Retrospectiva 2015: produtividade, conhecimento e luta na Casa do Hip Hop de Bauru

Casa do Hip Hop de Bauru é inaugurada e já se consolida como importante ponto de articulação cultural, política e social da cidade

Por Keytyane Medeiros
Imagens: Conrado Dacax, Felipe Moreno, Felipe Amaral, Heitor Facini, Lucas Mendes, Lucas Rodrigues, Lucas Zanetti, Mariana Lacava, Rebeca Farinelli, Thaine Cuba

2015 foi o ano do Hip Hop. Com aparições de peso de rappers na TV e na grande mídia como Emicida, Criolo e Tássia Reis, o movimento atingiu ainda mais visibilidade e públicos diversificados. Músicos como Bárbara Sweet e Rico Dalasam ocuparam espaços em veículos de mídia mais à esquerda protagonizando entrevistas sobre temas que normalmente não são vinculados ao movimento Hip Hop, embora na prática sejam recorrentes na militância, como questões de identidade e opressão de gênero. O Hip Hop, como movimento social rico, orgânico e criativo está se reinventando e incorporando discussões atuais em suas rimas, batidas e jatos de spray, politizando e atualizando nossas lutas diárias em todos os seus elementos. Além disso, o ano foi voltado para a formação e consolidação de contatos em rede em Bauru e no país.

Casa do Hip Hop de Bauru. Este ano foi marcante para o movimento Hip Hop em todo o estado de São Paulo. Cidades do interior paulista como Mogi das Cruzes, Piracicaba, Araçatuba, Campinas e Nova Odessa organizaram festivais, workshops e saraus, absorvendo e proporcionando novos ares ao movimento regional. Em Bauru, a inauguração da Casa do Hip Hop consolidou a cidade como um dos principais pólos de articulação política, cultural e social do movimento no Estado e no país.

A negociação por um espaço próprio para realizar atividades, oficinas e shows já acontecia por membros do Ponto de Cultura Acesso Hip Hop e militantes do movimento de Bauru junto a Prefeitura e Secretaria Municipal de Cultura desde janeiro de 2014, no entanto, a Casa do Hip Hop só se tornou realidade entre os meses de maio e julho deste ano, depois de extensivos acordos com os órgãos municipais. Em maio, junto aos trabalhadores e reeducandos do Instituto Penal Agrícola (IPA) de Bauru, demos início à ocupação de metade do primeiro andar da antiga Estação Ferroviária, espaço abandonado por mais de 20 anos pelo poder público e privado, com longas promessas de revitalização e ocupação nunca efetivadas. A ocupação é simbólica, já que a partir da Estação Ferroviária a cidade passou a se desenvolver cultural, social e economicamente no século XIX (saiba mais sobre a Ferroviária aqui).

As salas estavam sujas, precárias de infra-estrutura básica como iluminação e água e repletas de móveis velhos e mofados. Apesar disso, recebemos apoio financeiro e político da Prefeitura Municipal para a ocupação do espaço e por quase três meses, militantes do movimento deram novos ares a Casa e a Estação Ferroviária também. Antes abandonada e solitária, a Estação Ferroviária viu as cores do Hip Hop revitalizarem o espaço com graffiti, rap nacional e breaking, além de debates e encontros. Para Edson Moraes Timbá, um dos coordenadores do projeto, a intenção era “trazer os jovens para dentro do espaço e assim, dar vida a Casa”, afirma. Em 15 e 16 de agosto, nosso novo lar foi inaugurado. A segunda casa de todo militante da cultura Hip Hop em Bauru estava de portas abertas com shows de artistas locais e convidados como Coruja BC1, Betin MC, Menti Blindada, DJ Kamarão, Lunna Rabetti, Sara Donato, Sharylaine DJ DanDan e grupo Inquérito fechando os dois dias de comemoração e de festa na rua, às porta da Casa do Hip Hop. A participação da Frente Nacional de Mulheres no Hip Hop teve papel decisivo na inauguração da Casa do Hip Hop de Bauru, contribuindo para a formação de um ambiente mais igualitário e politizado no que diz respeito às questões de gênero e à presença feminina nos palcos.

