A arte tomando vida: Segunda edição do evento “Inspire-se”

Tinta ou spray e muita inspiração, assim as obras na parede da antiga Casa do Biscoito no centro da cidade tomam vida.

Texto e fotos por Felipe Sousa

A segunda edição do evento Inspire-se aconteceu no último domingo, 15. O evento trouxe um pouco da experiência do elemento graffiti, da pichação, além do rap, break e patins ao público amante da arte marginal.

O evento acontece a cada três meses, organizado e idealizado pelos artistas Vini Vira-lata e André, essa cerimonia da arte tem como objetivo mostra os artistas da cidade que usam do graffiti, e da pichação para se expressarem. André conta que a ideia é unir todos os elementos do hip hop, com destaque para o graffiti e a street art que é considerado um esporte. “A gente tá unindo tudo que está separado que a sociedade não curte, e está fazendo um evento para a sociedade. A ideia veio daí, o Vini com os elementos do hip hop, graffiti e rap, e eu como adorador e admirador desse esporte.”  Vini complementa em suas palavras sobre o nome do evento e o seu ideal. ”A ideia era mostrar que a arte é uma evolução diária, ninguém é melhor que ninguém, mas num dia aquele pode está inspirado e p outro não, e vice versa, é uma batalha diária apesar de acontecer [o evento] de três em três meses.”

Uma das atrações mais esperadas era a competição de Bomb. Nessa modalidade, o artista tem apenas cinco minutos para mostrar o seu talento nas paredes, e o público decide o vencedor.  

 

O evento também teve apresentações de patins nas pistas plantadas no espaço, e patinadores do ABC Paulista deram um show de habilidade em uma pequena apresentação.

 

A tarde ainda recebeu as batalhas de break, os integrantes da Bauru Breakers Crew e apresentações dos grupos da região Dilema, Renegados Mc’s, Ouro D’mina e Rimanos e Dentão da Rima que também foi o mestre de cerimônia e encerrou as atividades.

 

Inspire-se agradou o público presente e mostrou um pouco da vivência dos artistas que vivem da arte marginal, a terceira edição ainda não tem data marcada, mas já é aguardada ansiosamente  pelo público amante e fã do evento.

 

 

 

 

 

Tarde de shows marca a abertura oficial da Semana do Hip Hop Bauru 2016

A programação continua na maior Semana do Hip Hop do país. O domingo foi marcado pelo empoderamento da mulher, ativismo e mais uma vez muito hip-hop.

Por Mariana de Moraes e Felipe de Sousa
Fotos: Guilherme Munhoz, Banca Moreira, Mari Soares, Cadu Oliveira

O segundo dia de atividades da Semana do Hip Hop Bauru foi um dos mais aguardados pelo público. A programação começou às 14h no Parque Vitória Régia, com Dj Ding no comando dos toca-discos com clássicos do rap nacional e internacional.

Diretamente de Belo Horizonte, Negra Lud e Neghaun, iniciaram as apresentações que foram marcadas principalmente pela mensagem de superação e resistência. Em entrevista, Neghaun conta que foi uma ótima experiência, “foi muito prazeroso, sair de Belo Horizonte e estar colando aqui em Bauru com vocês e sentir toda essa vibe, sentir que o hip hop permanece vivo e permanece.” Sobre o movimento Hip Hop, o mc minero fala que a sociedade já aceita e deve aceitar mais o movimento, ”O mais importante de tudo que nós, o nosso povo, tem que entender melhor o que a gente planta a varias décadas, a quase 5 décadas, nosso povo tem que entender mais, mas a sociedade está abraçando mais, a sociedade entende o que a gente falava a 20 anos atrás a época que eu comecei, eu acho que estamos no caminho e no progresso”.

Negra lud que também se apresentou afirma que foi uma linda experiência voltar a cantar em Bauru, “Eu acho muito bonito ver o hip hop acontecendendo e é um enorme prazer voltar, eu sinto que estou somando para o que acontece e com o real intuito que o evento tem. (…) O movimento está crescendo cada vez mais, eu acho que a gente ta se apresentando melhor e trazendo conteúdo para as pessoas entenderem o movimento, (…) as pessoas estão começando a receber melhor a proposta do Hip Hop. É interessante isso, as pessoas estão curiosas para saber qual é a desse movimento que está proliferando em todo país, eu diria em todo mundo, tá bonito demais e eu fico muito feliz com tudo isso”.

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As mulheres continuaram trazendo muito empoderamento e presença no evento. Odisseia das flores, o grupo paulistano formado por Jô, Chai e Letícia, chegou a Concha Acústica com rimas repletas de mensagem e força, levando as mulheres da platéia na mesma levada, e a se sentirem representadas.
Quem subiu logo em seguida, diretamente da Cidade Tiradentes, São Paulo, foi o grupo A’s Trinca. Com o trecho “Essa é pra aquele que se identifica, cidade tiradentes zona leste (a’s trinca), três minas no vocal e um Dj no vinil, representatividade das quebradas que emergiu..” da música “Se identifica”, elas mostraram que não estão no jogo pra brincar. Com Músicas sobre representatividade, e denuncia ao machismo, ainda mandaram a letra sobre sua recente presença na televisão, “o hip hop tem que estar em todo lugar!”

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Ao chegar da noite, a presença dos grupos de rap da cidade, Dilema e Origem Rap, empolgou e atraiu mais o público fã do rap do interior. O show contou com participação do Dentão Mc, também artista da cidade, e uma capela do som do grande Mestre Sabotage.

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O grupo RAP PLUS SIZE, formado por Sara Donato e Issa Paz, tomaram o palco e dominaram com rimas que desconstroem o padrão estético e denunciam o machismo, racismo, gordofobia, e buscam o empoderamento da mulher. As minas, que são amigas há tempos e se juntaram recentemente no palco, já estiveram presentes em outras edições da Semana do Hip Hop, mas como grupo esta foi a primeira vez, com músicas como “O pano rasga”, já conhecida do público, fez a galera presente cantar junto e animar ainda mais o role.

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Em uma passagem marcante, o grupo de rap Ordem Natural exibiu sua energia no palco, Os MC’s Gato Congelado e Luo cantaram suas músicas cheia de positivismo e empolgação.
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Próximo às 22h, a concha acústica do Parque Vitória Régia, se transformou ,na mais bela celebração cultural. O MC Rapadura com os sons do disco “Fita Embolada do Engenho” se apresentou e representou o norte e o nordeste do país, com influencia de Luiz Gonzaga, Dominguinhos e a mais pura literatura de cordel, o nordestino mostrou os seus sons mais conhecidos como ‘É doce mais não é mole”, “Moça Namoradeira”, “Norte Nordeste me Veste”, tornando a escadaria do parque um verdadeiro baile.

