“A gente quer colocar o nosso povo, a nossa cor na passarela”, diz Yngrid sobre Desfile de moda Favela Fashion Zic

Casa do Hip Hop e artistas locais lançam coleção de roupas exclusivas durante a V Semana

Por Lucas Zanetti
Fotos: Thamires Motta

“Pra quem acha que favela não curte moda, tai uma prova. Nós curtimos o bang e ainda temos bom gosto”. Este foi o discurso de Yngrid Suellen, co-idealizadora do desfile “Favela Fashon Zic”, que aconteceu no último sábado, 7 de novembro, na Estação Ferroviária durante a V Semana do Hip Hop de Bauru.

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Yngrid Suellen na abertura do desfile

“Nós não nos somos representadas no mundo da moda. A gente quer colocar o nosso povo, a nossa cor lá na passarela. Nosso povo preto, pobre e periférico”, explica Yngrid, que também é estudante de moda e oferece oficinas de customização de roupas na Casa do Hip Hop. “Eu quis inserir o movimento Hip Hop na moda porque a gente também gosta de se vestir bem, só que as pessoas não reconhecem isso, infelizmente’’, completa.

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“O maior motivo é mostrar que a gente está vivo não só para o público do Hip Hop, mas para quem está de fora também”

O evento contou com o lançamento da nova coleção de camisas da Casa do Hip Hop, inspirada em militantes e personalidades do movimento negro como Zumbi dos Palmares, Nelson Mandela, Marighella, Malcolm X e Carolina de Jesus, sendo desenvolvidas pelo dono da BlackStar Design e designer da Casa do Hip Hop, Robinson Oliveira, conhecido como Robinho. “O maior motivo é mostrar que a gente está vivo não só para o público do Hip Hop, mas para quem está de fora, mostrar que a gente tem capacidade de desenvolver coisa legal”, explica Robinho.

Além da nova coleção, o desfile também contou com as camisetas personalizadas dos grupos Além da Rima, Ment Blindada, JotaF&Black Thing Skateboarding DJ Ding e P.D.G Records. O evento também contou com a participação especial da Bauru Breakers Crew dançando e se apresentando antes dos desfiles, som da discotecagem black music do DJ Moonhbeat’s.

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Para quem desfilou, o “Favela Fashon Zic” também representou. Os modelos da Casa do Hip Hop tiveram liberdade para desfilar da maneira que acharam melhor, sem ficarem presos aos desfiles de moda tradicionais. Muitos utilizaram elementos do breaking em suas apresentações, que renderam aplausos e delírios do público. “Cada um desfilou no seu estilo. Isso que eu achei daora. Você desfila, faz a pose do jeito que quiser”, explica a modelo Ana Gabriela Rodrigues.

A nova coleção da Casa do Hip Hop conta com modelos adultos e infantis unissex, e pode ser adquirida por preços acessíveis entre R$ 30,00 e R$ 60,00 durante toda Semana do Hip Hop ou na Casa do Hip Hop. Os modelos são limitados.

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*O desfile foi idealizado e organizado por Yngrid Suellen e Jéssica Rabello

*Veja todas as fotos no Facebook da Semana do Hip Hop de Bauru

 

Entre shows, debates, filmes e atividades de formação, a III Semana do Hip Hop de Bauru ganha robustez e traz Thaíde, GOG e Projota

Com mobilização social, a Semana Municipal do Hip Hop de Bauru tornou-se política pública da cidade. Evento ganha robustez e traz nomes de peso à Bauru.

Por Keytyane Medeiros, para Casa do Hip Hop Bauru

Realizada entre os dias 9 e 17 de novembro, a III Semana Municipal do Hip Hop de Bauru entrou para o Calendário Oficial de atividades da cidade. Até então produzida de maneira independente, a Semana Municipal do Hip Hop se tornou política pública em maio de 2013 por meio de mobilização social pela aprovação da Lei 6258. Com isso, a Semana Municipal do Hip Hop passa a ter também apoio financeiro e de infra-estrutura garantidos pela Secretaria Municipal de Cultura da cidade.

Nesta edição, a Semana trouxe shows de grandes artistas do Hip Hop nacional para participações especiais em shows e oficinas. Com shows de Thaíde e GOG, precursores da primeira e segunda onda do movimento no Brasil, a Semana passa a ser focada em atividades de formação de público e prioriza o quinto elemento: o conhecimento sobre a cultura Hip Hop, sobre a luta dos movimentos negros no país e sobre a criminalização da pobreza.