Oficinas e formação. Com a Casa inaugurada as atividades de formação, que já aconteciam em espaços descentralizados da cidade, se consolidaram. Timbá afirma ainda que “a Casa do Hip Hop é muito importante porque com ela podemos repassar o conhecimento no breaking, rap, graffiti, DJ, no quinto elemento (conhecimento sobre a cultura) e na educação, transformando vidas através da cultura Hip Hop, tirando jovens da rua e da vida ociosa”.

São mais de 10 oficinas, totalmente gratuitas, realizadas todos os dias da semana na Casa do Hip Hop por voluntários e militantes culturais da cidade, que viram no espaço uma oportunidade de expandir seus conhecimentos e atingir diversos públicos. Entre as atividades estão oficinas dos quatro elementos formadores do Hip Hop, isto é, Rap, DJ, Graffiti e Breaking, além de aulas de kick-boxing, audiovisual, fotografia digital, stencil, costumização de roupas, capoeira angola, samba rock, jazz e dança contemporânea, entre outros.

Uma das maiores preocupações da Casa do Hip Hop de Bauru sempre foi a formação crítica e política não só dos coordenadores, mas principalmente do público e dos militantes da cultura. Em setembro demos início ao Cine Pixote, um cine clube colaborativo organizado em parceria com a Frente Feminina de Hip Hop de Bauru e a Biblioteca Móvel – Quinto Elemento e ao Cursinho Comunitário Acesso Popular, curso pré-vestibular gratuito coordenado junto ao Instituto Acesso Popular. Além disso, a Frente Feminina de Hip Hop de Bauru também organiza um grupo de estudos focado no movimento feminista negro e periférico, a fim de instrumentalizar e empoderar mulheres com relação a seus direitos, protagonismo na cena e liberdade de expressão e fim das opressões e violências de gênero. A Frente também participou do Encontro Regional de Mulheres no Hip Hop, realizado em julho na cidade de São Carlos. Lá pautas como feminismo, identidade de gênero e participação feminina nos eventos de Hip Hop foram discutidas e articuladas para 2016.

Shows e atividades musicais. Se antes, sem espaço próprio diversas apresentações musicais ligadas ao Hip Hop já aconteciam na cidade, movimentando a cultura bauruense, com a inauguração da Casa, mais duas atividades chegaram para ampliar as possibilidades artísticas de rappers, beatmakers e DJs. Além dos tradicionais Rap Hour e Projeto Ensaio, que levam Rap ao Teatro Municipal e aos bairros comunitários, respectivamente, o Estação Hip Hop estreou como mais uma atração mensal, realizada na área de desembarque ao lado dos antigos trens da Estação, a cada três domingos por mês.

Os shows são ótimos espaços de encontro entre o público e os cantores, com infra-estrutura de som, iluminação e DJ, além de espaço para que b.boys e b.girls da cidade demonstrem seu talento. No entanto, o Hip Hop não deve viver só de shows. Uma das características que tornam o Hip Hip um movimento tão vívido e dinâmico é a realização de batalhas de MCs. Na década de 1970, com a criação das primeiras festas de rap nos bairros de Nova York, criadores do cultura como Afrika Bambaataa, Kool Herc, GrandMaster Flash e Cindy Campbell incentivavam batalhas de rimas, a fim de criar uma competição saudável que pudesse envolver jovens e afastá-los das drogas e da violência. Estas batalhas diminuíram o número de pessoas envolvidas em gangues e estimulava a criatividade para criar rimas, poemas e compor canções no tempo livre. Em Bauru não é diferente. A cidade necessitava de mais espaços de batalhas de rimas, já que as poucas que existiam foram desaparecendo com o tempo. Por isso, a Batalha da Panelinha passou a fazer parte das atividades musicais da Casa, todas as sextas-feiras, convidando rimadores locais e de cidades da região para batalhar com criatividade, desenvoltura e talento.

