Entrevista Exclusiva РGOG fala sobre SEPPIR e auto-gesṭo no Hip Hop

Foto: Lucas Rodrigues da Silva
Foto: Lucas Rodrigues da Silva

Entrevista por Keytyane Medeiros e Gabriela Martinez, para Semana do Hip Hop Bauru*

O rapper GOG, do Distrito Federal, se apresentou no encerramento da IV Semana Municipal do Hip Hop de Bauru, no último dia 16 de novembro e conversou um pouco com a equipe de comunicação do evento sobre Hip Hop, auto-gestão e sobre ser padrinho oficial do evento. A Semana do Hip Hop é uma realização do Ponto de Cultura Acesso Hip Hop e da Prefeitura Municipal de Bauru.

Em meio à turnê de shows, você conseguiu encaixar Bauru e a Semana do Hip Hop na sua agenda, inclusive apadrinhou o evento. Como é que foi isso?
Bom, na realidade tudo é um processo. Eu já conheço o Magú já faz um tempo, a gente tem um carinho e um respeito mútuo, e a Semana do Hip Hop é uma coisa que foi pensada, gestada. Na primeira impressão as pessoas pensam “pô, aconteceu”, mas teve toda uma história lá atrás pra que isso acontecesse. Como a gente conversou isso lá atrás, a gente pensava isso, então quando a Semana se personifica, a gente ta aqui não só na elaboração, mas pra conferir e participar também, no sentido de ver as coisas acontecerem e participar também. E Bauru é um eixo que a gente sempre passa, é um ponto de encontro, o povo gosta da gente, tem uma identificação, então agora receber o convite para ser o padrinho da Semana do Hip Hop, embora seja motivo de orgulho, também é natural diante do processo histórico.

GOG, você começou lá em 1996, com a sua gravadora “Só balanço”, com a idéia de auto-gestão no rap. Como você encara o movimento Hip Hop hoje, acredita que algo mudou com o tempo sob essa perspectiva?
Tem uma frase de uma música nova minha, chamada África Tática, e diz o seguinte: “não desviar na reta do fim das vozes do início”, ou seja, não valeria a pena se agora a gente desviasse totalmente do caminho, nos finalmentes, quando o Hip Hop toma essa gramatura, a gente mudar as pedras que alicerçam a nossa cena. É bem verdade também que muita coisa, se você não tiver o pensamento histórico aguçado e toda hora vendo o trajeto, você acaba se enganando porque vão pintando várias cenas no meio do caminho que parece que são verdades, mas não tem a força e o alicerce das pedras que nós colocamos lá atrás. Eu acredito muito na auto-gestão, pratico, enquanto a gente ta aqui conversando, tem uma lojinha rolando vendendo CDs, livro, camisetas e isso não só pela geração econômica, mas pela possibilidade de criar novas cenas, pela idéia de criar um território negro, periférico, que perambula, que dialoga com o estado negro. A gente sempre chega sem muito foco, numa cara de quem vai pedir ajuda, como quem quer negociar um favor, na auto-gestão não, lidamos de maneira profissional com o outro. Acho que o caminho do Hip Hop agora é se organizar no sentido de a cada lançamento vender 1 milhão de discos de cada artista nosso sem precisar ir na mídia convencional. É uma contradição, mas eu quero fortalecer as mídias comunitárias, os celulares, os blogs, as mídias independentes. As pessoas falam que a mídia televisiva e de revista é importante, mas o Racionais vendeu 1 milhão de discos quando tudo isso não era possível,antes da era digital, antes da internet. Nosso povo trafica, vende droga, você sabe que existe isso no nosso meio, mas a gente não consegue comercializar disco. Eu acho que são esses os divãs que nós precisamos sentar e discutir com a nossa comunidade e ver onde estamos errando e é isso, a auto-gestão é oxigênio.

