1° Fórum Municipal do Hip Hop: a expressão da periferia ainda tem sua essência original?

Militância no movimento e retorno à comunidade são alguns dos assuntos discutidos no evento que reúne rappers, MCs e grafiteiros de Bauru

Por Bibiana Garrido, para Portal Participi*

Foto: Bibiana Garrido
Foto: Bibiana Garrido

As cadeiras que estavam primeiramente colocadas em fileiras na sala logo deram lugar a uma grande roda de conversa, organizada pelos próprios participantes do 1° Fórum Municipal do Hip Hop de Bauru. Reviver o antigo para entender o atual. Esse foi o centro da discussão entre os já veteranos do rap, do grafite, do break, da pixação e toda a atividade de protesto cultural na cidade, e também os iniciantes no caminho do hip hop bauruense.

Cada um dos presentes, os integrantes da mesa, teve o hip hop como uma mãe. Um meio de superação das dificuldades que – para quem nunca viveu na periferia – parecem algo distante, algo que infelizmente acontece. É, acontece. Onde não tem oportunidade tem crime, tem tráfico, tem violência e tem a válvula de escape. A arte, a música, a dança. Tudo se junta numa coisa só que é o sentimento e o viver do hip hop.

“Eu sei da onde eu vim, eu sei a que classe eu pertenço. Sei o que barra o hip hop na sociedade e o que a gente tem pela frente”, desabafa Renato, o “RapNobre”. São vinte e cinco anos na luta pela valorização do hip hop aqui em Bauru, e desde aquela época são organizados campeonatos, batalha de MCs, a união dos grupos começou como uma família.  De acordo com os manos presentes na roda, hoje existe um divisor de águas no rap. “Tudo que tá em atividade tem tendência há mudança. O rap agora começa a sair dos lugares tradicionais e aparecer na mídia, televisão, novela. E começaram a misturar música eletrônica, com rock, com samba, o que dividiu as águas entre um rap da modinha e um rap da velha escola”.

Foto: Bibiana Garrido
Foto: Bibiana Garrido

A questão do protesto, de mostrar a violência através da música, muitas vezes não marca presença em estilos de rap que vão surgindo tanto no Brasil quanto no exterior. Ao decorrer da conversa fica a lição de aprender a somar ao invés de dividir o movimento. “A gente tem que respeitar todo o tipo de rap que tá por aí, tem público para todo mundo”, defende André, participante do Fórum e também da cena cultural do hip hop na cidade.

Com cada vez mais visibilidade nos meios convencionais de informação, o hip hop tenta se ater ao compromisso original da arte, transmitir a mensagem da periferia, a realidade que é escondida por essa mesma mídia. “As grandes mídias são uma coisa que não tem nada a ver com o que a gente representa”, orgulha-se Renato. Pode-se dizer que o saldo do 1° Fórum Municipal de Hip Hop é retomar e relembrar o porquê dessa cultura estar aí, nas ruas, nas rádios, na cidade como um todo. É “plantando a sementinha” do questionamento, como diz um dos integrantes da roda no meio da discussão, da essência humilde e de união, de lembrar o que é o hip hop, que essa cultura vai poder se expandir e ser entendida tal como é por um público cada vez maior. Tendo batida eletrônica ou não, na galeria ou na rua, a mensagem política e a essência vão estar sempre presentes no que é a cultura de periferia de verdade. Como diz Edson, abraçado a seu pequeno filho Ian, “o hip hop não é só chegar e subir num palco. Tem que ter uma consciência e postura, não é só martelar os outros”.

*publicado originalmente em 9/11/2014, para Portal Participi 

A V Semana do Hip Hop já está chegando!

Com oficinas e debates, a Semana Municipal do Hip Hop de Bauru chega à sua quinta edição com grandes shows e mostra audiovisual

2015 é o ano do Hip Hop e em Bauru, movimento se consagra como um dos maiores articuladores políticos, culturais e sociais da cidade. Entre os dias 6 e 15 de novembro, acontecerá mas uma edição da Semana Municipal do Hip Hop de Bauru.