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A última atração da noite era umas das mais esperadas no cronograma da semana, Thaíde. O Mestre do Hip Hop chegou com seu clássico “Pra cima” numa versão Remix, na companhia do Mister Pumpa Killa e Mc Tifu. O artista com um repertório recheado de clássicos, mostrou todo o seu conhecimento e história no Hip Hop.

 

No decorrer do show, b-boys foram convidados trazendo à Semana do Hip Hop um sentimento da estação São Bento, onde o movimento surgiu e existe até hoje. Thaíde é considerando por sua história no cenário cultural e pelos seus discos considerados verdadeira obras de arte históricas, o MC encerrou o fim de semana de abertura da maior Semana do Hip Hop gratuita da América Latina.
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Mais informações sobre a semana do Hip Hop Bauru, acesse a página no Facebook, Semana do Hip Hop Bauru

Ocupar e Resistir: Casa do Hip Hop de Bauru comemora um ano!


Com a inauguração no dia 15 de agosto de 2015, a Casa do Hip Hop de Bauru comemora um ano, marcado por desafios, projetos e muita cultura.

Por Felipe Sousa e Luana Protazio
Imagens: Acervo Casa do Hip Hop de Bauru

 

Desde sua inauguração na Antiga Estação Ferroviária, há um ano, muita coisa mudou. Hoje, a Casa do Hip Hop de Bauru atende, em média, 500 pessoas por mês entre projetos internos e externos, oferecendo um vasto repertório de oficinas e atividades.

Ao todo, são 22 oficinas tanto culturais quanto profissionalizantes, e um cursinho pré-vestibular para alunos oriundos de escola públicas. Para Renato Magu, coordenador geral da Casa, “a questão do Hip Hop por si só já é muito importante, porém tínhamos também a necessidade de geração de renda e de colocar outros coletivos para ocupar o espaço, possibilitando maior amplitude e diversidade na Casa”.

A Casa da Cultura Hip Hop é gerenciada pelo Ponto de cultura Acesso Hip Hop, que também gerencia a Biblioteca Móvel do Quinto Elemento, coletivo que proporciona ações de distribuição e troca gratuita de livros a fim de incentivar a leitura, e a Frente Feminina de Hip Hop, que realiza debates, oficinas, saraus e rodas de conversa com o objetivo de discutir o papel e importância da mulher no movimento Hip Hop. Atualmente ambos ocupam a Casa.

(Confira o cronograma completo das oficinas aqui.)

O Ponto possui projetos de valorização com o intuito de fortalecer a cena local, como o projeto Rap Hour, que desde 2013 leva shows de rap de convidados de Bauru e região para dentro do Teatro Municipal da cidade. O Projeto Ensaio, que nasceu em 2011, e tem como propósito dar a visibilidade a artistas locais iniciantes e também os já consagrados. E a Estação Hip Hop, que surgiu junto à inauguração da Casa e abre espaço para convidados da cidade e da região a se apresentarem na estação ferroviária, proporcionando também que bboys e bgirls se divirtam e mostrem seu talento.
Nos últimos meses, esses projetos se afirmaram também como campo de resistência. Dada as tensões políticas no país, a Casa do Hip Hop de Bauru promoveu eventos, debates, e intervenções artísticas à favor da democracia e se posicionando contra qualquer retrocesso às minorias. Afirmando que como movimento de rua, não se cala diante às opressões. “Como uma organização de 3º setor, nossa posição é clara ao pedir que toda essa crise politíca no pais se resolva, para que nós e outras instituições possamos seguir atendendo cada vez mais nosso foco prioritário que é o povo.” comenta Magu.

Outro projeto importante é o Combo dos 5 elementos, que leva conhecimento e história através dos elementos que compõem a cultura para as escolas públicas de Bauru e todo interior de São Paulo. Este, antes realizado apenas na Semana do Hip Hop, no último ano se consolidou como projeto primário de formação, podendo acontecer a qualquer momento do ano.

Combo dos 5 elementos na Semana do Hip Hop 2015
Combo dos 5 elementos na Semana do Hip Hop 2015
Hoje o espaço também recebe diversos eventos relacionados. Em julho, foi realizado o II Fórum Regional de Mulheres no Hip Hop,  mediado pela Frente Feminina de Hip Hop de Bauru e a Frente Nacional de Mulheres no Hip Hop. O evento contou com oficinas, rodas de conversas sobre gênero, mulher no hip hop, e feminismo negro e atrações artísticas, sendo todas as atividades ministradas por mulheres. Para Rayra, da Frente Feminina de Hip Hop, Bauru ter sido escolhido como um dos pólos do Fórum Regional este ano foi de extrema importância, pois em suas palavras “isso fortalece as mulheres do movimento, fortalece as que já estão no rolê, atuando ou não nos elementos, além de incentivar outras mulheres a se formarem, e se organizarem. Também é importante enquanto coletivo, sentirmos que somos muitas e que não estamos sozinhas, e para o movimento como um todo, para mostrar a força da mulher dentro do Hip Hop.” No momento, a Frente Feminina H2 de Bauru está se organizando para participar ativamente do Fórum Nacional, que será realizado em São Paulo no próximo mês.
Fórum Regional de Mulheres no Hip Hop. Foto: Luana Nayhara
Uma das atividades mais comentadas, é a Batalha da Panelinha. Toda quarta-feira o espaço enche de manos e minas para ver quem leva a melhor na batalha de freestyle. Na última semana, a Panelinha saiu da casa e aconteceu na Feira de Exposições, no Recinto Mello Moraes, levando muita energia e uma experiência diferente para quem participou, assistiu ou passou pelo Stand da loja da casa, que tem camisetas de coleção exclusiva, cds dos mc’s da região entre outras coisas.
Timbá é um dos responsáveis pela Batalha da Panelinha, que acontece toda quarta-feira
Timbá é um dos responsáveis pela Batalha da Panelinha, que acontece toda quarta-feira
Para o futuro, o Ponto aguarda resposta de alguns projetos em nível nacional e estadual, e outros em nível municipal já estão em andamento, como o Projeto Ensaio que foi aprovado pelo Programa de Estimulo a Cultura e o Projeto Samba Nossa Vila, em parceria com a escola de samba Mocidade Unida da Vila Falcão e do Bloco Carnavalesco Esquadra da Indepa. Magu define as expectativas como melhores possíveis, “A perspectiva é de crescimento. Antes era novo para todo mundo, mas neste tempo preparamos um alicerce firme para crescer com qualidade.”