Rede Nacional das Casas do Hip Hop e Encontros Regionais. A Casa do Hip Hop de Bauru é uma entidade autônoma integrada a outros articuladores culturais e sociais no nosso movimento. Por isso desde 2013, a Casa, por meio do Ponto de Cultura Acesso Hip Hop, faz parte da Rede Nacional das Casas da Cultura Hip Hop e Empreendimentos Solidários, integrando, gerenciando e organizando os pilares do primeiro setorial de cultura do país. A Rede, composta atualmente por mais de 15 casas e empreendimentos solidários, tem como objetivo proporcionar o comércio justo e horizontal de produtos e serviços entre seus membros, fomentando uma economia própria, sem exploração do trabalho. Desta forma, cada Casa da cultura Hip Hop no país pode produzir camisetas, bonés, bottons, shows e eventos de qualidade e oferecê-los ao próprio público, de maneira direta, sem intermediários e assim, gerar emprego e renda para os ‘nossos’. (Saiba mais sobre Economia Solidária e Hip Hop aqui).

Rede Nacional das Casas no 4º Congresso da Unisol Brasil.
Rede Nacional das Casas no 4º Congresso da Unisol Brasil.

Por conta disso, a Casa compôs importantes espaços de debate sobre os rumos do movimento Hip Hop e a intersecção com a Economia Solidária ao longo do ano, especialmente nos meses de junho, agosto, outubro e novembro. Para Renato Magú, um dos coordenadores da Casa do Hip Hop de Bauru participar da Rede Nacional das Casas e de outros pontos de articulação cultural pelo país é muito importante e positivo, “porque assim conseguimos dividir nossas experiências de alguns avanços e retrocessos com outros companheiro/as e realizar essa troca com eles, sobre o que funciona ou não, tendo mais fruição, tanto receber essas pessoas na nossa cidade, quanto ser recebido em outros locais”, afirma. Com relação à Rede, Magú destaca que ela surgiu da necessidade de ter mais representatividade política entre os militantes da cultura,“quando a gente se organiza em rede, fica mais fácil obter alguns progressos, tanto na formação, quanto na questão de obtenção de recursos” e assim obter mais independência e autonomia. Além disso, a Casa também teve representantes em outros importantes encontros regionais do movimento.

Em 2015, participamos do Encontro Paulista de Hip Hop, realizado no Memorial da América Latina e do Festival Emergências no Rio de Janeiro. “Por exemplo no Encontro Paulista de Hip Hop, do jeito que tem sido feito pela assessoria estadual para a cultura Hip Hop, entendo como um encontro paulistano de Hip Hop e toda vez que a gente participa, vamos justamente para pautar que o Hip Hop não é feito só na capital, é feito no interior também e que merece respeito. Ainda que a assessoria não tenha essa visão hoje, trata-se de um órgão estadual, então ela tem por obrigação dar atenção para pólos fora da capital”, defende. No Nação Hip Hop, realizado no início de dezembro em São Bernardo do Campo, a participação da Casa de Bauru também foi significativa, a medida que levou produtos produzidos dentro da lógica da economia solidária para outros pontos do Estado durante o evento. “Foi muito importante para nós porque tem roupas e produtos nossos espalhados pelo país inteiro e tivemos a oportunidade de apresentar a Rede Nacional das Casas da Cultura Hip Hop para vários outros coletivos”. No Rio de Janeiro, puxamos a feira de Economia Solidária durante o Festival Emergência, inclusive contando com o apoio do Ministro da Cultura, Juca Ferreira, afirmando que este modelo de empreendimento é uma saída possível para a crise econômica que o país enfrenta nos últimos dois anos.