Depois de mais de 20 anos de luta, em agosto inauguramos a Casa do Hip Hop de Bauru e para celebrar mais esta conquista, a V Semana Municipal traz shows de artistas regionais e de renome nacional como Rapadura MC, Inquérito, Thaíde e Emicida. No palco Interior tem voz, contaremos com a participação especial de Crônica Mendes e convidados. Em parceria com o SESC, haverá também o show inédito de Tásia Reis, na quarta-feira 11 de novembro, representando a força e o poder das mulheres na cultura Hip Hop.

Há dois anos, a Semana Municipal de Hip Hop de Bauru se tornou política pública por meio de mobilização social pela criação e aprovação da Lei 6258/2013. Dessa maneira, a Secretaria de Cultura se tornou uma parceira para a realização da III Semana Municipal do Hip Hop naquele ano e de lá para cá, a parceria e as atividades conjuntas só tem aumentado.

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Semana 2015 traz Inquérito, Thaíde, Crônica Mendes, Rapadura, Tássia Reis, DJ Erick Jay e Banks Back Spin

Formação, política e economia. Desde 2011, a Semana Municipal do Hip Hop de Bauru é organizada pelo Ponto de Cultura Acesso Hip Hop de maneira independente, horizontal e repleta de parcerias. Uma das atividades consagradas do festival é a realização do Combo 5 Elementos nas escolas municipais e estaduais da cidade durante a Semana do Hip Hop. O projeto leva conhecimento e mini-oficinas dos cinco elementos do Hip Hop (graffiti, breaking, DJ, Rap e conhecimento) para escolas municipais e estaduais, incluindo centros de reabilitação. O projeto  também conta com a participação da Frente Feminina de Hip Hop de Bauru que levanta questões de gênero para estudantes das escolas, chamando atenção para igualdade de gênero e para a violência doméstica como um problema social e coletivo.

Além disso, o festival também traz importantes debates sobre o movimento Hip Hop regional e sobre os movimentos negro e periférico. Em 2015, acontecerá a I Feira de Economia Solidária de Produtos do redeHip Hop  do Estado de São Paulo, durante os últimos dois dias da Semana. Ao longo do sábado, 14 de novembro, também acontecerá um debate sobre Economia Solidária com representantes da Rede Nacional das Casa da Cultura Hip Hop e Empreendimentos Solidários, professores universitários e pequenos empreendedores.

Neste ano, a Casa do Hip Hop de Bauru também tem uma novidade muito especial, ainda vinculada à economia solidária e à sustentabilidade do meio ambiente e dos modos de produção. No dia 07 de novembro acontecerá o lançamento da coleção oficial de roupas da instituição, na Estação ferroviária. Com estampas originais e desenvolvidas especialmente para o público bauruense, o desfile de moda “Favela Fashion Zic” privilegia os elementos da cultura e ícones de resistência.

Outro momento importante é a realização do II Fórum Municipal de Hip Hop de Bauru, que acontecerá no SESC, também no dia 7, para o levantamento de demandas, análises de conjuntura do movimento local e balanço de conquistas no último ano. Também serão exibidos documentários e filmes como Profissão MC, Dogtown e O Rap pelo Rap, nos bairros Mary Dota, Bauru 22 e na Casa do Hip Hop.

Programação. A Semana Municipal do Hip Hop de Bauru vai acontecer de 6 a 15 de novembro, com TODAS as atividades gratuitas na Estação Ferroviária, Casa do Hip Hop de Bauru, Sesc Bauru e parque Vitória Régia.

Dia 6/11 – Sexta-feira

Abertura da Exposição “Quem é quem?” do Coletivo Urbano de Arte- CURA de São Paulo.
Horário: 19h. 
Local: Estação Ferroviária de Bauru.

