Tássia Reis leva o público ao delírio com carisma, breaking e muito Rapjazz

 

Tássia Reis
Tássia Reis

Pela primeira vez em Bauru, a rapper esbanjou talento com suas músicas e passos de dança

Por Thamires Motta
Fotos: Felipe Amaral, Lucas Rodrigues e Mariana Caires

A rapper Tássia Reis, que se iniciou no movimento Hip Hop por meio da dança, começou ensaiando alguns passos logo no início do show no último dia 11 de novembro. Com o Espaço de Convivência lotado no SESC, o público pôde curtir as faixas principais do EP “Tássia Reis”, que a cantora lançou no ano passado.

Misturando blues, soul, reggae e jazz, influências que recebeu desde criança, e inspirada por grandes nomes como Etta James, Sarah Vaughan, Nina Simone e Aretha Franklin, Tássia Reis consegue juntar com maestria o ritmo envolvente das suas inspirações com as rimas rápidas, certeiras, pesadas e politizadas, talento que desenvolve desde 2005.

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Numa releitura de Erykah Badu, a primeira música trouxe a voz de Tássia nos beats da cantora estadunidense, sem deixar absolutamente nada a desejar entre a musicalidade e a afinação das duas. Num show entusiasmado e animado, o público acompanhou a cantora nos refrões, admirados com a voz aveludada que Tássia intercala entre rimas, misturando saxofones e notas de piano em beats e scratches do DJ.

Sob o beat de Notorious B.I.G, a MC apresentou algumas músicas de fora do EP. Bauru teve a honra de escutar pela primeira vez em um show o recém-lançado “Ouça-me”, faixa da série “Make Noise”, em colaboração com o produtor Arthur Joly, que cria sintetizadores. Emocionada, Tássia mandou a letra que fala sobre empoderamento feminino, a luta contra o racismo e a vontade de ser escutada. Aproveitou o espaço para expressar a felicidade em ver as mulheres negras se fortalecendo dentro e fora do movimento Hip Hop, e convidou a também rapper Sara Donato a subir no palco e mandar uma letra. Inspirada pelo momento, Sara cantou “Peso na Mente”, em que critica o preconceito, o machismo e os padrões de beleza a que mulheres são submetidas.

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Tássia Reis e Sara Donato

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A euforia do público veio depois das faixas “Asas”, “No seu Radinho” e “Meu Rapjazz”. Tássia soltou um beat e começou canções fortemente inspiradas no soul de Tim Maia e Erykah Badu, ao que o público respondeu abrindo uma roda de break dance bem em frente ao palco. A plateia chegou ao delírio quando a B-girl Ana Gabriela Rodrigues chegou mandando seus movimentos, inspirando até a própria Tássia a descer e demonstrar toda sua habilidade na dança.

Num show inesquecível para a cidade de Bauru e para a Semana do Hip Hop, a rapper prometeu voltar em breve ao interior paulista, trazendo cada vez mais seu talento e todo o seu Rapjazz.

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Tássia Reis e Sara Donato debatem sobre produção independente e as mulheres no Hip Hop

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Numa discussão inspiradora, duas grandes referências femininas no cenário do Rap nacional falaram sobre dificuldades, conquistas, representatividade e machismo

Por Thamires Motta
Fotos: Mariana Caires e Letícia Abreu

Vindas do interior do Estado de São Paulo, respectivamente Jacareí e São Carlos, as rappers Tássia Reis e Sara Donato soltaram o verbo no debate sobre produção cultural independente e a presença feminina no Hip Hop, que aconteceu no SESC Bauru na última quarta, 11 de novembro.

Para as duas MC’s, a história começou de forma parecida: foi a dança e os eventos de break que as atraíram para o coração do movimento Hip Hop. Conversando sobre o cenário independente e representatividade, elas explicaram suas visões sobre ser mulher no rap.