O show de abertura ficou sob responsabilidade do rapper Thaíde, no Muamba Music. O rapper faz parte da primeira geração do Hip Hop no país, iniciando sua carreira nos anos 80. Ao lado do ex-parceiro DJ Hum participaram da primeira coletânea de rap nacional, Hip Hop Cultura de Rua. O cantor entoou seus maiores sucessos como “Senhor Tempo Bom”, “A noite” e “Apresento meu amigo” com a casa lotada.  Além de Thaíde, a noite de abertura também contou com a participação de rappers locais como Jota F, BetinMC, Abanka e Dois1Dois.

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Formação. Uma das atividades consolidadas com a parceria com a Secretaria Municipal de Cultura está o aumento do número de escolas atendidas pelo Combo 5 Elementos. O projeto levou conhecimento e mini-oficinas dos cinco elementos do Hip Hop (graffiti, breaking, DJ, Rap e conhecimento) para oito escolas municipais e estaduais. O projeto ainda contou com a participação da Frente Feminina de Hip Hop de Bauru que levou questões de gênero para estudantes das escolas, alertando para igualdade de gênero e violência doméstica como males a ser evitados por todos.

A Frente Feminina ainda trouxe duas rappers para ocupar os palcos Interior Tem Voz com Sara Donato no dia 10 de novembro e Tábata Alves no palco de encerramento no dia 17. Além delas, a b.girl Aline Afrobreak ainda ministrou oficinas de breaking durante a Semana.

EMEF Lydia Alexandrina
EMEF Lydia Alexandrina
Henrique Tomas no Combo 5 Elementos
Henrique Tomas no Combo 5 Elementos
EMEF Guia Lopes
EMEF Guia Lopes

Cinema de crítica social. O Cine Hip Hop, realizado no Pontilhão da 13 de Maio, em parceria com a Casa Fora do Eixo de Bauru, trouxe produções audiovisuais bauruenses como o clipe com forte crítica social de Thigor MC e Dom Black, “A Praga do Século” e “Livre Escolha”, documentário de Thigor MC.

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Cine Hip Hop na Semana 2013

Ambas as produções levantam problemas relacionados ao crack, a chamada praga do século. Longe da droga há quase 10 anos, Thigor MC conta em seu documentário como se afastou do vício e como o rap, o Hip Hop e a religião tiveram participação fundamental nesse processo. As produções alertam para uma inversão na lógica do tratamento do crack. Comumente associado à segurança pública, o crack é e deve ser tratado, segundo os produtores, como um problema de saúde pública. Além disso, as produções criticam o descaso do poder público com os usuários, que por meio da higienização da cidade afasta os usuários da paisagem urbana sem resolver seus problemas de saúde ou propor tratamentos alternativos. Os vídeos foram produzidos por Rafael Pessoto, Conrado Dacax e D’Bronx MC.

Shows de encerramento. A Semana foi encerrada com a participação mais que especial de GOG, rapper de Brasília e o primeiro a possuir um selo de gravadora independente do país em 1996, “Só balanço”.

Com canções críticas e politicamente posicionadas como “Brasil com P”, GOG chama a atenção para a questão racial no Brasil. Segundo suas letras, os mortos pelo poder público no Brasil tem CEP e cor, sendo em sua maioria jovens negros de periferias, como o Mapa da Violência 2012 comprova. Em dezembro de 2007, GOG lançou o CD “Cartão Postal Bomba!” totalmente online, apresentando uma nova proposta de negociação, divulgação e distribuição de música independente no país, promovendo o debate sobre auto-gestão entre artistas nacionais. O rapper visionário abriu o show para uma das promessas nacionais do mundo do rap, o jovem Projota.

Projota no encerramento da III Semana Municipal do Hip Hop de Bauru. Foto: Luringa
Projota no encerramento da III Semana Municipal do Hip Hop de Bauru. Foto: Luringa

Projota ganhou destaque no cenário independente após vencer quatro vezes a batalha de mcs da Santa Cruz, em São Paulo. A partir daí, o jovem de 26 anos lançou as mixtapes “Carta aos meus” em 2009 e “Projeção” em 2010. O rapper encerrou a Semana do Hip Hop 2013 com canções de sucesso, alegrando a molecadinha que tem se aproximado ultimamente do movimento Hip Hop. Entre suas canções mais famosas está “Rezadeira”, muito aplaudida pelo público de aproximadamente 10 mil pessoas no Parque Vitória Régia.