Cine Hip Hop
Filme: Os Reis de Dogtown (história do skate nos EUA)
Horário: 20h Local: Centro Unificado das Artes e do Esporte – Rua Maria José Silvério dos Santos com Avenida Lúcio Luciano, Bauru 22/ região do Jardim Redentor

Show Além da Rima e Banda.
Horário: 21h. 
Local: Estação Ferroviária de Bauru.

Dia 7/11 – Sábado

Encontro Estadual de Graffiti
Horário: 9h. Local: Viaduto Nuno de Assis

Cortejo Hip Hop
Horário: 10h. Local: Calçadão da Batista de Carvalho.

II Fórum Municipal de Hip Hop de Bauru
Horário: 14h. Local: Sesc Bauru (Av. Aureliano Cárdia 6-71)

Desfile de moda urbana “Favela Fashion Zic”. Lançamento da coleção de moda Casa da Cultura Hip Hop de Bauru. DJ Moonhbeats
Horário: 20h. Local: Estação Ferroviária de Bauru 

Dia 8/11 – Domingo

Abertura Cultural da Semana do Hip Hop 2015

Shows com Inquérito, Rapadura, Thaide, Issa Paz e Brisa Flow
Horário: 14h. Local: Parque Vitória Régia

Dia 9/11 – Segunda-feira
Combo dos 5 Elementos
Horário: 9h. Local: Escola Estadual Morais Pacheco. (R. Primeiro de Maio, 16-10. Parque Boa Vista)

Combo dos 5 Elementos
Horário: 14h. Local: Escola Estadual Morais Pacheco. (R. Primeiro de Maio, 16-10 – Parque Boa Vista)

Oficina de Fanzine
Horário: 14h
Local: Casa do Hip Hop Bauru

Mesa redonda com o tema “Redução da maioridade penal e genocídio da população preta, pobre e periférica”
Horário: 20h. Local: Centro Cultural de Bauru

Dia 10/11 РTer̤a-feira
Combo dos 5 Elementos
Horário: 9h. Local: Sorri Bauru. (Avenida Nações Unidas, 53-40 – Geisel)

Combo dos 5 Elementos
Horário: 14h. Local: Sorri Bauru. (Avenida Nações Unidas, 53-40 – Geisel)

Oficina de Fotografia
Horário: 19h. Local: Casa do Hip Hop Bauru

Oficina de Capoeira Angola
Horário: 19h30. Local: Casa do Hip Hop Bauru

Oficina de MC com JotaF e RapNobre
Horário: 19h30. Local: Casa do Hip Hop Bauru

Cine Hip Hop
Documentário O Rap pelo Rap
Horário: 20h. Local: Casa do Hip Hop

Dia 11/11 – Quarta-feira
Combo dos 5 Elementos
Horário: 9h. Local: Escola Estadual Ver. Antônio Ferreira de Menezes. R. Cap. Mario Rossi, 9-37

Oficina de Graffiti
Horário: 9h. Local: Casa do Hip Hop Bauru

Combo dos 5 Elementos
Horário: 14h. Local: Escola Municipal

Oficina de Dj com DJ Ding
Horário: 14h. Local: Casa do Hip Hop Bauru

Bate Papo: Produção Independente e mulheres no Hip Hop com Tássia Reis e Frente Feminina de Hip Hop de Bauru
Horário: 19h. Local: Sesc Bauru

12115614_185735578430356_237330865507897265_nShow com Tássia Reis
Horário: 21h. Local: Sesc Bauru

Dia 12/11- Quinta-feira
Combo dos 5 Elementos
Horário: 9h. Local: Escola Profª Ada Cariani Avalone.  Av. Dr. Marcos de Paula Rafael, 1. Mary Dota.