Foto: Felipe Moreno
Foto: Felipe Moreno

Sobre a sua possível participação como ministro da Secretaria de Política e Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), como andam as negociações?
Eu recebi com surpresa essa cena, as pessoas sempre falavam que eu tenho perfil pra esse tema, mas eu tenho colocado dentro de mim que eu tenho que ser o fogo que aquece a água da chaleira, o movimento social é isso. A crise hoje não é da política brasileira, mas do movimento social brasileiro, hoje nossas maiores militâncias, as pessoas que estavam na linha de frente, hoje estão nos gabinetes, eles que estão dizendo “não” pras nossas demandas e eu não quero dizer “não” pra um parceiro meu no sentido de discutir políticas afirmativas e você não poder falar “vamos resolver” e eu dizer pra ele “olha mano, a máquina é realmente complicada e não tem o que fazer”. Então recebo com muito orgulho a notícia, mas acho muito difícil isso ir adiante. Existe uma pressão do movimento negro, do movimento cultural, eu vejo também isso com naturalidade porque nós temos muitos quadros nas paredes, mas não temos quadros perambulando e essa carência de quadros perambulando, faz com que as pessoas olhem pra outras e falem “pô cara, você poderia ser” [o representante], mas eu acho que já to na posição ideal, to bastante satisfeito com o papel que eu desempenho, fico muito feliz, mas acho difícil se concretizar.

A Semana Municipal do Hip Hop de Bauru é realizada de maneira independente desde 2011 e a partir de 2013, tornou-se lei e parte do calendário oficial da cidade, sendo realizada em parceria com o Ponto de Cultura Acesso Hip Hop e a Prefeitura Municipal de Bauru.

*publicada originalmente em 17/11/2014, via MadMimi

Entre shows, debates, filmes e atividades de formação, a III Semana do Hip Hop de Bauru ganha robustez e traz Thaíde, GOG e Projota

Com mobilização social, a Semana Municipal do Hip Hop de Bauru tornou-se política pública da cidade. Evento ganha robustez e traz nomes de peso à Bauru.

Por Keytyane Medeiros, para Casa do Hip Hop Bauru

Realizada entre os dias 9 e 17 de novembro, a III Semana Municipal do Hip Hop de Bauru entrou para o Calendário Oficial de atividades da cidade. Até então produzida de maneira independente, a Semana Municipal do Hip Hop se tornou política pública em maio de 2013 por meio de mobilização social pela aprovação da Lei 6258. Com isso, a Semana Municipal do Hip Hop passa a ter também apoio financeiro e de infra-estrutura garantidos pela Secretaria Municipal de Cultura da cidade.

Nesta edição, a Semana trouxe shows de grandes artistas do Hip Hop nacional para participações especiais em shows e oficinas. Com shows de Thaíde e GOG, precursores da primeira e segunda onda do movimento no Brasil, a Semana passa a ser focada em atividades de formação de público e prioriza o quinto elemento: o conhecimento sobre a cultura Hip Hop, sobre a luta dos movimentos negros no país e sobre a criminalização da pobreza.

O show de abertura ficou sob responsabilidade do rapper Thaíde, no Muamba Music. O rapper faz parte da primeira geração do Hip Hop no país, iniciando sua carreira nos anos 80. Ao lado do ex-parceiro DJ Hum participaram da primeira coletânea de rap nacional, Hip Hop Cultura de Rua. O cantor entoou seus maiores sucessos como “Senhor Tempo Bom”, “A noite” e “Apresento meu amigo” com a casa lotada.  Além de Thaíde, a noite de abertura também contou com a participação de rappers locais como Jota F, BetinMC, Abanka e Dois1Dois.

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Formação. Uma das atividades consolidadas com a parceria com a Secretaria Municipal de Cultura está o aumento do número de escolas atendidas pelo Combo 5 Elementos. O projeto levou conhecimento e mini-oficinas dos cinco elementos do Hip Hop (graffiti, breaking, DJ, Rap e conhecimento) para oito escolas municipais e estaduais. O projeto ainda contou com a participação da Frente Feminina de Hip Hop de Bauru que levou questões de gênero para estudantes das escolas, alertando para igualdade de gênero e violência doméstica como males a ser evitados por todos.