A casa vem conquistando espaço no cenário nacional, transformando vidas através do conhecimento, lazer e estímulo a cultura, e sendo ponto de descentralização de produção cultural e artística na cidade. É a celebração de um primeiro ano gigante de sonhos, oportunidades, solidariedade, união, alegria e resistência. O primeiro ano de muitos que virão. Vida longa à Casa do Hip Hop!

Economia Solidária: o que isso tem a ver com o Hip Hop?

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Encontro da Rede das Casas em Araçatuba. Junho/2015. Foto: Mariana Lacava

Rede Nacional das Casas da Cultura Hip Hop é a primeira cooperativa nacional de arranjos produtivos de cultura do país

Por Keytyane Medeiros

Em agosto de 2015, mais precisamente no dia 17 deste mês, foi formalizada a Rede Nacional das Casas da Cultura Hip Hop. Constituída por 16 Casas da Cultura Hip Hop e empreedimentos solidários espalhadas pelos estados de São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo tornou-se oficialmente uma Rede de Cooperativas e Arranjos Produtivos, pautada pelos preceitos da Economia Solidária e é a primeira cooperativa nacional de cultura.

Bob Controversista, um dos gestores da Rede Nacional das Casas do Hip Hop acredita que a conquista é bastante significativa para a Rede. “Na prática, a gente cria condições de ampliar os arranjos produtivos entre os empreendimentos da rede, cria condições para avançar na autogestão das Casas com mais autonomia, haja visto que a maioria delas tem parcerias com o poder público, o que ceifa a independência, no sentido de tomadas de decisão. E o mais importante, é ter amarrado por meio da Carta de Princípios e do Estatuto, o ser humano e o meio ambiente como centro desse processo de autogestão”, afirma.

Mas o que é Economia Solidária? Em entrevista concedida à revista Estudos Avançados da USP em 2008, Paul Singer, um dos principais pesquisadores do tema no Brasil defende que a Economia Solidária é “um modo de produção que se caracteriza pela igualdade. Pela igualdade de direitos, os meios de produção são de posse coletiva dos que trabalham com eles – essa é a característica central. E a autogestão, ou seja, os empreendimentos de economia solidária são geridos pelos próprios trabalhadores coletivamente de forma inteiramente democrática, quer dizer, cada sócio, cada membro do empreendimento tem direito a um voto”.

Em documento publicado pela prefeitura de Curitiba em 2012, “a economia solidária é uma alternativa inovadora na geração de trabalho e na inclusão social, na forma de uma corrente do bem que integra quem produz, quem vende, quem troca e quem compra. Seus princípios são autogestão, democracia, solidariedade, cooperação, respeito à natureza, comércio justo e consumo solidário”.

Apesar do crescimento recente e da formalização de uma Secretaria de Economia Solidária no Ministério do Trabalho ter acontecido somente em 2004, a Economia Solidária surge como movimento social já no século XIX. Segundo documento organizado pela Universidade Federal Fluminense, originalmente a Economia Solidária é conhecida como Economia Social, tendo sido rebatizada na sua chegada ao Brasil em 1970.

A partir da Primeira Revolução Industrial, em meados do século XIX, artesãos, comerciantes e pequenos agricultores tem seus negócios prejudicados pelo advento da máquina a vapor e da formação das fábricas. Em contrapartida e numa tentativa de fugir ao modelo industrial de negócio, formam-se as primeiras cooperativas de compras, vendas e distribuição igualitária de produtos, baseadas no comércio justo entre os associados. A primeira grande experiência nesse sentido é a cooperativa de consumo Rochdale, na Grã-Bretanha em 1844.

Para Paul Singer, a Economia Solidária tem propósitos políticos bastante claros, à medida que “demonstra que a alienação no trabalho, que é típica da empresa capitalista, não é indispensável. A heterogestão é justificada como eficiente a partir da visão de que alguns são mais capazes do que outros. A meritocracia justifica o poder de decisão estar concentrado no dono, o capitalista, depois em seus gerentes, enquanto a grande maioria é destituída de qualquer poder de decisão e mesmo de conhecimento sobre o conjunto”, afirma. Isto acontece pois, no sistema capitalista, os meios de produção e os lucros não são compartilhados coletivamente com os trabalhadores de uma empresa, mas divididos conforme a função e a tarefa exercida por cada assalariado. Dessa maneira, os trabalhadores passam boa parte da carreira exercendo as mesmas funções e tarefas, com pouca ou nenhuma variação ao longo do tempo, tornando o trabalho alienante, segundo Singer. Para ele, “o trabalho é uma forma de aprender, de crescer, de amadurecer, e essas oportunidades a economia solidária oferece a todos, sem distinção”, afirma.

Bob Controversista, que além de gestor da Rede Nacional das Casas do Hip Hop é também coordenador do Ponto de Cultura P de Protagonismo em Guarulhos e educador popular há 15 anos, acredita na capacidade geradora de renda da Economia Solidária. “A Economia Solidária traz a concepção de arranjos produtivos com sustentabilidade e colaborativismo para gerar emprego e renda. Sem hierarquizar ou fomentar a concorrência crua entre os coletivos e sim criar condições para que as pessoas possam sobreviver de maneira igualitária e justa dentro da Rede”.

Encontro da Rede das Casas em Bauru. Agosto/2015
Encontro da Rede das Casas em Bauru. Agosto/2015. Foto: Guilherme Silva

Para Leonardo Pinho, cientista político e coordenador regional da UNISOL Brasil – Central de Cooperativas e Empreendimentos Solidários, a Economia Solidária é antes de tudo, uma estratégia. “Trata-se de uma perspectiva de olhar para o país e para o seu desenvolvimento não mais baseado na concentração em grandes empresas e multinacionais, mas uma economia que vai além de produzir bens e riqueza para alguns, seja uma economia focada no ser humano e nas necessidades locais, respeitando as culturas tradicionais e as perspectivas comunitárias de cada região do país. Para nós, é uma estratégia de desenvolvimento fundada no respeito à vida e às pessoas, sendo produzida e comercializada por meio de bancos e poupanças, todos de forma coletiva e autogestionária, voltado para a perspectiva do desenvolvimento local”, afirma. A UNISOL Brasil é uma central de representação de coletivos e empreendimentos que tenham como fundamento a autogestão coletiva de seus negócios. A Central ajuda a estruturar projetos, editais e parcerias com universidades dentro e fora do país.

Mas e a Crise Econômica? Leonardo Pinho acredita que a crise econômica atual faz parte do esgotamento de um ciclo de acumulação capitalista que se iniciou principalmente com a crise dos *subprimes e papéis financeiros em 2008. Para o cientista político, o desafio hoje é observar e construir alternativas viáveis para o modelo de negócio capitalista. “As alternativas do grande capital, historicamente são, a negação do papel do Estado em momentos de crescimento e em contrapartida, pedir socorro a esse mesmo Estado em momentos de crise. O que a Economia Solidária propõe é aproveitar esses momentos de crise para organizar de forma coletiva os trabalhadores mostrando que eles tem capacidade de gerir empresas e negócios coletivamente e propor uma nova economia”, afirma. Segundo ele, as grandes indústrias tomam medidas de corte de fornecedores e investimento, além de arrojo salarial.