Combo dos 5 Elementos
Horário: 14h. Local: CIPS Bauru. R. Inconfidência, 2-28 – Centro

Oficina de DJ com DJ Scratch
Horário: 14h. Local: Casa do Hip Hop Bauru

Oficina de Stencil
Horário: 14h. Local: Casa do Hip Hop Bauru

Celebração do Dia Mundial do Hip Hop. Apresentação dos 4 elementos que compõe a Cultura Hip Hop, Rap, Breaking, Graffiti, Dj + Batalha de Mcs.
Horário: 20h. Local: Casa do Hip Hop de Bauru

Dia 13/11 – Sexta-feira
Combo dos 5 Elementos
Horário: 9h. Local: Escola Municipal Geraldo Arone.  R. João Prudente Sobrinho – Nucleo Hab. Fortunato Rocha Lima, Bauru – SP

Oficina de Graffiti
Horário: 9h. Local: Casa do Hip Hop de Bauru

Combo dos 5 Elementos
Horário: 14h. Local: 13/11- 14h30 – Legião Mirim Endereço: Av. Dr Nuno Assis, 13-50

Sarau do Viaduto especial Semana do Hip Hop com Banks Back Spin
Horário: 20h. Local: Avenida Nações Unidas, embaixo do viaduto da Duque de Caxias

Dia 14/11 – Sábado

Cortejo Hip Hop
Horário: 10h. Local: Calçadão da Batista de Carvalho

Batalha de Breaking
Horário: 13h. Local: Casa do Hip Hop Bauru

I Feira de Economia Solidária de produtos do Hip Hop do Estado de São Paulo.
Horário: 14h-22h. Local: Parque Vitória Régia

Palco Interior tem voz
Shows com Crônica Mendes, CURA, Preta Rara e outros.
Horário: 17h
Local: Anfiteatro Vitória Régia

Dia 15/11 – Domingo

I Feira de Economia Solidária de produtos do Hip Hop do Estado de São Paulo.
Horário: 14h-22h. Local: Parque Vitória Régia

Encerramento da Semana Municipal do Hip Hop 2015
Shows com Emicida + Grupos de Bauru.
Horário: 14h. Local: Parque Vitória Régia

Realização.  A V Semana Municipal do Hip Hop de Bauru é realizada em parceria entre Ponto de Cultura Acesso Hip Hop, Casa do Hip Hop de Bauru, Secretaria Municipal de Cultura, patrocínio Loja Ophicina e promoção da TV TEM.

Notas e Relatos: Thigor MC lança seu primeiro DVD

O evento foi parte da programação da IV edição da Semana do Hip Hop em Bauru

Por Bibiana Garrido*

Se o trabalho de Thiago Luiz da Silva pudesse ser resumido em uma só palavra ela seria superação. Ou talvez amor. Talvez fé. Uma mistura de tudo isso resulta num show impactante por si só, e mais do que tudo, que envolve a plateia ali em pé, cantando junto a uma só voz. O rapper Thigor MC teve em sua infância uma trajetória comum a de tantos outros meninos do bairro Nova Esperança em Bauru. Drogas, morte, violência. E como ele chegou até aqui? Vamos deixar ele falar por si só, porque, como diz o famoso rap bauruense, o interior tem voz.

CasaH2Bauru: Quando foi que você percebeu que seu caminho era a música?

Foto: Bibiana Garrido
Foto: Bibiana Garrido

Thigor: Eu conheci a música com 12 anos de idade, na percussão da capoeira, na verdade. Acompanhava meu pai nesse trabalho e de ouvir bastante acabei tendo uma noção musical. Aprendi a tocar pandeiro também e, mais velho, participei de um grupo de samba, mas até então nunca cantava. Depois tive um envolvimento com drogas e acabei me afastando de tudo isso. Mas quando me recuperei senti a necessidade de passar isso paras as pessoas, transformei em música aquilo que eu vivi e comecei a cantar e a escrever, com uns 18, 19 anos.

CasaH2Bauru: Como foi esse começo da sua carreira?

Thigor: Quando eu comecei a escrever rap me juntei com o D’Bronx, que já tinha um grupo lá no bairro. Depois montamos o Guerreiros da Luz, que era um grupo gospel de rap, conseguimos lançar um CD e a coisa começou a andar, mas não durou muito tempo. Quando o grupo terminou, comecei com a minha carreira solo. Agora tô aí, o CD foi lançado em 2006, o Caminhando Na Fé, depois consegui lançar um EP, A Caminhada Continua… e hoje o DVD.

