Combo 5 Elementos encerra a semana de ensinamentos no Legião Mirim

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O grupo de jovens do Combo 5 Elementos percorreu diversos locais diferentes, espalhando a cultura hip-hop a centenas de jovens bauruenses

Por Fernando Martins
Fotos: Allison Ferreira e Mariana Lacava

Por volta das 14 horas de uma sexta-feira, 13 de novembro, partia da Casa do Hip Hop de Bauru, a Van mais barulhenta da cidade, rumo ao centro de educação Legião Mirim. Os compartilhadores da cultura, Vinicius Thomas, Allisson Ferreira, Luana Nayhara, Sara Donato, Beatriz Benedito e David Wise ocupavam os bancos surrados da perua branca do prefs Agostinho.

No caminho até a escola, as lembranças da Semana contagiavam a todos, especialmente ao recordar as melhores sacadas e piores brechas da Batalha de MC’s, último evento do dia anterior, quando comemorou-se o Dia Mundial da Cultura Hip Hop e onde David Wise sagrou-se campeão da “Batalha da Panelinha”.

Ao chegar no local, cerca de 50 jovens, todos do sexo masculino, com idade entre 14 e 17 anos, que são preparados para o primeiro emprego, aguardavam o grupo, que trazia na bagagem muita música, dança, diversão e conhecimento para trocar com a molecada.
Após as caixas de som darem seus primeiros zunidos, o Mestre de Cerimônias Vinicius Thomas, de apenas 18 anos, pegou o microfone, comandou o show e arrastou os possíveis projetos de rappers, breakers, grafiteiros ou djs para dentro do universo Hip Hop.

Vinicius Thomas
Vinicius Thomas

Suas primeiras palavras levaram os adolescentes ao contexto da década de 60, quando a tensão racial nos EUA chegou ao ápice. O país vivia intensa segregação entre brancos e negros, sendo os afroamericanos perseguidos pela Ku Klux Klan e até mesmo sem acesso a direitos básicos. O enfrentamento ao racismo americano tinha como referências Martin Luther King, Malcolm X, Angela Davis e o partido dos Panteras Negras. Foi em meio a esse caótico cenário que o original funk, o R&B e o Sound System se misturaram, junto a outros elementos, para dar origem aos primeiros rascunhos do que viria a ser o movimento Hip Hop – explicado de maneira bem simplista diante toda a complexidade dessa rica e criativa cultura.

Após a aula de história, os cinco elementos foram apresentados, trazendo um pouco de cada uma dessas vertentes que compõem a cultura Hip Hop. O primeiro deles foi o graffitti, que busca trazer para o visual alguns dos conceitos do gênero. Exemplificado por Allisson Beats, a função do DJ também foi apresentada aos olhos vidrados dos manos presentes. Já pra falar do breaking, David Wise assumiu a responsa e relembrou a origem da dança, como uma alternativa às violentas disputas de espaço e pontos de comércio entre gangues rivais nova iorquinas e que passaram a competir com passinhos cabulosos e muito estilo.

David MC
David Wise

O quarto elemento, na sua função, Vinícius falou do papel do MC, o mestre de cerimônias, ou ainda, do rap em si. Que vai da função de animar a galera ao levantamento a questões sociais, como drogas, guerras e o próprio racismo, entre outros temas polêmicos. Por fim, o elemento que permeia e costura todos os anteriores: o conhecimento, único componente abordado do primeiro ao último minuto de Combo.

Para o estudante Marcos Vinicius de Almeida, de 15 anos, o contato com uma cultura diferente é muito importante para entender outras realidades: “Conhecer algo novo, algo que está próximo, mas muitas vezes está longe também, é muito bom, ainda mais como o hip-hop, que traz essa ideia de manifestação cultural, tratando questões como a violência através da dança, da música, do graffitti e do conhecimento desses povos”.

A primeira interação com os jovens veio quando a pergunta foi lançada: “Vocês conhecem alguma poesia?”, indagou Vinicius Thomas. A maioria balançou a cabeça negativamente. Mas após a declamação dos primeiros versos da música Jesus Chorou, do grupo Racionais MCs, todos mudaram a direção do balancear, e de cima a baixo, acompanhavam a letra decorada de uma das poesias escritas por Mano Brown.
Mas não só de homens é composto o movimento, e pra falar sobre a questão de gênero, Beatriz, representando o graffiti, Luana Nayhara, da Frente Feminina de Hip Hop de Bauru, e a MC Sara Donato. Questões como a popular “cantada de rua”, a falta de protagonistas femininas, a diferença entre salários, a violência doméstica e outras formas de opressão foram temas apresentados pelas poderosas professoras.