A Frente Feminina ainda trouxe duas rappers para ocupar os palcos Interior Tem Voz com Sara Donato no dia 10 de novembro e Tábata Alves no palco de encerramento no dia 17. Além delas, a b.girl Aline Afrobreak ainda ministrou oficinas de breaking durante a Semana.

EMEF Lydia Alexandrina
EMEF Lydia Alexandrina
Henrique Tomas no Combo 5 Elementos
Henrique Tomas no Combo 5 Elementos
EMEF Guia Lopes
EMEF Guia Lopes

Cinema de crítica social. O Cine Hip Hop, realizado no Pontilhão da 13 de Maio, em parceria com a Casa Fora do Eixo de Bauru, trouxe produções audiovisuais bauruenses como o clipe com forte crítica social de Thigor MC e Dom Black, “A Praga do Século” e “Livre Escolha”, documentário de Thigor MC.

Cine Hip Hop II SEMANA
Cine Hip Hop na Semana 2013

Ambas as produções levantam problemas relacionados ao crack, a chamada praga do século. Longe da droga há quase 10 anos, Thigor MC conta em seu documentário como se afastou do vício e como o rap, o Hip Hop e a religião tiveram participação fundamental nesse processo. As produções alertam para uma inversão na lógica do tratamento do crack. Comumente associado à segurança pública, o crack é e deve ser tratado, segundo os produtores, como um problema de saúde pública. Além disso, as produções criticam o descaso do poder público com os usuários, que por meio da higienização da cidade afasta os usuários da paisagem urbana sem resolver seus problemas de saúde ou propor tratamentos alternativos. Os vídeos foram produzidos por Rafael Pessoto, Conrado Dacax e D’Bronx MC.

Shows de encerramento. A Semana foi encerrada com a participação mais que especial de GOG, rapper de Brasília e o primeiro a possuir um selo de gravadora independente do país em 1996, “Só balanço”.

Com canções críticas e politicamente posicionadas como “Brasil com P”, GOG chama a atenção para a questão racial no Brasil. Segundo suas letras, os mortos pelo poder público no Brasil tem CEP e cor, sendo em sua maioria jovens negros de periferias, como o Mapa da Violência 2012 comprova. Em dezembro de 2007, GOG lançou o CD “Cartão Postal Bomba!” totalmente online, apresentando uma nova proposta de negociação, divulgação e distribuição de música independente no país, promovendo o debate sobre auto-gestão entre artistas nacionais. O rapper visionário abriu o show para uma das promessas nacionais do mundo do rap, o jovem Projota.

Projota no encerramento da III Semana Municipal do Hip Hop de Bauru. Foto: Luringa
Projota no encerramento da III Semana Municipal do Hip Hop de Bauru. Foto: Luringa

Projota ganhou destaque no cenário independente após vencer quatro vezes a batalha de mcs da Santa Cruz, em São Paulo. A partir daí, o jovem de 26 anos lançou as mixtapes “Carta aos meus” em 2009 e “Projeção” em 2010. O rapper encerrou a Semana do Hip Hop 2013 com canções de sucesso, alegrando a molecadinha que tem se aproximado ultimamente do movimento Hip Hop. Entre suas canções mais famosas está “Rezadeira”, muito aplaudida pelo público de aproximadamente 10 mil pessoas no Parque Vitória Régia.

III SEMANA FINAL
Encerramento da III Semana do Hip Hop Bauru no parque Vitória Régia. Foto: Ponto de Cultura Acesso Hip Hop

 

III Semana Municipal de Hip Hop de Bauru: evento entra no calendário oficial da cidade

Terceira edição conta com nomes como GOG, Thaíde, Sombra e Projota

por Revista Rap Nacional*

Já consagrada como um dos maiores eventos culturais de Bauru, a Semana Municipal de Hip Hop chega à sua terceira edição mais forte que nunca. De 9 a 17 de novembro, o festival vai ocupar diversas áreas da cidade com shows de rap, exposições de graffiti, batalhas de breaking, sessões de cinema, oficinas, debates e ações educacionais.