Foto: Bibiana Garrido
Foto: Bibiana Garrido

CasaH2Bauru: Olhando pra trás, qual você acha que foi o papel da música na sua vida até agora?

Thigor: A música me ajudou bastante em relação a fortalecer algumas ideias pra poder enfrentar as dificuldades que eu enfrentei durante todo esse tempo. Foi fundamental na minha formação social e ideológica. Hoje ela me ajuda a me manter nesse caminho que eu escolhi, e é uma responsabilidade muito grande que eu tenho com as pessoas que se inspiram no meu trabalho. É muito no sentido de me manter de pé. Faz uns dois anos que eu vivo só de música, larguei meu trabalho na metalúrgica e decidi me dedicar totalmente a isso. Deixei também a faculdade de música que eu tinha começado, ainda não consegui voltar, mas espero um dia concluir isso aí.

CasaH2Bauru: O que você espera com o lançamento do seu DVD aqui em Bauru? E como você vê a questão do Hip Hop se tornar cada vez mais difundido em outras camadas da sociedade, não só na periferia?

Foto: Bibiana Garrido
Foto: Bibiana Garrido

Thigor: Só de poder fazer esse show de no Sesc junto com as pessoas que acompanharam minha história desde o começo… é um momento marcante na minha vida. Para pessoa como a gente, que sempre vende CD no calçadão, poder estar onde estamos hoje é muito especial. Vou procurar dar o melhor para quem quiser ouvir e passar a mensagem contida em cada canção. E todo mundo pra mim é sempre bem-vindo, o meu trabalho é trazer a minha música e ela não tem preconceito ou descriminação nenhuma. Quanto mais gente puder conhecer, melhor.

 

*publicada originalmente em 9/11/14 no portal Participi

O hip hop em cores

Semana do hip hop abre com encontro de grafiteiros e pintura em painel no Sesc

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Por Paula Monezzi

A Semana do Hip Hop de Bauru teve início neste sábado com o Live Paint Graffiti, um encontro de grafiteiros que rendeu um painel dos artistas Sérgio Campos e Cláudio (Nego DM), dupla da Comics Crew, Robinho BlackStar, Everaldo Luiz(Evera) e L7M.

O encontro rolou no Sesc, das 13h às 18h e para quem passou por lá, a cara era de surpresa. Os tons de cinza do muro do Sesc foram substituídos pelo painel cheio de cores vibrantes e traços diferentes trazidos pelos artistas.

A CasaH2Bauru entrevistou Robinho BlackStar, um dos artistas do encontro e coordenador de arte do Ponto de Cultura Acesso Hip Hop.

CasaH2Bauru: Como você se iniciou na arte e no graffiti?

Robinho BlackStar: Eu sou formado em artes plásticas e designer e trabalho com o hip hop no Ponto de Cultura há uns oito anos já. Trabalho com todas as artes, fotos, imagens do Acesso Hip Hop e graças ao graffiti nós conquistamos muitas coisas.

CasaH2Bauru: Quando você desenha, você não traz um caderno com esboços, como é isso?

Robinho BlackStar: Eu procuro trabalhar com adaptação de ambiente. Como é um evento, eu procuro usar muitas cores, para chamar a atenção e, a partir da reação do público, eu desenvolvo a arte. Os desenhos já estão definidos na cabeça e eu só vou jogando na parede só. Eu acho que isso é um pouco de treino. Alguns preferem trazer cadernos. Eu desenho o dia todo, então eu já tenho tudo bem definido na cabeça. A arte já está dentro de mim.

CasaH2Bauru: Que outras áreas do hip hop você trabalha?

Robinho BlackStar: Fora o graffiti, eu sou especializado em estampas de camiseta. Desenhamos para marcas famosas, urbanas street. Então eu passo mesmo o dia desenhando. (risos)

CasaH2Bauru: O desenho é mesmo a sua área. Como você se descobriu nisso?