Debate no auditório
Debate no auditório

Tássia começou a ensaiar os primeiros passos com 14 anos, por influências familiares, já que seu pai, apaixonado por James Brown, tinha um grupo de dança. As rimas começaram em freestyles, aos 21 anos, quando subia aos palcos convidada por amigos e desenvolvia o free. “Quando conheci o Hip Hop, foi o momento em que eu pensei: aqui tem um monte de gente parecida comigo, que é de periferia, com a mesma cor que eu, o mesmo cabelo crespo.” conta. “Achei meu lugar e me senti inserida em alguma coisa pela primeira vez”. Para a MC, que nasceu no Vale do Paraíba, ser independente é fazer o que for preciso, já que “o machismo está aí, e o corre é o dobro para as mulheres”, explica.

“Eu acreditava tanto no meu sonho que fazia outras pessoas sonharem comigo”

Em 2013, depois de cerca de cinco anos escrevendo, surgiu a ideia de gravar um EP, e no ano seguinte ele já estava pronto: sete faixas com fortes influências do jazz, blues, soul e reggae, sem perder as rimas certeiras e melódicas. “Eu acreditava tanto no meu sonho que fazia outras pessoas sonharem comigo”, conta Tássia. “Se você luta por aquilo todos os dias, você é a presidente da parada”, defende ela. Ser independente é ao mesmo tempo uma delícia e uma dificuldade, já que a artista possui mais abertura para tomar decisões, mas ao mesmo tempo, a questão financeira é um entrave.

Para a são carlense Sara Donato, representando a Frente Nacional de Mulheres do Hip Hop, a primeira paixão também foi o break: acompanhando o irmão nos bailes, ela ficou admirada de ver algumas poucas mulheres ousando enfrentar b.boys nas batalhas de dança. Se dedicando à composição de letras, Sara juntou cinco amigas e iniciou seu primeiro grupo de rap, que durou pouco tempo. Sem desanimar, juntou-se ao irmão num grupo masculino e manteve-se durante quatro anos, para algum tempo depois iniciar uma carreira sozinha. “Eu queria que me ouvissem. E disso surgiu o Made In Roça”, explica ela.

Sara Donato
Sara Donato

A mixtape, que nasceu em 2013, foi um dos discos “que você não pode deixar de ouvir” segundo o Vai Ser Rimando, e passou a ter um grande alcance, levando a MC para o programa Encontro, na Rede Globo. “No começou, eu hesitei. Quando a gente vê coisas da nossa quebrada é sempre na página policial. Mas eu fui pra falar o que sempre falo, minha música”, conta Sara. Para ela, o que mais emociona é o apoio que recebeu da cena independente. “Eu acho que tive muita sorte, meus parceiros me ajudaram em tudo. No Made In Roça eu não usei um real, foram as pessoas que acreditam no meu trampo que me ajudaram”, diz.

Representatividade. Com maioria feminina e negra na plateia, as MC’s falaram sobre a representatividade das mulheres no rap e aproveitaram para desmistificar algumas ideias. “Precisamos destruir a ideia machista de que só brigamos entre nós. Para a cena existir, é preciso que todo mundo colabore”, explicou Tássia Reis, ao receber a pergunta se mulheres seriam mais organizadas na produção artística. A questão da representatividade, para ela, vai mais além: “Isso é um fato. Muitas mulheres se enxergam em mim. Hoje eu acredito que minhas letras são muito mais incisivas no recorte de gênero e racial”, argumenta ela.

Tássia Reis
Tássia Reis

Sara é ainda mais enfática: “Eu canto para as mulheres se sentirem representadas, mesmo. A ideia não é segregar, é fortalecer”, explica. A música “A Bela”, primeira composição da MC, critica os padrões de beleza e a futilidade, ideia que chegou ainda mais longe com a faixa “Peso na Mente”, que fala diretamente sobre o preconceito, com rimas cabulosas, como “minha meta não é ser aceita, não preciso me camuflar. Quem foi que disse que pra ser linda não pode engordar?”. A MC conta também que recebe muitos agradecimentos de mulheres nos shows, que ficam emocionadas ao escutar canções que falam sobre suas vidas. “As minas vem tendo mais visibilidade, e a ideia é essa”, diz.