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Sara Donato
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Luana Nayhara e Beatriz Benedito

Pra pesar na mente da galera, Sara Donato deu início a sequência de letras e poesias declamadas com o som autoral “Pesou na Mente”, que prega o respeito ao corpo feminino e a quebra dos padrões de beleza vigentes na sociedade. Na sequência, letras próprias dos integrantes do combo se misturaram a outras já consagradas de monstros da cultura  como Renan Inquérito, Sérgio Vaz e Sabotage, em um mini-sarau.

Mas em meio a tantas feras, o destaque ficou mesmo com Ronaldo Soares, um dos instrutores de curso do centro educacional. Apontado como um apreciador de poesias, Ronaldo apostou no freestyle e criou uma letra ali mesmo, onde pregava igualdade entre os povos.

Após mais de duas horas de trocas intensas de ideias, o convite de visita a Casa do Hip Hop foi feito a todos, especialmente para conhecerem as variadas oficinas oferecidas pela Casa, envolvendo não só os principais elementos apresentados ali, mas também outros como artes marciais e o cursinho pré-vestibular

A tarde se encerrou e a van mais barulhenta da cidade foi novamente ocupada, mas antes de partir, Vinicius Thomas, como um dos idealizadores do projeto, pediu a palavra e agradeceu a todos os envolvidos em mais uma edição do Combo, em mais uma histórica Semana de Hip Hop de Bauru.

Mulheres fazem barulho e representam no Mic e nas Pick-ups na Semana do Hip Hop

No primeiro domingo da Semana do Hip Hop de Bauru, a representatividade feminina foi um dos destaques nos palcos, trazendo nomes como Issa Paz, Brisa Flow e DJ Vivian Marques para agitar o público bauruense.

Por Thamires Motta
Fotos: Felipe Moreno

DJ Nielly tem apenas 13 anos mas já demonstrou sem esforço que comanda as pick-ups tão bem quanto qualquer deejay com muitos anos de experiência. No último domingo (8), ao lado de Vivian Marques, as duas agitaram o Parque Vitória Régia com uma seleção de músicas black dançantes e raps clássicos.

DJ Vivian Marques
DJ Vivian Marques

Envolvida com o hip hop “desde que estava na barriga”, Nielly tem a música no sangue: começou a rimar com 5 anos, ao lado da mãe Lunna Rabetti, no grupo Livre Ameaça. Com 14, decidiu que gostava mesmo é de riscar os discos, e com o apoio da família, começou a participar de oficinas e ter aulas com grandes nomes do Hip Hop feminino, como as deejays Simmone Lasdenas e a própria Vivian Marques, com quem dividiu o palco. A idade não é obstáculo para que Nielly consiga analisar o cenário Hip Hop pela ótica da representatividade feminina. Para ela, “até hoje as mulheres vem lutando para ter espaço no palco, para mandar ideia no microfone ou mandar uma música ‘da hora’ de uma mina nas pickups”, conta ela.

Brisa Flow
Brisa Flow

A primeira mulher MC a pisar nos palcos da Semana do Hip Hop de Bauru foi Brisa Flow, nascida em Belo Horizonte, trazendo em seu sotaque muito estilo e levada que inspirou b.boys a ensaiar alguns movimentos na grama do parque Vitória Régia. A mineira já havia se apresentado em Bauru na inauguração da Casa do Hip Hop, em agosto, e voltou para a cidade comparecendo a um palco maior, com um público ainda mais animado. Para Brisa Flow, Bauru se destaca das grandes capitais porque “aqui os quatro elementos são muito mais unidos”. A MC acredita que a importância da Semana do Hip Hop é justamente compartilhar cultura, com enfoque especial na atuação das mulheres dentro do movimento. “Nós sempre estivemos em todas as áreas do Hip Hop, e representatividade importa porque quando a gente não aparece, não somos lembradas”, conta ela.

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Issa Paz

Issa Paz, que veio da zona norte de São Paulo para a Semana do Hip Hop, cantou diversas faixas do CD “A Arte da Refutação”, seu primeiro disco de estúdio. Entusiasmando o público com rimas rápidas e certeiras, a MC entoou “Respeita nosso corre” com mulheres e homens a uma só voz. Para Issa, “se a mulher não se vê em algum lugar, em cima dos palcos, sua própria mente pensa que ela não é capaz”, explica. “Quando você não vê mulheres falando das suas vivências, é um silenciamento”. A MC também comentou sobre a dificuldade das mulheres em encontrar produção de qualidade e pessoas que as apoiem nas gravações, no fortalecimento da cena. Para ela, a Semana do Hip Hop de Bauru é importante justamente para que o interior tenha mais representatividade, e como membro da Frente Nacional de Mulheres no Hip Hop, assim como Lunna Rabetti, DJ Nielly e Brisa Flow, Issa deve ter razão. No entanto, com uma presença de peso no palco, as MCs provaram que o interior tem dado cada vez mais voz para as mulheres, um espaço conquistado com muitas rimas, passos e discos riscados.