Robinho BlackStar: Eu desenho desde os 9 anos de idade. Eu fiz um curso lá no Centro Cultural, no Teatro Municipal e o professor, que também chamava Robinson – hoje ele é desenhista da Marvel – ele achou que eu tinha uma aptidão muito boa para desenhar Homem Aranha. Nessa época eu tinha 9 anos e eu fui para São Paulo concorrer a um prêmio de HQ e ganhei. Logo depois eu conheci um cara que foi muito importante na minha vida na parte do hip hop, que foi o Casca – hoje já falecido – e foi ele que deu o primeiro caderninho e disse “cara, você desenha bastante, porque você não faz um graffiti?”. E eu comecei a estudar, pesquisar. No começo a gente pagava para fazer o graffiti: tinha que comprar tinta, pedir pra pessoa deixar a gente fazer na parede. Aí eu conheci o Magú, conheci o pessoal; o Magú já é uma amizade de uns 10 anos…e estamos aqui hoje.

CasaH2Bauru: E o que você diria do cenário do hip hop de Bauru?

Robinho BlackStar: Hoje o cenário de hip hop daqui de Bauru é espetacular. Temos o nosso nível de aprendizagem e evolução compatível com o de uma capital. Não são todos os lugares que conseguem fazer uma Semana do Hip Hop, com a diversidade de eventos que estamos tendo aqui.E isso, perto do que era há 10 anos atrás, é extraordinário. Sem contar que hoje o movimento é bem mais aberto; antes era bem mais segregado.

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*publicado originalmente em 9/11/2014, para Portal Participi

Dexter na Semana do Hip Hop 2014: “Bauru, já sinto Saudades Mil”

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Foto: Felipe Moreno

Por Keytyane Medeiros, para Semana do Hip Hop 2014*

20h30 e ouve-se o Clic Clec reverberar pelo Sambódromo. A pista e as arquibancadas estavam lotadas de famílias, jovens e crianças. Bauru tremeu.

Dexter chegou na marra típica de um “mano que viveu, mas te diz (sic) que a pena não valeu”. No som pesado, recheado de histórias da prisão, amor pela liberdade e pela quebrada, Dexter destaca que é preciso manter a paz e prevalecer o amor, o carinho e o respeito em todas as festas de Rap e nas periferias do Brasil.

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Foto: Felipe Moreno e Lucas Rodrigues

Quando nos perguntou “Como vai seu mundo?”, o Oitavo Anjo lembrou do mundo dele, nos dizendo que tem parentes na cidade e que está em liberdade há 3 anos. Ao entoar, “Salve-se quem puder”, não esteve sozinho e a plateia, que sabia todas as músicas de cor, acompanhou o músico.

Como não poderia deixar de ser, um mestre que sempre menciona outros mestres, cantou “Jesus Chorou” dos Racionais MCs, adaptando os trechos do Capão Redondo à realidade bauruense. O show seguiu até que em “Sou função”, a arquibancada e toda a platéia estremeceram. Dexter, ao sair do palco cantou a bola, “Bauru, já sinto Saudades Mil”.

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Foto: Felipe Moreno

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

*publicado originalmente em 9/11/2014

IV Semana do Hip Hop Bauru – Primeiro dia de Oficinas e Shows no SESC Bauru

Grafiteiros de Bauru colorem o SESC da cidade
Grafiteiros de Bauru colorem o SESC da cidade. Foto: Lucas Rodrigues

IV Semana do Hip Hop começa com muita formação e lançamento de DVD de Thigor MC no SESC Bauru

Por Keytyane Medeiros, para Semana do Hip Hop 2014

Sábado, 8 de novembro e o SESC Bauru é tomado por graffiteiros, beatmakers e dançarinos. A Semana do Hip Hop Bauru 2014 tem início com muita formação e arte! Logo pela manhã, Eveera, Sérgio Campos, L7M e Robinho começam a graffitar a área externa no Sesc Bauru em comemoração à mais uma edição da Semana. Com desenhos que lembram as quebradas de Bauru e uma homenagem a Thaíde, um dos precursores do Hip Hop nacional e um dos convidados do evento, os graffitis coloriam uma das áreas culturais mais importantes da cidade.

