interessa. Marchamos para que a sociedade aceite, engula que nossa raiz fala mais alto que qualquer padrão, e quanto mais cara feia fizer mais ele vai crescer” afirma sorrindo.

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O evento também contou com a participação do portal Alma Preta, e os convidados Juarez Xavier, jornalista e Coordenador Geral do Núcleo Negro da UNESP para Pesquisa e Extensão (NUPE), Julia Conceição, estudante de psicologia e co-fundadora do coletivo negro Kimpa da UNESP, e Roque Ferreira, jornalista e ex-vereador da cidade, com o debate “Democratização da Comunicação no Brasil”, abordando a importância que os meios de comunicação têm na representação da sociedade, e o papel da mídia no genocídio da população negra, pobre e periférica, ao justificar tais ações à sociedade. O evento também foi um primeiro momento para o Alma Preta lançar de maneira presencial sua campanha de assinaturas, estratégia encontrada para sustentar do ponto de vista financeiro a continuidade do trabalho.

Tarde de shows marca a abertura oficial da Semana do Hip Hop Bauru 2016

A programação continua na maior Semana do Hip Hop do país. O domingo foi marcado pelo empoderamento da mulher, ativismo e mais uma vez muito hip-hop.

Por Mariana de Moraes e Felipe de Sousa
Fotos: Guilherme Munhoz, Banca Moreira, Mari Soares, Cadu Oliveira

O segundo dia de atividades da Semana do Hip Hop Bauru foi um dos mais aguardados pelo público. A programação começou às 14h no Parque Vitória Régia, com Dj Ding no comando dos toca-discos com clássicos do rap nacional e internacional.

Diretamente de Belo Horizonte, Negra Lud e Neghaun, iniciaram as apresentações que foram marcadas principalmente pela mensagem de superação e resistência. Em entrevista, Neghaun conta que foi uma ótima experiência, “foi muito prazeroso, sair de Belo Horizonte e estar colando aqui em Bauru com vocês e sentir toda essa vibe, sentir que o hip hop permanece vivo e permanece.” Sobre o movimento Hip Hop, o mc minero fala que a sociedade já aceita e deve aceitar mais o movimento, ”O mais importante de tudo que nós, o nosso povo, tem que entender melhor o que a gente planta a varias décadas, a quase 5 décadas, nosso povo tem que entender mais, mas a sociedade está abraçando mais, a sociedade entende o que a gente falava a 20 anos atrás a época que eu comecei, eu acho que estamos no caminho e no progresso”.

Negra lud que também se apresentou afirma que foi uma linda experiência voltar a cantar em Bauru, “Eu acho muito bonito ver o hip hop acontecendendo e é um enorme prazer voltar, eu sinto que estou somando para o que acontece e com o real intuito que o evento tem. (…) O movimento está crescendo cada vez mais, eu acho que a gente ta se apresentando melhor e trazendo conteúdo para as pessoas entenderem o movimento, (…) as pessoas estão começando a receber melhor a proposta do Hip Hop. É interessante isso, as pessoas estão curiosas para saber qual é a desse movimento que está proliferando em todo país, eu diria em todo mundo, tá bonito demais e eu fico muito feliz com tudo isso”.

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As mulheres continuaram trazendo muito empoderamento e presença no evento. Odisseia das flores, o grupo paulistano formado por Jô, Chai e Letícia, chegou a Concha Acústica com rimas repletas de mensagem e força, levando as mulheres da platéia na mesma levada, e a se sentirem representadas.
Quem subiu logo em seguida, diretamente da Cidade Tiradentes, São Paulo, foi o grupo A’s Trinca. Com o trecho “Essa é pra aquele que se identifica, cidade tiradentes zona leste (a’s trinca), três minas no vocal e um Dj no vinil, representatividade das quebradas que emergiu..” da música “Se identifica”, elas mostraram que não estão no jogo pra brincar. Com Músicas sobre representatividade, e denuncia ao machismo, ainda mandaram a letra sobre sua recente presença na televisão, “o hip hop tem que estar em todo lugar!”

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Ao chegar da noite, a presença dos grupos de rap da cidade, Dilema e Origem Rap, empolgou e atraiu mais o público fã do rap do interior. O show contou com participação do Dentão Mc, também artista da cidade, e uma capela do som do grande Mestre Sabotage.