Segundo pesquisador Paul Singer, em seu artigo “Desenvolvimento Capitalista e Desenvolvimento Solidário”, o desenvolvimento capitalista está fundamentado na propriedade privada e na meritocracia, excluindo, portanto, os trabalhadores dos processos de gerenciamento das empresas. Assim, a modo de produção capitalista divide a sociedade em camadas antagônicas, isto é, proprietários e empregados, ficando aos primeiros a responsabilidade de conduzir os negócios. Outro aspecto importante deste tipo de produção é a concorrência, que para o pesquisador, é a mola propulsora do desenvolvimento capitalista.

A Economia Solidária, com seus preceitos de autogestão coletiva e sustentabilidade critica duramente este método. Para Bob Controversista, a Economia Solidária enfrenta a crise com geração de renda e possibilidades. “A Economia Solidária passa ilesa nesses momentos de crise à medida que avança nas cadeias produtivas com consumo sustentável e regrado pelos empreendimentos, inclusive fazendo a economia capitalista girar num processo de desconstrução constante”, afirma.

Para o educador popular, uma rede de arranjos produtivos como a Rede Nacional de Casas do Hip Hop, a primeira cooperativa nacional de cultura do país, representa um avanço significativo na organização de um novo modelo de negócio no Brasil. “Trata-se de uma rede de produção, distribuição e gerenciamento orgânico, somando expertises, conhecimento de mercado e plano de negócios, alinhados com a economia solidária. Assim, forma-se um arranjo produtivo que fazem os produtos girarem interna e externamente, pois o mais importante é dar vazão aos produtos do universo Hip Hop que o mercado capitalista normalmente não absorve”, analisa. Uma das vantagens da formalização da Rede Nacional das Casas do Hip Hop, seria ainda segundo Bob, um modo de sair da produção como atividade-fim para passar a gerenciar todo o processo. Dentro desta lógica, produzir e comercializar um CD ou uma camiseta com temáticas relacionadas ao Hip Hop deixaria de ser uma atividade puramente lucrativa para ser também uma atividade empoderadora dos pequenos empreendedores sociais. “Ao invés de comprar camisetas de uma grande fábrica, compramos de pequenos empreendedores locais, estampamos nós mesmos e vendemos nas nossas próprias lojas”. Desta maneira, o processo de empoderamento é crescente e horizontal, além de se estender para todos os produtos gerados pela Rede.

Rede Nacional das Casas no 4º Congresso da Unisol Brasil.
Rede Nacional das Casas no 4º Congresso da Unisol Brasil.

Direitos Trabalhistas. A legislação vigente é de 2012 e exclui de suas normas três tipos de cooperativas bastante comuns no Brasil, são elas cooperativas de profissionais liberais, de transportes públicos e assistência à saúde. Pela lei 12.690/2012, considera-se uma cooperativa associações de trabalhadores autônomos, autogestionários e de proveito comum, a fim de obter melhores qualificações, renda e condições de trabalho. Assim, as cooperativas podem ser de serviços ou de produção, como no caso da Rede Nacional das Casas do Hip Hop.

A própria lei estabelece que a autogestão das cooperativas de trabalho deve se guiar por princípios democráticos, de participação econômica e adesão voluntária livre, além de buscar a educação, a formação e a não precarização do trabalho dos associados. No entanto, uma das críticas recorrentes a este tipo de organização do trabalho diz respeito à garantia dos direitos trabalhistas dos associados, que não estavam claramente estabelecidas pela lei das cooperativas de 1971. Depois da reformulação da lei, em 2012, as cooperativas passam a ter obrigatoriedades a fim de evitar falsos empreendimentos solidários e impedir a formação de novas cooperativas abusivas e verticalizadas. Entre as novas regras, está não exceder 8 horas de jornada de trabalho ou 44 horas semanais, garantir seguro acidente e retirada mínima igual ou superior ao salário mínimo vigente no país.

Em entrevista, Paul Singer revela que muitas empresas e falsas cooperativas no Brasil se aproveitam dessa legislação falha para pregar golpes em seus associados. “Isso tem sido mais do que um entrave, um desafio. Um desafio muito grande, porque tais direitos básicos do trabalhador – trabalhar em segurança, não perder a saúde no trabalho, ter assegurado Fundo de Garantia por Tempo de Serviço que é uma espécie de auxílio desemprego etc. – são absolutamente essenciais hoje. São normas internacionais, instituídas por convenções da Organização Internacional do Trabalho (OIT), e aprovadas pela maioria dos países. O intenso crescimento da economia solidária não pode ser confundido com a disseminação das falsas cooperativas, pois isso significaria transformar os trabalhadores de economia solidária em trabalhadores de segunda classe”, afirma.

Sobre isso, Leonardo Pinho da UNISOL e Bob Controversista convergem em suas opiniões. Pinho sintetiza “essas falsas cooperativas são na verdade adversárias de um projeto econômico mais solidário e mais justo para o nosso país, e isso só vai acontecer a partir de uma unidade entre o movimento cooperativista e associativista, realmente autogestionário, com o movimento sindical, buscando sempre a ampliação dos direitos dos trabalhadores. Nosso projeto de país se faz, na verdade, com a ampliação de direitos e não com a retirada dos mesmos”.

*Subprimes: o termo é empregado para designar uma forma de crédito hipotecário para o setor imobiliário, surgida nos Estados Unidos e destinada a tomadores de empréstimos que representam maior risco. Esse crédito imobiliário tem como garantia a residência do tomador e muitas vezes era acoplado à emissão de cartões de crédito ou a aluguel de carros

Da São Bento a Rui Barbosa: o Hip Hop nos trilhos de Bauru

Workshop "Nos Tempos da São Bento"
Workshop “Nos Tempos da São Bento”

Dança e história são temas de workshop no dia mundial do Hip Hop

Por Ana Carolina Moraes
Fotos: Conrado Dacax e Fernando Martins

Memória, arte e cultura se cruzaram na Estação na quinta-feira, 12 de novembro, mas não por acaso. A V Semana do Hip Hop de Bauru trouxe o b.boy da Back Spin Crew e um dos percussores do movimento no Estado de São Paulo, Marcelinho, para debater sobre a história do Hip Hop. O workshop, que inicialmente seria realizado no SESC, foi realocado para a Casa do Hip Hop, acontecendo simultaneamente às demais atividades previstas para noite.