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Beatdance. Durante a tarde, aconteceu o encontro entre beatmakers e bboys do movimento Hip Hop na área de convivência do Sesc.  A união foi acompanhada com atenção pelas pessoas que estavam no espaço, que bateram palmas e comentavam sobre a dança “diferente” e “rápida”.

Dançarino na área de convivência do SESC. Foto: Lucas Rodrigues

Rafael MoonhBeat’s, um dos beatmakers convidados pela Semana para participar do evento, espera que o evento possa chamar a atenção para o trabalho dos beatmakers e DJs, “não muito lembrados, mas que sem os beats não ia ter música nem dança”, afirma. Para ele, “a importância da Semana do Hip Hop é passar conhecimento e resgatar jovens, mostrar para a molecada que o mundo não é só ostentação, por exemplo”. MoonhBeat’s ainda destaca que foi “resgatado” durante uma Semana do Hip Hop há alguns anos e que estar ontem no Sesc é algo muito significativo para ele e para o movimento.

Notas e Relatos de Thigor MC. Além de todas as atividades durante a manhã e a tarde, a abertura da Semana do Hip Hop contou com o show especial de lançamento do DVD do Thigor MC. O DVD “Notas e Relatos” é o primeiro a ser lançado entre os MCs e grupos de rap de Bauru e além das músicas, conta com clipes e o documentário “A praga do século”, realizado em parceria com Dom Black e Conrado Dacax. O filme fala sobre crack e como é o processo de reabilitação dos dependentes químicos a fim de sensibilizar o público acerca da doença.

Foto: Felipe Moreno
Foto: Felipe Moreno

O show estava lotado e era possível ver muitas famílias, crianças e grupos de amigos aproveitando o clima do evento. Thigor MC ainda destaca que, apesar da apresentação no Sesc ter participações especiais como do rapper D’Bronx, o DVD apresenta apenas composições próprias, gravadas em estúdio, “minha vida está ali”, afirma. Para ele, “lançar esse DVD aqui no Sesc é algo muito especial” e é algo que vai marcar a vida dele. Entre os presentes, estava o filho do cantor, que com apenas 4 anos, já cantava todas as músicas do pai.

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Foto: Felipe Moreno

Entrevista Exclusiva РGOG fala sobre SEPPIR e auto-gesṭo no Hip Hop

Foto: Lucas Rodrigues da Silva
Foto: Lucas Rodrigues da Silva

Entrevista por Keytyane Medeiros e Gabriela Martinez, para Semana do Hip Hop Bauru*

O rapper GOG, do Distrito Federal, se apresentou no encerramento da IV Semana Municipal do Hip Hop de Bauru, no último dia 16 de novembro e conversou um pouco com a equipe de comunicação do evento sobre Hip Hop, auto-gestão e sobre ser padrinho oficial do evento. A Semana do Hip Hop é uma realização do Ponto de Cultura Acesso Hip Hop e da Prefeitura Municipal de Bauru.

Em meio à turnê de shows, você conseguiu encaixar Bauru e a Semana do Hip Hop na sua agenda, inclusive apadrinhou o evento. Como é que foi isso?
Bom, na realidade tudo é um processo. Eu já conheço o Magú já faz um tempo, a gente tem um carinho e um respeito mútuo, e a Semana do Hip Hop é uma coisa que foi pensada, gestada. Na primeira impressão as pessoas pensam “pô, aconteceu”, mas teve toda uma história lá atrás pra que isso acontecesse. Como a gente conversou isso lá atrás, a gente pensava isso, então quando a Semana se personifica, a gente ta aqui não só na elaboração, mas pra conferir e participar também, no sentido de ver as coisas acontecerem e participar também. E Bauru é um eixo que a gente sempre passa, é um ponto de encontro, o povo gosta da gente, tem uma identificação, então agora receber o convite para ser o padrinho da Semana do Hip Hop, embora seja motivo de orgulho, também é natural diante do processo histórico.