Semana do Hip Hop 2015. Há dois anos, por meio de mobilização social, a Semana Municipal do Hip Hop de Bauru se tornou uma política cultural da cidade, por meio da aprovação da lei 6358/2013, contando com o apoio da Prefeitura Municipal e da Secretaria Municipal de Cultura para a sua realização. Por meio da lei, a Semana tem se consolidado como o maior festival gratuito de Hip Hop do país, com apresentações musicais de relevância política e cultural como Crônica Mendes, Rapadura Xique-Chico, grupo Inquérito, Issa Paz, Sara Donato, Feniks, Tássia Reis, Lunna Rabetti, Negra Lud, Jota F, Além da Rima, Menti Blindada e Betin MC, estes últimos importantes expoentes regionais. De 6 a 15 de novembro foram nove dias de atividades, incluindo visitas em escolas e entidades sociais como a SORRI, CIPS e Legião Mirim para apresentação do Combo 5 Elementos, no qual os elementos da cultura Hip Hop e do feminismo são apresentados para crianças e jovens de maneira descontraída e envolvente.

Além dos shows e dos Combos, houve debates e mostra audiovisual com os filmes “O Rap pelo Rap”, “Reis de Dogtown – história do skate nos Estados Unidos” e “Profissão MC” em espaços abertos da cidade e workshops sobre o movimento, como “Nos tempos da São Bento”, com Marcelinho BackSpin, um dos fundadores da primeira crew de breaking do país. O debate sobre produção cultural e presença feminina no Hip Hop com Tássia Reis e Sara Donato realizado no Sesc em parceria com a Frente Feminina de Hip Hop de Bauru e a Frente Nacional de Mulheres no Hip Hop, que participou de todo o evento, também foi muito importante para a consolidação da discussão de gênero no movimento, enriquecendo a vivência dos militantes da cultura. Com um público de aproximadamente 30 mil pessoas no show de encerramento no Parque Vitória Régia, Emicida elogiou o movimento na cidade e reforçou a importância de eventos deste porte no interior do país.

Em entrevista exclusiva ao portal da Casa do Hip Hop de Bauru, o rapper reforçou que “o Hip Hop é o único movimento cultural brasileiro que se aprofundou a ponto de trazer elementos da nossa cultura brasileira antiga, é a rapaziada que samplea o samba, por exemplo, e ao mesmo tempo, o Hip Hop é uma coisa contemporânea”. Por isso, eventos como a Semana proporcionam momentos de encontro entre artistas e fãs, militantes e leigos da cultura. “Isso aqui faz as pessoas se encontrarem e essa relação é mais importante para o Hip Hop, porque o Hip Hop acontece na rua. Quando você consegue levantar um palco, uma luz legal, um som legal e uma rapaziada bacana se apresentando com coisa legal para falar, isso é uma vitória para o Hip Hop mundial, não só do Brasil”, afirma. “Acho que o que tá acontecendo aqui hoje é uma grande vitória para o Hip Hop mundial porque não é fácil fazer isso, em instância nenhuma, mover as coisas num país tão preconceituoso e racista”, aponta.

Em dezembro, a Casa também apoiou o movimento secundarista local contra a chamada “reoganização escolar” promovida pelo governo do Estado de São Paulo, sob gestão do governador Geraldo Alckmin. Oferecemos oficinas e realizamos o Combo 5 Elementos nos colégios Ferreira de Menezes e Stela Machado, localizados em regiões periféricas da cidade. Pontuamos a necessidade da educação e da cultura como ferramentas de luta e discussão política e parabenizando os estudantes pela luta e pela resistência diária contra a privatização dos direitos constitucionais básicos.