Durante o workshop, Marcelinho pontuou a fragmentação do movimento em quatro elementos como um desafio do atual momento do Hip Hop no Brasil. Quando indagado sobre o motivo para tal entendimento, o b.boy explicou que a divisão em elementos enfraqueceu o pensamento do que é Hip Hop enquanto movimento. “A gente se perdeu no sentimento. Agora tudo é profissional, ‘se aquele cara não está na mídia, por que eu vou chamá-lo para vir aqui?’ Para mim, estar na mídia ou não é a mesma coisa. O hip hop não precisa estar na mídia, o que a gente precisa é estar juntos”, comenta.

“O Hip Hop não precisa estar na mídia, o que a gente precisa é estar juntos”

Assim também é a percepção do coordenador do Ponto Cultura Acesso Hip Hop, Renato Magu, sobre o movimento hoje. “Como as coisas se facilitaram, hoje a gente se divide em elementos, deixando de lado o sentimento do movimento Hip Hop”, comenta. Dessa forma, trazer o Marcelinho pra cá “é  beber da fonte”, segundo Magu, permitindo que mais pessoas tenham o conhecimento do que é o Hip Hop enquanto movimento de resistência. “Essa galera foi a que começou toda história aqui no Brasil, então quando a gente traz os novos, a gente também tem que trazer os velhos [para a Semana]”, conclui.

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Ouvintes do workshop “Nos tempos da São Bento”

“É importante saber do passado para entender o presente. E a Semana do Hip Hop, para mim, é uma resistência dentro da cultura”, ressalta Marcelinho. O workshop reuniu mais de 30 pessoas para conversar sobre Hip Hop o movimento “nos tempos da São Bento” por quase duas horas. Apesar do imprevisto, o b.boy se sentiu contemplado pela receptividade do público, afinal, o “Hip Hop é uma cultura que se passa muito pela oralidade, nada substitui o contato humano”.

Marco Zero. O local que hoje abriga a Casa do Hip Hop de Bauru foi considerado o marco zero da cultura Hip Hop da cidade, pois, como apresentado por Magu, “ao mesmo tempo que as coisas estavam esfervecendo lá [na São Bento], aqui também estava assim. A galera pegava o trem para ir lá e beber da fonte. Acho que é por isso que a gente tem um movimento tão forte: porque ele passa por várias gerações, por várias pessoas”.

“A gente se perde é quando se esquece da nossa memória, da nossa ancestralidade, esquece quem foram os verdadeiros arquitetos da nossa cultura”

Mesmo com as diferenças temporal e espacial, o coordenador aponta as questões da militância e crença num sonho como semelhanças entre o movimento de Bauru e de São Paulo. O desafio é mesmo resgatar a essência da cultura para manter o Hip Hop forte. “A gente se perde é quando a gente esquece da nossa memória, da nossa ancestralidade, esquece quem foram os verdadeiros arquitetos da nossa cultura”, comenta.  

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Marcelinho Back Spin

Conciliar a história do movimento na São Paulo e em Bauru é um meio de fortalecer o Hip Hop como um todo. Marcelinho explica que falar da São Bento “é a [falar da] história da minha vida. Então, essa história da memória, da dança, do hip hop em São Paulo, tá começando a se fortalecer, porque tem outros irmãos que também estão correndo junto”.

Sobre o espaço ocupado pela Casa do Hip Hop de Bauru, Marcelinho diz estar muito contente com lugar que encontrou. “Aqui é um espaço totalmente diferente, que tem uma possibilidade incrível de fazer coisas, um lugar extremamente poético”, explica. O b.boy ainda afirmou que esta é a casa “mais linda que vai existir”. “A casa ainda tá em construção porque o espaço tem muito potencial para ser explorado, não só pelo movimento Hip Hop, mas com por toda cultura popular. E essa construção se faz nas conversas, nas ações, nas reflexões. Afinal você nunca tem a arte acabada, ela tá sempre em processo”, comenta.

Entrevista: De tanta porta fechada, as mina se organizaram

Frente Nacional Mulheres no Hip Hop participa da V Semana de Hip Hop Bauru, reivindicando a presença feminina no movimento

Entrevista por Ana Carolina Moraes
Fotos: Mariana Lacava, Lucas Rodrigues e Felipe Amaral

Elas vieram de São Paulo para somar com movimento de Bauru. A Frente Nacional Mulheres no Hip Hop (FNMH²), coletivo feminino fundado em 2010, acompanhou o desfile de moda urbana no sábado, 7 de novembro, e participa da Abertura Cultural da Semana do Hip Hop 2015, fortalecendo a luta  das mulheres neste universo. Entre desabafos e risos, Lunna Rabetti, DJ Niely, DJ-Rua César, Gabi Nyarai e Issa Paz contam os desafios e satisfações do que é ser mulher dentro do movimento.

Quem é quem. Mãe e filha, Lunna Rabetti e DJ Niely permanecem juntas inclusive se o assunto for Hip Hop. Lunna é uma das fundadoras da Frente Nacional Mulheres no Hip Hop, idealizadora do site Mulheres no Hip Hop e foi membro do grupo Livre Ameaça. Já Niely, 13 anos, compõe o grupo Livre Ameaça desde os 5 anos de idade e  hoje, além do disc jockey, a DJ dedica-se ao 5º elemento do movimento, o conhecimento, participando de debates e roda de conversas.

Gabi Nyarai é rapper, compositora, cantora e trabalhadora, participa de batalhas de conhecimento. DJ-Rua César tem 19 anos de Hip Hop e cultura de rua. Atua como DJ amador há 5 anos e toca para Issa Paz, MC desde 2004, freestyleira de batalha de sangue e de conhecimento, lançou seu primeiro álbum de estúdio, “A arte da refutação”, em meados de 2015.

Issa Paz no palco de abertura
Issa Paz no palco de abertura

 

É uma cultura de silenciamento, na realidade.

Como é ser mulher no universo Hip Hop?
DJ Niely: É difícil ainda, né… A gente não tem tanto espaço que nem os manos tem. Então é difícil uma mina conseguir subir num palco porque tem muito homem, muito machismo no Hip Hop, né. Claro que tem mulher no Hip Hop, só que a gente não ganha tanto espaço para se pronunciar. E essa é uma luta de mil anos atrás, desde Sharylaine, que é uma das pioneiras do movimento, e prevalece hoje quase que sem mudança, porque o machismo ainda é muito forte.

Issa Paz: É uma cultura de silenciamento, na realidade. O Hip Hop ele prega a igualdade, e dentro dele fala-se muito de liberdade, de união. A gente tem que lidar não só com o machismo na cena, mas com a hipocrisia de cada uma dessas pessoas que acredita nisso e quando tem a oportunidade, oprime uma mulher. Então, não é só o boicote aos espaços, não é só o silenciamento da mulher nesses espaços, mas também o uso frequente da própria arte para oprimir.