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O grupo RAP PLUS SIZE, formado por Sara Donato e Issa Paz, tomaram o palco e dominaram com rimas que desconstroem o padrão estético e denunciam o machismo, racismo, gordofobia, e buscam o empoderamento da mulher. As minas, que são amigas há tempos e se juntaram recentemente no palco, já estiveram presentes em outras edições da Semana do Hip Hop, mas como grupo esta foi a primeira vez, com músicas como “O pano rasga”, já conhecida do público, fez a galera presente cantar junto e animar ainda mais o role.

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Em uma passagem marcante, o grupo de rap Ordem Natural exibiu sua energia no palco, Os MC’s Gato Congelado e Luo cantaram suas músicas cheia de positivismo e empolgação.
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Próximo às 22h, a concha acústica do Parque Vitória Régia, se transformou ,na mais bela celebração cultural. O MC Rapadura com os sons do disco “Fita Embolada do Engenho” se apresentou e representou o norte e o nordeste do país, com influencia de Luiz Gonzaga, Dominguinhos e a mais pura literatura de cordel, o nordestino mostrou os seus sons mais conhecidos como ‘É doce mais não é mole”, “Moça Namoradeira”, “Norte Nordeste me Veste”, tornando a escadaria do parque um verdadeiro baile.

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A última atração da noite era umas das mais esperadas no cronograma da semana, Thaíde. O Mestre do Hip Hop chegou com seu clássico “Pra cima” numa versão Remix, na companhia do Mister Pumpa Killa e Mc Tifu. O artista com um repertório recheado de clássicos, mostrou todo o seu conhecimento e história no Hip Hop.

 

No decorrer do show, b-boys foram convidados trazendo à Semana do Hip Hop um sentimento da estação São Bento, onde o movimento surgiu e existe até hoje. Thaíde é considerando por sua história no cenário cultural e pelos seus discos considerados verdadeira obras de arte históricas, o MC encerrou o fim de semana de abertura da maior Semana do Hip Hop gratuita da América Latina.
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Mais informações sobre a semana do Hip Hop Bauru, acesse a página no Facebook, Semana do Hip Hop Bauru

Tássia Reis e Sara Donato debatem sobre produção independente e as mulheres no Hip Hop

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Numa discussão inspiradora, duas grandes referências femininas no cenário do Rap nacional falaram sobre dificuldades, conquistas, representatividade e machismo

Por Thamires Motta
Fotos: Mariana Caires e Letícia Abreu

Vindas do interior do Estado de São Paulo, respectivamente Jacareí e São Carlos, as rappers Tássia Reis e Sara Donato soltaram o verbo no debate sobre produção cultural independente e a presença feminina no Hip Hop, que aconteceu no SESC Bauru na última quarta, 11 de novembro.

Para as duas MC’s, a história começou de forma parecida: foi a dança e os eventos de break que as atraíram para o coração do movimento Hip Hop. Conversando sobre o cenário independente e representatividade, elas explicaram suas visões sobre ser mulher no rap.

Debate no auditório
Debate no auditório

Tássia começou a ensaiar os primeiros passos com 14 anos, por influências familiares, já que seu pai, apaixonado por James Brown, tinha um grupo de dança. As rimas começaram em freestyles, aos 21 anos, quando subia aos palcos convidada por amigos e desenvolvia o free. “Quando conheci o Hip Hop, foi o momento em que eu pensei: aqui tem um monte de gente parecida comigo, que é de periferia, com a mesma cor que eu, o mesmo cabelo crespo.” conta. “Achei meu lugar e me senti inserida em alguma coisa pela primeira vez”. Para a MC, que nasceu no Vale do Paraíba, ser independente é fazer o que for preciso, já que “o machismo está aí, e o corre é o dobro para as mulheres”, explica.

“Eu acreditava tanto no meu sonho que fazia outras pessoas sonharem comigo”

Em 2013, depois de cerca de cinco anos escrevendo, surgiu a ideia de gravar um EP, e no ano seguinte ele já estava pronto: sete faixas com fortes influências do jazz, blues, soul e reggae, sem perder as rimas certeiras e melódicas. “Eu acreditava tanto no meu sonho que fazia outras pessoas sonharem comigo”, conta Tássia. “Se você luta por aquilo todos os dias, você é a presidente da parada”, defende ela. Ser independente é ao mesmo tempo uma delícia e uma dificuldade, já que a artista possui mais abertura para tomar decisões, mas ao mesmo tempo, a questão financeira é um entrave.