Perspectivas para o futuro. Com um ano repleto de conquistas e vitórias, a Casa do Hip Hop promete ainda mais integração em 2016. Timbá destaca que as oficinas profissionalizantes e atividades esportivas tiveram ótimos resultados neste ano, atraindo crianças, jovens e adultos para o espaço, instrumentalizando os participantes e distribuindo conhecimento. O desafio agora é fazer com que a Casa, que possui 7 salas e um auditório compartilhado com outras entidades culturais na Estação Ferroviária, estejam permanentemente ativas, gerando ainda mais conhecimento e proporcionando a ocupação do espaço público por meio da arte e da tecnologia. “Ano que vem teremos um telecentro e daremos ainda mais atenção para as atividades profissionalizantes. Também temos que pensar mais nos jovens que desejam seguir carreira artística e por meio da Casa, dar uma perspectiva melhor de vida para estes jovens”, afirma Timbá. Em 2016, as atividades da Casa do Hip Hop de Bauru vão enriquecer ainda mais o cenário político e cultural da cidade. Oficinas, shows e o cursinho pré-vestibular Acesso Hip Hop estarão a todo vapor, na antiga Estação Ferroviária de Bauru, onde tudo começou e agora, mais de um século depois, esta parte da cidade volta a ser revisitada, revitalizada e colorida pelas cores e batidas da cultura Hip Hop.

Duas mulheres e uma só voz

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A participação do grupo Rimação na V Semana do Hip Hop mostrou que, assim como o interior, as minas também tem voz

Por: Gabriela Martinez

Fotos: Rebeca Farinelli

O último sábado da V Semana do Hip Hop aconteceu no Vitória Régia. Enquanto rolava a Primeira Feira de Economia Solidária do Hip Hop do Estado de São Paulo no gramado central, o Rap Nacional tomou conta do palco Interior Tem Voz.

Por ali já haviam passado Bruno Bl, Dois1dois e Negra Lud quando chegaram as minas do Rimação.

Com músicas que refletem a luta da mulher brasileira para conquistar seu espaço, o grupo Rimação mandou o recado e recebeu de volta fortes aplausos da galera que, aos poucos, lotava as arquibancadas.

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Marcia e Camila são de Mauá-SP, juntas vieram pela primeira vez para a Semana do Hip Hop, já Camila esteve na edição anterior do evento em Parceria com as MC’s Issa Paz e Sara Donato e comenta que é muito importante a união que um evento como esse promove entre cidades e até estados.

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O Rimação, que significa a junção das palavras “rima” e “ação”, existe nesta formação desde 2012, porém a caminhada das duas no movimento Hip Hop é bem mais antiga. Marcia e Camila são MC’s há aproximadamente dez anos e participaram de outros grupos antes de consolidarem o Rimação.

Com um videoclipe gravado, o grupo lança ainda este ano o primeiro CD com o nome “Maria da Penha”, título de uma das músicas que compõem o CD. Com 12 faixas, o CD vem como a realização de um sonho e o início de outro, pois as duas já estão pensando no próximo CD, “talvez intitulado Carolina Maria de Jesus”, como comenta Marcia.

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Entrevista: De tanta porta fechada, as mina se organizaram

Frente Nacional Mulheres no Hip Hop participa da V Semana de Hip Hop Bauru, reivindicando a presença feminina no movimento

Entrevista por Ana Carolina Moraes
Fotos: Mariana Lacava, Lucas Rodrigues e Felipe Amaral

Elas vieram de São Paulo para somar com movimento de Bauru. A Frente Nacional Mulheres no Hip Hop (FNMH²), coletivo feminino fundado em 2010, acompanhou o desfile de moda urbana no sábado, 7 de novembro, e participa da Abertura Cultural da Semana do Hip Hop 2015, fortalecendo a luta  das mulheres neste universo. Entre desabafos e risos, Lunna Rabetti, DJ Niely, DJ-Rua César, Gabi Nyarai e Issa Paz contam os desafios e satisfações do que é ser mulher dentro do movimento.