Gabi Nyarai: O Hip Hop tá na sociedade né, então reflete a dificuldade de ser mulher também nesse espaço. E ao mesmo tempo tem todo um julgamento do que é certo ou errado dentro movimento, e quando você pensa na mina, tem toda carga de opressão porque tá dentro da sociedade. É foda! Tanto que tem toda essa movimentação das mulheres, né, igual a música da Sara Donato, “de tanta porta fechada, as mina se organizou”.

Gabi no palco de abertura
Gabi no palco de abertura

Quais espaços enfrentam mais resistência à presença feminina no movimento?
Lunna Rabetti: As mulheres, em todos os elementos, têm suas dificuldades. De repente fica mais evidenciado no rap porque o rap é o que normalmente está na frente do palco… Mas a gente conta nos dedos quantas DJs têm no Brasil e elas também sofrem as mesmas dificuldades. Por exemplo, DJ é um elemento muito caro por causa de todo equipamento, e ai você fica dependendo se o evento vai ter ou não, e os caras gostam mesmo é de complicar, né.

DJ-Rua César: E a melhor DJ do mundo é brasileira, a DJ Cinara Martins, né. Duas vezes seguida, bicampeã nacional do Red Bull Thre3Style e tem muita gente que nem conhece ela.

Lunna Rabetti: Elas não tem visibilidade. Isso porque a gente tá falando de Hip Hop, mas se a gente for falar de futebol, que é paixão nacional, também vai encontrar esse problema. Acho que essa invisibilidade é num contexto geral.

Issa Paz: Quando eu comecei a me envolver com as mina da FNMH², comecei a realmente ter contato com o Hip Hop na sua forma essencial, eu percebi que é a mesma coisa que a gente passa enquanto MC. O machismo está na sociedade, é normal. Só que não pode ser normalizado. A gente tem que enfrentar isso, em todos os espaços, por isso a FNMH² acolhe todo mundo

A arte ter que ser um contexto subversivo para questionar o que existe.

Como conciliar arte e militância para disseminar cultura em busca de política públicas de gênero?
Issa Paz: Não tem como separar arte de militância. Ou a militância tá inserida na arte, ou não é nem arte, é entretenimento. Porque a arte ter que ser um contexto subversivo para questionar o que existe.

Gabi Nyarai: Não é para ser só uma coisa legal, é para surtir efeito. Tem que ter qualidade, tem que ter propósito. Eu encaro a música como empoderamento, então, se eu ‘respirei’, minha missão é também proporcionar ‘respiro’ às outras pessoas. Isso é arte. Se não for por isso, por quê? Para ser legal, estar na moda ou render dinheiro? Não! É luta, é militância!

Lunna Rabetti: Mas vale lembrar que nem todo mundo tem essa ideologia. Tem muita gente que fala que canta rap, mas não é da militância. E tem também quem faça uma militância contrária a que o Hip Hop deveria fazer. Acho que não é todo mundo que pensa assim, mas deveria ser. Na verdade, acho que até essas pessoas que se dizem não ser militante, um dia vai cair a ficha de que é e se entender. Que nem mulher que é do movimento Hip Hop e se diz não ser feminista: em algum momento ela vai falar ‘Caramba! Eu sempre fui feminista’.

Como é ser referência para outras mulheres no Hip Hop?
Issa Paz: Não me sinto como referência… É que a gente está trabalhando e isso incomoda, né. É muito bom porque você fortalece outras mulheres, que fortalecem outras mulheres, e é uma corrente do bem do fortalecimento, do empoderamento e disseminação de ideias. Se Sharylaine plantou uma sementinha lá atrás, hoje ela é uma floresta gigante que está se multiplicando. Essa é a ideia, cada uma de nós somos referência.

DJ Vivian, uma das referências da jovem DJ Nielly
DJ Vivian, uma das referências da jovem DJ Niely

DJ Niely: Uma vez, a minha mãe estava numa roda de debate na qual só tinha homens. E nisso, ela estava discutindo sobre o tema quando uma menininha começou a fazer uma pergunta. No final, o pai dela veio falar com a minha mãe dizendo que ela nunca tinha pegado num microfone antes. E depois a menininha mesmo disse que se sentiu representada vendo aquela mulher ali. Isso para mim é representatividade, ser referência.

Lunna Rabetti: Essa história é tão interessante porque o pai dessa menininha é o Ferréz, e ele também estava na roda de debate. Aí abriu para plateia e ela fez uma pergunta para ele, e depois o Ferréz comentou que ela sempre o acompanha, mas nunca fez nenhuma pergunta. E aí ela mesma falou que se sentiu mais a vontade porque tinha  mais mulheres falando na mesa. Então eu acho que isso é muito importante, a gente se torna referência nesse sentido. Não no sentido de ser uma artista consagrada, mas no sentido de ser empoderar outras mulheres.

DJ-Rua Cézar: São anos de repressão né, então às vezes a pessoa já se sente reprimida porque a sociedade toda já a reprime. Às vezes ela quer falar, quer dá uma opinião, mas ela não se sente a vontade. Então precisa de um exemplo, igual ao exemplo de uma mulher no palco.

Gabi Nyarai: Eu já participei de batalha na qual eu ganhei antes mesmo de cantar porque tinha muita mina na plateia. E geralmente a mina está com o namorado, meio que desinteressada, mas quando eu subi no palco elas foram para frente e começaram a gritar e aplaudir, porque é ação, é fazendo.

Exigindo seu espaço com garra e determinação, a FNMH² participa da Semana do Hip Hop 2015, em mais dois momentos. Em debate sobre produção cultural independente, por meio da Frente Feminina de Hip Hop de Bauru e durante o fim de semana com a presença de Feniks, Sara Donato e Negra Lud se apresentando nos palcos Interior tem Voz e palco de encerramento, além de ter participado do palco de abertura, no dia 8 de novembro com Issa Paz, Brisa Flow, Gabi Nyarai e DJ Vivian Marques.

 

Combo 5 Elementos é atração do dia na SORRI

_MG_5062Crianças da instituição participam por mais um ano da atividade da Semana do Hip Hop

Por Heitor Facini e Lucas Zanetti
Fotos: Heitor Facini e Lucas Zanetti

Nesta terça-feira, 10 de novembro, como parte da programação da Semana do Hip Hop 2015, o Combo 5 elementos deu uma aula de cultura às crianças da SORRI. Durante o dia todo, cerca de 120 pessoas contribuíram para que a atividade fosse um sucesso.