Para a são carlense Sara Donato, representando a Frente Nacional de Mulheres do Hip Hop, a primeira paixão também foi o break: acompanhando o irmão nos bailes, ela ficou admirada de ver algumas poucas mulheres ousando enfrentar b.boys nas batalhas de dança. Se dedicando à composição de letras, Sara juntou cinco amigas e iniciou seu primeiro grupo de rap, que durou pouco tempo. Sem desanimar, juntou-se ao irmão num grupo masculino e manteve-se durante quatro anos, para algum tempo depois iniciar uma carreira sozinha. “Eu queria que me ouvissem. E disso surgiu o Made In Roça”, explica ela.

Sara Donato
Sara Donato

A mixtape, que nasceu em 2013, foi um dos discos “que você não pode deixar de ouvir” segundo o Vai Ser Rimando, e passou a ter um grande alcance, levando a MC para o programa Encontro, na Rede Globo. “No começou, eu hesitei. Quando a gente vê coisas da nossa quebrada é sempre na página policial. Mas eu fui pra falar o que sempre falo, minha música”, conta Sara. Para ela, o que mais emociona é o apoio que recebeu da cena independente. “Eu acho que tive muita sorte, meus parceiros me ajudaram em tudo. No Made In Roça eu não usei um real, foram as pessoas que acreditam no meu trampo que me ajudaram”, diz.

Representatividade. Com maioria feminina e negra na plateia, as MC’s falaram sobre a representatividade das mulheres no rap e aproveitaram para desmistificar algumas ideias. “Precisamos destruir a ideia machista de que só brigamos entre nós. Para a cena existir, é preciso que todo mundo colabore”, explicou Tássia Reis, ao receber a pergunta se mulheres seriam mais organizadas na produção artística. A questão da representatividade, para ela, vai mais além: “Isso é um fato. Muitas mulheres se enxergam em mim. Hoje eu acredito que minhas letras são muito mais incisivas no recorte de gênero e racial”, argumenta ela.

Tássia Reis
Tássia Reis

Sara é ainda mais enfática: “Eu canto para as mulheres se sentirem representadas, mesmo. A ideia não é segregar, é fortalecer”, explica. A música “A Bela”, primeira composição da MC, critica os padrões de beleza e a futilidade, ideia que chegou ainda mais longe com a faixa “Peso na Mente”, que fala diretamente sobre o preconceito, com rimas cabulosas, como “minha meta não é ser aceita, não preciso me camuflar. Quem foi que disse que pra ser linda não pode engordar?”. A MC conta também que recebe muitos agradecimentos de mulheres nos shows, que ficam emocionadas ao escutar canções que falam sobre suas vidas. “As minas vem tendo mais visibilidade, e a ideia é essa”, diz.

O interior tem voz? Para Tássia, que nasceu em Jacareí e mudou-se recentemente para São Paulo, muitas vezes o interior paulista não possui estrutura para auxiliar os produtores de cultura, em especial do Hip Hop. “Somos muito desestimulados”, conta. “Informações de editais não chegam, as prefeituras não ajudam, parece que nem querem… mas a internet possibilita que você more no interior e realize coisas”, explica. Já Sara Donato ainda não se vê vivendo na grande metrópole. “Se você não se fortalece primeiramente na sua cidade, ir pra São Paulo é ser só mais uma”, acredita.
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Keytyane Medeiros, representante da Frente Feminina de Hip Hop de Bauru, acredita que o debate tem relevância no momento atual. “Vivemos um momento de grande número de produtores culturais, onde os meios de se obter financiamento para veículos de comunicação, peças de teatro e shows, não dependem mais exclusivamente de editais públicos ou privados, todos nós somos produtores de conteúdo e podemos vender esse serviço de maneira autonôma. Entender a participação das mulheres nesse processo é essencial para descontruir o machismo e o racismo no meio cultural também, nossa luta é diária”. 

O debate chegou ao fim com o sentimento de garantia de que as mulheres cada vez mais estarão tomando os espaços, fortalecendo a cena e cantando suas visões de mundo. “A caminhada pode ser difícil, mas a gente tá aí pra colocar uma bomba no sistema, não estamos sozinhas. É clack boom”, finaliza Tássia.