Quem é quem. Mãe e filha, Lunna Rabetti e DJ Niely permanecem juntas inclusive se o assunto for Hip Hop. Lunna é uma das fundadoras da Frente Nacional Mulheres no Hip Hop, idealizadora do site Mulheres no Hip Hop e foi membro do grupo Livre Ameaça. Já Niely, 13 anos, compõe o grupo Livre Ameaça desde os 5 anos de idade e  hoje, além do disc jockey, a DJ dedica-se ao 5º elemento do movimento, o conhecimento, participando de debates e roda de conversas.

Gabi Nyarai é rapper, compositora, cantora e trabalhadora, participa de batalhas de conhecimento. DJ-Rua César tem 19 anos de Hip Hop e cultura de rua. Atua como DJ amador há 5 anos e toca para Issa Paz, MC desde 2004, freestyleira de batalha de sangue e de conhecimento, lançou seu primeiro álbum de estúdio, “A arte da refutação”, em meados de 2015.

Issa Paz no palco de abertura
Issa Paz no palco de abertura

 

É uma cultura de silenciamento, na realidade.

Como é ser mulher no universo Hip Hop?
DJ Niely: É difícil ainda, né… A gente não tem tanto espaço que nem os manos tem. Então é difícil uma mina conseguir subir num palco porque tem muito homem, muito machismo no Hip Hop, né. Claro que tem mulher no Hip Hop, só que a gente não ganha tanto espaço para se pronunciar. E essa é uma luta de mil anos atrás, desde Sharylaine, que é uma das pioneiras do movimento, e prevalece hoje quase que sem mudança, porque o machismo ainda é muito forte.

Issa Paz: É uma cultura de silenciamento, na realidade. O Hip Hop ele prega a igualdade, e dentro dele fala-se muito de liberdade, de união. A gente tem que lidar não só com o machismo na cena, mas com a hipocrisia de cada uma dessas pessoas que acredita nisso e quando tem a oportunidade, oprime uma mulher. Então, não é só o boicote aos espaços, não é só o silenciamento da mulher nesses espaços, mas também o uso frequente da própria arte para oprimir.

Gabi Nyarai: O Hip Hop tá na sociedade né, então reflete a dificuldade de ser mulher também nesse espaço. E ao mesmo tempo tem todo um julgamento do que é certo ou errado dentro movimento, e quando você pensa na mina, tem toda carga de opressão porque tá dentro da sociedade. É foda! Tanto que tem toda essa movimentação das mulheres, né, igual a música da Sara Donato, “de tanta porta fechada, as mina se organizou”.

Gabi no palco de abertura
Gabi no palco de abertura

Quais espaços enfrentam mais resistência à presença feminina no movimento?
Lunna Rabetti: As mulheres, em todos os elementos, têm suas dificuldades. De repente fica mais evidenciado no rap porque o rap é o que normalmente está na frente do palco… Mas a gente conta nos dedos quantas DJs têm no Brasil e elas também sofrem as mesmas dificuldades. Por exemplo, DJ é um elemento muito caro por causa de todo equipamento, e ai você fica dependendo se o evento vai ter ou não, e os caras gostam mesmo é de complicar, né.

DJ-Rua César: E a melhor DJ do mundo é brasileira, a DJ Cinara Martins, né. Duas vezes seguida, bicampeã nacional do Red Bull Thre3Style e tem muita gente que nem conhece ela.

Lunna Rabetti: Elas não tem visibilidade. Isso porque a gente tá falando de Hip Hop, mas se a gente for falar de futebol, que é paixão nacional, também vai encontrar esse problema. Acho que essa invisibilidade é num contexto geral.

Issa Paz: Quando eu comecei a me envolver com as mina da FNMH², comecei a realmente ter contato com o Hip Hop na sua forma essencial, eu percebi que é a mesma coisa que a gente passa enquanto MC. O machismo está na sociedade, é normal. Só que não pode ser normalizado. A gente tem que enfrentar isso, em todos os espaços, por isso a FNMH² acolhe todo mundo

A arte ter que ser um contexto subversivo para questionar o que existe.