A manhã começou com uma introdução a cultura Hip Hop falando um pouco sobre a importância breaking, rap, DJ, grafitti e principalmente passando muito conhecimento para a molecada. Depois que a mensagem foi transmitida, chegou a hora da diversão. As crianças botaram os quadris para se mexer ao som do  Magum, sempre com um sorriso no rosto. Além disso, sujaram as mãos e as roupas usando as latas de spray para grafitar e criar sua arte.

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Crianças na SORRI

Um dos que curtiram o dia na SORRI foi Davi, de 6 anos. A mãe dele, Silvana, também ficou muito contente com a atividade. “É uma oportunidade muito boa para estimular o desenvolvimento do Davi”, opina ela. Já Maria Margarida, mãe de Eduardo, de 8 anos, viu o seu filho arrasar no breaking. “É muito boa a atuação do Combo porque meu filho sai um pouco da rotina. Ele vem aqui e acaba aprendendo com a cultura Hip Hop. Muda um pouco do cotidiano dos acompanhamentos médicos, de psicólogos”.

O compartilhamento de experiências é mútuo. Da mesma forma que as crianças da SORRI aprenderam sobre a cultura Hip Hop, quem organizou também saiu transformado. “A energia, a sensibilidade e a verdade que eles passam no olhar é importante para a gente continuar lutando”, diz Magum de São Carlos, que orquestrou a festa. “Estar aqui na Sorri é renovador para nós do Hip Hop, faz continuar acreditando na transformação social”, completa.

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Os funcionários da SORRI também elogiaram o Combo. “O evento é um estímulo múltiplo, visual, auditivo, social”, observa Marcela Pinto , coordenadora sócio-cultural da instituição. Ela lembrou ainda da atividade realizada na Semana do Hip Hop de 2014, para mostrar o poder transformador da cultura. “No ano passado, por exemplo, algumas crianças autistas que não se abrem facilmente arriscaram alguns passos no breaking”.

Sorri. Há mais de três décadas, a Sorri realiza em Bauru um trabalho de inserção plena e imediata na comunidade. A instituição recebe pessoas de todas as idades em situação de risco ou vulnerabilidade social, com deficiências físicas, intelectuais, visuais e auditivas.

Os pais das crianças atendidas pela Sorri se sentem acolhidos. “O trabalho é maravilhoso, eles abraçam as crianças e ficam juntos até melhorar”, opina Maria Margarida, mãe de Eduardo.

Pesando na ideia: AlemdaRima tocando em casa e tirando onda

alemdarimaAbertura cultural da V Semana do Hip Hop trouxe artistas de peso e pratas da casa

Por Lucas Mendes
Fotos: Lucas Rodrigues

De tudo um pouco e um pouco de tudo. Quem colou no Parque Vitória Régia nesse domingo pôde aproveitar boa parte do melhor do rap nacional. O rolê foi o terceiro dia de atividades da V Semana Municipal do Hip Hop, considerado a abertura cultural do evento. Com artistas da cidade e convidados de fora, as atrações se estenderam até o final da noite, com as pedradas de Rapadura, Inquérito e Thaíde.

No começo da tarde, quem tomou conta do palco foi muita mina zica com rimas pesadas contra o machismo e as opressões da mulher, seguidas logo depois pelo show do AlemdaRima, grupo formado por Henrique Thomas e Allisson Ferreira. A dupla é da Casa, e eles já desenvolvem um trabalho com o Hip Hop há muito tempo. No show, eles foram acompanhados pelo DJ Ding, deejay residente da Casa do Hip Hop de Bauru.

“Pra nós aqui é tocar em casa, mano, e tirar uma onda. Aqui é tocar à vontade, nem dá pra sentir a pressão de tocar no palco do Vitória, pra nós é bem tranquilo, já não é a primeira vez, então é gostoso porque é um lugar que marca a cidade, que o pessoal se encontra aqui, e pra gente é mó daora de fazer parte”. É o que diz Henrique, logo depois da apresentação no palco do Vitória Régia.

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O grupo já há cinco anos vem propagando seu trabalho com o Hip Hop bauruense, a partir da formação que essa cultura possibilita. A presença nas edições anteriores da Semana também foi fundamental, como destaca Allisson. “Pra nós é uma satisfação imensa. A gente participou já da segunda edição em diante, e pra nós é muito louco ver tudo isso acontecendo, ver todo mundo que trampou o ano inteiro e o tanto de público que a gente alcançou… e esse é só o terceiro dia da Semana”.

Nova e Velha Escola. Apesar de recente, o trabalho da dupla já causou muito barulho. Prova disso é a sua participação garantida nas edições da Semana, além de terem dado o “pontapé inicial” nesta quinta edição do evento, abrindo as atividades lá na Estação Ferroviária, na última sexta-feira.

“Isso tudo é da gente, mas é também porque já tinha gente mais velha aqui, uma velha escola em Bauru estruturada e aberta para o novo”, reconhece Henrique. “Então a gente chegou e eles falaram ‘vem, vamo fazer assim’, e não teve café-com-leite, a gente chegou já brincando sério”, completa.

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Além das rimas e do trabalho em cima do palco, os caras participam da própria organização dos eventos. Como relembra Henrique, “todas as Semanas a gente tava envolvido com a produção, não só com o palco. O palco na verdade é só o fim do negócio”, diz ele. “A gente tá participando, vai na reunião. Tem projeto que só a gente desenvolveu na Semana, a gente que faz. Pra nós a Semana foi quem amadureceu a gente, porque a gente não teve tempo de brincar, foi chegar e fazer de verdade”, emenda.

Hip Hop de casa nova. Com a recente inauguração da Casa da Cultura Hip Hop, em agosto, novas oportunidades surgiram pra população bauruense e para a transmissão do legado da cultura Hip Hop. “Abrange um novo pessoal né?”, diz Allisson. “Tem muita gente que tem preconceito com o Hip Hop, por ele ser da rua, mas é tão influente na cidade que não tem como a pessoa falar mais nada”, completa.

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Pra ele, a oportunidade de um local próprio vai desenvolver melhor a cultura. “Essas oficinas vão chamar mais um público pra esse local, e só tem a ganhar a Casa do Hip Hop de Bauru. Porque o que a gente quer é construir mais e mais e deixar o bagulho o maior possível”, finaliza ele.

“A Semana ainda vai mexer com muita gente, ainda vai ter muita emoção, muita coisa louca. Ainda tá no começo e já foram coisas maravilhosas. Tá muito legal e a gente espera que seja um sucesso, tem muita gente trampando empenhada em fazer com carinho, fazer bem feito, quem tá vindo agora, não vai deixar de vir no próximo, quem não veio vai ouvir falar e vai querer vir. Então só tende a alcançar mais, ainda tá no começo e já tá desse jeito”, prevê Henrique.