GOG, você começou lá em 1996, com a sua gravadora “Só balanço”, com a idéia de auto-gestão no rap. Como você encara o movimento Hip Hop hoje, acredita que algo mudou com o tempo sob essa perspectiva?
Tem uma frase de uma música nova minha, chamada África Tática, e diz o seguinte: “não desviar na reta do fim das vozes do início”, ou seja, não valeria a pena se agora a gente desviasse totalmente do caminho, nos finalmentes, quando o Hip Hop toma essa gramatura, a gente mudar as pedras que alicerçam a nossa cena. É bem verdade também que muita coisa, se você não tiver o pensamento histórico aguçado e toda hora vendo o trajeto, você acaba se enganando porque vão pintando várias cenas no meio do caminho que parece que são verdades, mas não tem a força e o alicerce das pedras que nós colocamos lá atrás. Eu acredito muito na auto-gestão, pratico, enquanto a gente ta aqui conversando, tem uma lojinha rolando vendendo CDs, livro, camisetas e isso não só pela geração econômica, mas pela possibilidade de criar novas cenas, pela idéia de criar um território negro, periférico, que perambula, que dialoga com o estado negro. A gente sempre chega sem muito foco, numa cara de quem vai pedir ajuda, como quem quer negociar um favor, na auto-gestão não, lidamos de maneira profissional com o outro. Acho que o caminho do Hip Hop agora é se organizar no sentido de a cada lançamento vender 1 milhão de discos de cada artista nosso sem precisar ir na mídia convencional. É uma contradição, mas eu quero fortalecer as mídias comunitárias, os celulares, os blogs, as mídias independentes. As pessoas falam que a mídia televisiva e de revista é importante, mas o Racionais vendeu 1 milhão de discos quando tudo isso não era possível,antes da era digital, antes da internet. Nosso povo trafica, vende droga, você sabe que existe isso no nosso meio, mas a gente não consegue comercializar disco. Eu acho que são esses os divãs que nós precisamos sentar e discutir com a nossa comunidade e ver onde estamos errando e é isso, a auto-gestão é oxigênio.

Foto: Felipe Moreno
Foto: Felipe Moreno

Sobre a sua possível participação como ministro da Secretaria de Política e Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), como andam as negociações?
Eu recebi com surpresa essa cena, as pessoas sempre falavam que eu tenho perfil pra esse tema, mas eu tenho colocado dentro de mim que eu tenho que ser o fogo que aquece a água da chaleira, o movimento social é isso. A crise hoje não é da política brasileira, mas do movimento social brasileiro, hoje nossas maiores militâncias, as pessoas que estavam na linha de frente, hoje estão nos gabinetes, eles que estão dizendo “não” pras nossas demandas e eu não quero dizer “não” pra um parceiro meu no sentido de discutir políticas afirmativas e você não poder falar “vamos resolver” e eu dizer pra ele “olha mano, a máquina é realmente complicada e não tem o que fazer”. Então recebo com muito orgulho a notícia, mas acho muito difícil isso ir adiante. Existe uma pressão do movimento negro, do movimento cultural, eu vejo também isso com naturalidade porque nós temos muitos quadros nas paredes, mas não temos quadros perambulando e essa carência de quadros perambulando, faz com que as pessoas olhem pra outras e falem “pô cara, você poderia ser” [o representante], mas eu acho que já to na posição ideal, to bastante satisfeito com o papel que eu desempenho, fico muito feliz, mas acho difícil se concretizar.

A Semana Municipal do Hip Hop de Bauru é realizada de maneira independente desde 2011 e a partir de 2013, tornou-se lei e parte do calendário oficial da cidade, sendo realizada em parceria com o Ponto de Cultura Acesso Hip Hop e a Prefeitura Municipal de Bauru.

*publicada originalmente em 17/11/2014, via MadMimi