Como conciliar arte e militância para disseminar cultura em busca de política públicas de gênero?
Issa Paz: Não tem como separar arte de militância. Ou a militância tá inserida na arte, ou não é nem arte, é entretenimento. Porque a arte ter que ser um contexto subversivo para questionar o que existe.

Gabi Nyarai: Não é para ser só uma coisa legal, é para surtir efeito. Tem que ter qualidade, tem que ter propósito. Eu encaro a música como empoderamento, então, se eu ‘respirei’, minha missão é também proporcionar ‘respiro’ às outras pessoas. Isso é arte. Se não for por isso, por quê? Para ser legal, estar na moda ou render dinheiro? Não! É luta, é militância!

Lunna Rabetti: Mas vale lembrar que nem todo mundo tem essa ideologia. Tem muita gente que fala que canta rap, mas não é da militância. E tem também quem faça uma militância contrária a que o Hip Hop deveria fazer. Acho que não é todo mundo que pensa assim, mas deveria ser. Na verdade, acho que até essas pessoas que se dizem não ser militante, um dia vai cair a ficha de que é e se entender. Que nem mulher que é do movimento Hip Hop e se diz não ser feminista: em algum momento ela vai falar ‘Caramba! Eu sempre fui feminista’.

Como é ser referência para outras mulheres no Hip Hop?
Issa Paz: Não me sinto como referência… É que a gente está trabalhando e isso incomoda, né. É muito bom porque você fortalece outras mulheres, que fortalecem outras mulheres, e é uma corrente do bem do fortalecimento, do empoderamento e disseminação de ideias. Se Sharylaine plantou uma sementinha lá atrás, hoje ela é uma floresta gigante que está se multiplicando. Essa é a ideia, cada uma de nós somos referência.

DJ Vivian, uma das referências da jovem DJ Nielly
DJ Vivian, uma das referências da jovem DJ Niely

DJ Niely: Uma vez, a minha mãe estava numa roda de debate na qual só tinha homens. E nisso, ela estava discutindo sobre o tema quando uma menininha começou a fazer uma pergunta. No final, o pai dela veio falar com a minha mãe dizendo que ela nunca tinha pegado num microfone antes. E depois a menininha mesmo disse que se sentiu representada vendo aquela mulher ali. Isso para mim é representatividade, ser referência.

Lunna Rabetti: Essa história é tão interessante porque o pai dessa menininha é o Ferréz, e ele também estava na roda de debate. Aí abriu para plateia e ela fez uma pergunta para ele, e depois o Ferréz comentou que ela sempre o acompanha, mas nunca fez nenhuma pergunta. E aí ela mesma falou que se sentiu mais a vontade porque tinha  mais mulheres falando na mesa. Então eu acho que isso é muito importante, a gente se torna referência nesse sentido. Não no sentido de ser uma artista consagrada, mas no sentido de ser empoderar outras mulheres.

DJ-Rua Cézar: São anos de repressão né, então às vezes a pessoa já se sente reprimida porque a sociedade toda já a reprime. Às vezes ela quer falar, quer dá uma opinião, mas ela não se sente a vontade. Então precisa de um exemplo, igual ao exemplo de uma mulher no palco.

Gabi Nyarai: Eu já participei de batalha na qual eu ganhei antes mesmo de cantar porque tinha muita mina na plateia. E geralmente a mina está com o namorado, meio que desinteressada, mas quando eu subi no palco elas foram para frente e começaram a gritar e aplaudir, porque é ação, é fazendo.

Exigindo seu espaço com garra e determinação, a FNMH² participa da Semana do Hip Hop 2015, em mais dois momentos. Em debate sobre produção cultural independente, por meio da Frente Feminina de Hip Hop de Bauru e durante o fim de semana com a presença de Feniks, Sara Donato e Negra Lud se apresentando nos palcos Interior tem Voz e palco de encerramento, além de ter participado do palco de abertura, no dia 8 de novembro com Issa Paz, Brisa Flow, Gabi Nyarai e DJ Vivian Marques.