“A gente quer colocar o nosso povo, a nossa cor na passarela”, diz Yngrid sobre Desfile de moda Favela Fashion Zic

Casa do Hip Hop e artistas locais lançam coleção de roupas exclusivas durante a V Semana

Por Lucas Zanetti
Fotos: Thamires Motta

“Pra quem acha que favela não curte moda, tai uma prova. Nós curtimos o bang e ainda temos bom gosto”. Este foi o discurso de Yngrid Suellen, co-idealizadora do desfile “Favela Fashon Zic”, que aconteceu no último sábado, 7 de novembro, na Estação Ferroviária durante a V Semana do Hip Hop de Bauru.

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Yngrid Suellen na abertura do desfile

“Nós não nos somos representadas no mundo da moda. A gente quer colocar o nosso povo, a nossa cor lá na passarela. Nosso povo preto, pobre e periférico”, explica Yngrid, que também é estudante de moda e oferece oficinas de customização de roupas na Casa do Hip Hop. “Eu quis inserir o movimento Hip Hop na moda porque a gente também gosta de se vestir bem, só que as pessoas não reconhecem isso, infelizmente’’, completa.

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“O maior motivo é mostrar que a gente está vivo não só para o público do Hip Hop, mas para quem está de fora também”

O evento contou com o lançamento da nova coleção de camisas da Casa do Hip Hop, inspirada em militantes e personalidades do movimento negro como Zumbi dos Palmares, Nelson Mandela, Marighella, Malcolm X e Carolina de Jesus, sendo desenvolvidas pelo dono da BlackStar Design e designer da Casa do Hip Hop, Robinson Oliveira, conhecido como Robinho. “O maior motivo é mostrar que a gente está vivo não só para o público do Hip Hop, mas para quem está de fora, mostrar que a gente tem capacidade de desenvolver coisa legal”, explica Robinho.

Além da nova coleção, o desfile também contou com as camisetas personalizadas dos grupos Além da Rima, Ment Blindada, JotaF&Black Thing Skateboarding DJ Ding e P.D.G Records. O evento também contou com a participação especial da Bauru Breakers Crew dançando e se apresentando antes dos desfiles, som da discotecagem black music do DJ Moonhbeat’s.

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Para quem desfilou, o “Favela Fashon Zic” também representou. Os modelos da Casa do Hip Hop tiveram liberdade para desfilar da maneira que acharam melhor, sem ficarem presos aos desfiles de moda tradicionais. Muitos utilizaram elementos do breaking em suas apresentações, que renderam aplausos e delírios do público. “Cada um desfilou no seu estilo. Isso que eu achei daora. Você desfila, faz a pose do jeito que quiser”, explica a modelo Ana Gabriela Rodrigues.

A nova coleção da Casa do Hip Hop conta com modelos adultos e infantis unissex, e pode ser adquirida por preços acessíveis entre R$ 30,00 e R$ 60,00 durante toda Semana do Hip Hop ou na Casa do Hip Hop. Os modelos são limitados.

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*O desfile foi idealizado e organizado por Yngrid Suellen e Jéssica Rabello

*Veja todas as fotos no Facebook da Semana do Hip Hop de Bauru

 

1° Fórum Municipal do Hip Hop: a expressão da periferia ainda tem sua essência original?

Militância no movimento e retorno à comunidade são alguns dos assuntos discutidos no evento que reúne rappers, MCs e grafiteiros de Bauru

Por Bibiana Garrido, para Portal Participi*

Foto: Bibiana Garrido
Foto: Bibiana Garrido

As cadeiras que estavam primeiramente colocadas em fileiras na sala logo deram lugar a uma grande roda de conversa, organizada pelos próprios participantes do 1° Fórum Municipal do Hip Hop de Bauru. Reviver o antigo para entender o atual. Esse foi o centro da discussão entre os já veteranos do rap, do grafite, do break, da pixação e toda a atividade de protesto cultural na cidade, e também os iniciantes no caminho do hip hop bauruense.

Cada um dos presentes, os integrantes da mesa, teve o hip hop como uma mãe. Um meio de superação das dificuldades que – para quem nunca viveu na periferia – parecem algo distante, algo que infelizmente acontece. É, acontece. Onde não tem oportunidade tem crime, tem tráfico, tem violência e tem a válvula de escape. A arte, a música, a dança. Tudo se junta numa coisa só que é o sentimento e o viver do hip hop.

“Eu sei da onde eu vim, eu sei a que classe eu pertenço. Sei o que barra o hip hop na sociedade e o que a gente tem pela frente”, desabafa Renato, o “RapNobre”. São vinte e cinco anos na luta pela valorização do hip hop aqui em Bauru, e desde aquela época são organizados campeonatos, batalha de MCs, a união dos grupos começou como uma família.  De acordo com os manos presentes na roda, hoje existe um divisor de águas no rap. “Tudo que tá em atividade tem tendência há mudança. O rap agora começa a sair dos lugares tradicionais e aparecer na mídia, televisão, novela. E começaram a misturar música eletrônica, com rock, com samba, o que dividiu as águas entre um rap da modinha e um rap da velha escola”.

Foto: Bibiana Garrido
Foto: Bibiana Garrido

A questão do protesto, de mostrar a violência através da música, muitas vezes não marca presença em estilos de rap que vão surgindo tanto no Brasil quanto no exterior. Ao decorrer da conversa fica a lição de aprender a somar ao invés de dividir o movimento. “A gente tem que respeitar todo o tipo de rap que tá por aí, tem público para todo mundo”, defende André, participante do Fórum e também da cena cultural do hip hop na cidade.

Com cada vez mais visibilidade nos meios convencionais de informação, o hip hop tenta se ater ao compromisso original da arte, transmitir a mensagem da periferia, a realidade que é escondida por essa mesma mídia. “As grandes mídias são uma coisa que não tem nada a ver com o que a gente representa”, orgulha-se Renato. Pode-se dizer que o saldo do 1° Fórum Municipal de Hip Hop é retomar e relembrar o porquê dessa cultura estar aí, nas ruas, nas rádios, na cidade como um todo. É “plantando a sementinha” do questionamento, como diz um dos integrantes da roda no meio da discussão, da essência humilde e de união, de lembrar o que é o hip hop, que essa cultura vai poder se expandir e ser entendida tal como é por um público cada vez maior. Tendo batida eletrônica ou não, na galeria ou na rua, a mensagem política e a essência vão estar sempre presentes no que é a cultura de periferia de verdade. Como diz Edson, abraçado a seu pequeno filho Ian, “o hip hop não é só chegar e subir num palco. Tem que ter uma consciência e postura, não é só martelar os outros”.

*publicado originalmente em 9/11/2014, para Portal Participi