É a primeira vez em que a Semana acontece como parte integrante do Calendário Oficial de Eventos da cidade, instituída pela Lei 6358, de 24 de maio de 2013. O reconhecimento do poder público trouxe novas dimensões ao festival, que este ano conta com quatro nomes de peso do rap nacional em sua programação. Thaíde, GOG, Sombra e Projota são shows confirmados, respectivamente, para os dias 9, 10, 16 e 17.

A agenda de shows inclui também artistas e grupos que fazem sucesso no cenário local do movimento. A escalação de bauruenses para a Semana conta com AlemDaRima, DJ Ding, D’Bronx, JotaF, BetinMC, Abanka, Dois1Dois, Thigor MC, Ment Blindada, Bandidos em Harmonia, Tiago Vurto, D’Quebra, Dom Black, RapNobre MC e Coruja BC1, menino prodígio que vem conquistando reconhecimento no circuito nacional desde o ano passado.

 

Palco “Interior tem voz”. Buscando valorizar a rica produção do Hip Hop além dos holofotes das grandes cidades, o festival realiza no feriado do dia 15 uma sequência de shows trazidos de diferentes cidades do interior paulista. Ao longo de toda a tarde, a praça pública do Parque Santa Edwiges recebe apresentações de Veneno H2 (Franca), Ramonstro (Barretos), Lheo Zotto (Ribeirão Preto), Sintonia Sonora (Barra Bonita), Daniel Garnet e Pqnoh (Piracicaba), Revolução LDE (Marília) e Prodígios (Jaú).

Lugar de mulher é no palco. Tendo entre seus organizadores a Frente Feminina de Hip Hop da cidade, a Semana não poderia deixar de ter atrações que representassem a força das mulheres no movimento. Duas MCs têm presença confirmada no evento: a são-carlense Sara Donato, que canta no Sambódromo no dia 10, e a paulistana Tábata Alves, escalada para o encerramento no Parque Vitória Régia, no dia 17. Além delas, a b.girl Aline Afrobreak vem da capital para ministrar uma oficina de breaking para meninas no dia 14, no Centro Cultural.

Hip Hop no currículo. Consciente do papel do Hip Hop como ferramenta de formação, a Semana tem como uma das suas principais características a realização de atividades educativas e conscientizadoras. Serão oficinas, debates e outras ações, com o objetivo de incentivar a reflexão e circular informação entre o público do evento.

Seis dos nove dias de festival contam com oficinas, dedicadas a oferecer informações básicas a quem gostaria de atuar em diversas vertentes do movimento. Haverá aulas gratuitas sobre produção de vídeos, graffiti, breaking e criação de beats. Já os debates e as rodas de bate-papo abordarão temas que vão da discriminação de camadas sociais desfavorecidas à presença da mulher no Hip Hop.

Henrique Tomas no Combo 5 Elementos

Além disso, a terceira edição da Semana tem como novidade a realização dos chamados “Combos dos Cinco Elementos” em escolas públicas de Bauru, levando bate-papos e apresentações aos alunos. Ao todo, oito escolas receberão os Combos, que acontecem nos dias 11, 12, 13 e 14.

 

Construção colaborativa. A 3ª Semana Municipal de Hip Hop é uma realização do Ponto de Cultura Acesso Hip Hop e da Prefeitura Municipal, em parceria com Frente Feminina de Hip Hop de Bauru, CurtaBauru, Casa Fora do Eixo Bauru, Wise Madness, Frente de Hip Hop do Interior Paulista, Rede Nacional das Casas de Hip Hop, Bauru Breakers Crew, Oficina Cultural Glauco Pinto de Moraes e Secretaria de Estado da Cultura. A iniciativa conta com o apoio de Caritas Diocesana, Conselho Regional de Psicologia, Rádio Unesp FM e Madiba Shop e Projeto Colorindo o Interior.

 

Flyer da III Semana Municipal de Hip Hop de Bauru
Flyer da III Semana Municipal de Hip Hop de Bauru

 

*publicado originalmente em 7/11/2013