 

Mulheres fazem barulho e representam no Mic e nas Pick-ups na Semana do Hip Hop

No primeiro domingo da Semana do Hip Hop de Bauru, a representatividade feminina foi um dos destaques nos palcos, trazendo nomes como Issa Paz, Brisa Flow e DJ Vivian Marques para agitar o público bauruense.

Por Thamires Motta
Fotos: Felipe Moreno

DJ Nielly tem apenas 13 anos mas já demonstrou sem esforço que comanda as pick-ups tão bem quanto qualquer deejay com muitos anos de experiência. No último domingo (8), ao lado de Vivian Marques, as duas agitaram o Parque Vitória Régia com uma seleção de músicas black dançantes e raps clássicos.

DJ Vivian Marques
DJ Vivian Marques

Envolvida com o hip hop “desde que estava na barriga”, Nielly tem a música no sangue: começou a rimar com 5 anos, ao lado da mãe Lunna Rabetti, no grupo Livre Ameaça. Com 14, decidiu que gostava mesmo é de riscar os discos, e com o apoio da família, começou a participar de oficinas e ter aulas com grandes nomes do Hip Hop feminino, como as deejays Simmone Lasdenas e a própria Vivian Marques, com quem dividiu o palco. A idade não é obstáculo para que Nielly consiga analisar o cenário Hip Hop pela ótica da representatividade feminina. Para ela, “até hoje as mulheres vem lutando para ter espaço no palco, para mandar ideia no microfone ou mandar uma música ‘da hora’ de uma mina nas pickups”, conta ela.

Brisa Flow
Brisa Flow

A primeira mulher MC a pisar nos palcos da Semana do Hip Hop de Bauru foi Brisa Flow, nascida em Belo Horizonte, trazendo em seu sotaque muito estilo e levada que inspirou b.boys a ensaiar alguns movimentos na grama do parque Vitória Régia. A mineira já havia se apresentado em Bauru na inauguração da Casa do Hip Hop, em agosto, e voltou para a cidade comparecendo a um palco maior, com um público ainda mais animado. Para Brisa Flow, Bauru se destaca das grandes capitais porque “aqui os quatro elementos são muito mais unidos”. A MC acredita que a importância da Semana do Hip Hop é justamente compartilhar cultura, com enfoque especial na atuação das mulheres dentro do movimento. “Nós sempre estivemos em todas as áreas do Hip Hop, e representatividade importa porque quando a gente não aparece, não somos lembradas”, conta ela.

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Issa Paz

Issa Paz, que veio da zona norte de São Paulo para a Semana do Hip Hop, cantou diversas faixas do CD “A Arte da Refutação”, seu primeiro disco de estúdio. Entusiasmando o público com rimas rápidas e certeiras, a MC entoou “Respeita nosso corre” com mulheres e homens a uma só voz. Para Issa, “se a mulher não se vê em algum lugar, em cima dos palcos, sua própria mente pensa que ela não é capaz”, explica. “Quando você não vê mulheres falando das suas vivências, é um silenciamento”. A MC também comentou sobre a dificuldade das mulheres em encontrar produção de qualidade e pessoas que as apoiem nas gravações, no fortalecimento da cena. Para ela, a Semana do Hip Hop de Bauru é importante justamente para que o interior tenha mais representatividade, e como membro da Frente Nacional de Mulheres no Hip Hop, assim como Lunna Rabetti, DJ Nielly e Brisa Flow, Issa deve ter razão. No entanto, com uma presença de peso no palco, as MCs provaram que o interior tem dado cada vez mais voz para as mulheres, um espaço conquistado com muitas rimas, passos e discos riscados.