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Encerramento da III Semana do Hip Hop Bauru no parque Vitória Régia. Foto: Ponto de Cultura Acesso Hip Hop

 

Triunfo no Ponto

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Gilberto Yoshinaga no lançamento da biografia de Nelson Triunfo em Bauru
Texto: Keytyane Medeiros

Imagens: Keytyane Medeiros e Felipe Amaral, para blog e-Colab*

Dia das mães, dia de Rap no Ponto. Coração aperta e se divide. A vontade de voltar para a minha quebrada, pro colo da mãe é grande, mas a vontade de ficar, fortalecer as atividades do Ponto de Cultura Acesso Hip Hop e conhecer o autor da biografia de Nelson Triunfo também é.Por fim, escolhi ficar em Bauru e comparecer à Cussy Jr, 13-55, local que está sendo ressignificado a cada dia, a cada atividade e já tem se tornado o ponto de encontro de vários grupos e movimentos orgânicos da cidade, relacionados ao Hip Hop, à cultura negra e à discussão política entre os jovens.

Major, da Bauru Breakers Crew

Ontem, 11 de maio, foi o dia do lançamento do livro biografia “Nelson Triunfo: Do Sertão ao Hip Hop” de Gilberto Yoshinaga aqui em Bauru. Gilberto é jornalista, formado pela Unesp e passou 5 anos pesquisando e acompanhando Nelson Triunfo em viagens e eventos de hip hop, ou não, como ele mesmo pontua.

“Desde 97, época em que eu morei e estudei aqui em Bauru, eu já vinha acumulando várias informações sobre Hip Hop e queria usar esse material, mas eu achava muito amplo um livro sobre Hip Hop, eu queria um enfoque mais específico. Por incrível que pareça, eu sonhei que escrevia a biografia do Nelsão e pensei ‘Que ideia legal! Como ninguém pensou nisso antes¿’ Como a história dele conta automaticamente a história da Soul Music e do Hip Hop no Brasil veio a calhar, porque eu já tinha 15 anos de material [guardado sobre o tema]”, afirma Gilberto.

Nelson Triunfo começou sua carreira como dançarino em 1977 em São Paulo, em plena ditadura militar. Conhecido como “Pai do Hip Hop” no Brasil, foi um dos pioneiros no uso dos estilos, danças, batidas e músicas existentes no movimento como ferramenta de educação em projetos sociais. Além disso, Nelsão também é poeta, músico e ator.

O autor ainda confessa “eu achei que o Nelson tinha uma representatividade mediana dentro do movimento no Brasil, mas quando fui ver, percebi que era gigante a importância dele, muito maior do que eu esperava.”. Yoshinaga também fez questão de que o livro fosse lançado de maneira independente, por meio de sua editora Shuriken Produções (produtora do Zap-san e Mr. Giba, expoentes do rap sorocabano), para que pudesse valorizar o trabalho do autor e do biografado, sem falar do problema das editoras atravessadoras dentro da indústria cultural no país.

Sobre o desentendimento recente entre Zap-san e Projota, Gilberto lamenta porque, “pra quem não acompanha o movimento Hip Hop fica essa imagem da violência, da agressividade, da coisa negativa e não é nada disso que o Hip Hop prega. A mídia não noticia quando um show dos Racionais salva uma vida, mas quando tem uma briga entre um rapper desconhecido e um mediano, alardeia”.

Rapper D’Bronx também se apresentou no Ponto de Cultura Acesso Hip Hop

Gilberto Yoshinaga ainda falou sobre a conduta Hip Hop, que, segundo ele, deve ir além da música e dos beats e se transfere também para a humildade no trato com as pessoas e no “Bom dia” que devemos desejar ao porteiro, ao vendedor de rua, ao rapaz da padaria. Logo após contar alguns causos sobre o livro, Gilberto sorteou um exemplar com base em algumas perguntas e o ganhador foi o rapper Jota F.

Além do lançamento do livro, houve apresentações de dança com o Bauru Breakers Crew, shows do Dom Black e do D’Bronx, dos iniciantes do Impacto ZL e a presença da Biblioteca Móvel – Quinto Elemento, das meninas da Frente Feminina de Hip Hop. E a promessa do Renato Magu, um dos organizadores do Ponto de Cultura é trazer o próprio Nelson Triunfo no próximo semestre. Vamos esperar!

*publicado originalmente em 12/05/2014