O interior tem voz? Para Tássia, que nasceu em Jacareí e mudou-se recentemente para São Paulo, muitas vezes o interior paulista não possui estrutura para auxiliar os produtores de cultura, em especial do Hip Hop. “Somos muito desestimulados”, conta. “Informações de editais não chegam, as prefeituras não ajudam, parece que nem querem… mas a internet possibilita que você more no interior e realize coisas”, explica. Já Sara Donato ainda não se vê vivendo na grande metrópole. “Se você não se fortalece primeiramente na sua cidade, ir pra São Paulo é ser só mais uma”, acredita.
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Keytyane Medeiros, representante da Frente Feminina de Hip Hop de Bauru, acredita que o debate tem relevância no momento atual. “Vivemos um momento de grande número de produtores culturais, onde os meios de se obter financiamento para veículos de comunicação, peças de teatro e shows, não dependem mais exclusivamente de editais públicos ou privados, todos nós somos produtores de conteúdo e podemos vender esse serviço de maneira autonôma. Entender a participação das mulheres nesse processo é essencial para descontruir o machismo e o racismo no meio cultural também, nossa luta é diária”. 

O debate chegou ao fim com o sentimento de garantia de que as mulheres cada vez mais estarão tomando os espaços, fortalecendo a cena e cantando suas visões de mundo. “A caminhada pode ser difícil, mas a gente tá aí pra colocar uma bomba no sistema, não estamos sozinhas. É clack boom”, finaliza Tássia.

Freestyle, Luiz Gonzaga e encerramento a capela no meio do povo marcam o show frenético de Rapadura

IMG_0387Artista leva público ao delírio em sua apresentação marcada por originalidade e carisma na V Semana do Hip Hop de Bauru

Por Lucas Zanetti
Fotos: Lucas Rodrigues e Felipe Moreno

A diversidade de apresentações na abertura da V Semana Municipal do Hip Hop de Bauru foi consagrada pela apresentação do músico cearense Rapadura Xique-Chico. O carisma e a presença de palco do artista, em conjunto com a extrema valorização das raízes negra e indígena do povo brasileiro, sem dúvida vão ficar guardados por muito tempo na cabeça de quem esteve presente no parque Vitória Régia no último domingo, 8 de novembro.

Na levada rítmica da sanfona nordestina, ao som do mestre Luiz Gonzaga, a apresentação de Rapadura contou também com freestyle, idioma indígena e não foi finalizada no palco! Terminou lá em baixo, na catarse do público que cantava junto com ele a capela. No palco e fora dele, o artista deu uma verdadeira aula de humildade, originalidade e de cultura brasileira.

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Rapadura com meninas do Abayomi

“O maracatu e a cultura é o que vem naturalmente e a gente se identifica só de olhar no olho, de dar um abraço”

Antes de sua performance, o artista havia se apresentado com Abayomi, grupo bauruense de maracatu, que rendeu comoção de algumas integrantes do grupo. ”Meu olho encheu d’água porque eu vi as minas ali tocando e elas estavam chorando. Foi uma coisa muito bonita. O maracatu e a cultura é o que vem naturalmente e a gente se identifica só de olhar no olho, de dar um abraço”, diz Rapadura sobre o momento. Depois, retornou aos palcos novamente em parceria com o Inquérito.

Há três dias sem dormir direito, Rapadura fez muito barulho no Vitória Régia, levando o público ao delírio ao lado de seu DJ oficial, Rodrigo RM, que tem 13 anos de carreira e acumula 18 prêmios. Em 2008 RM ficou entre os 10 melhores DJs do mundo quando ganhou o prêmio ”DCM BRASIL”. Sua apresentação na abertura da Semana levou o povo ao delírio e foi digna de sua grandeza.

A mistura do rap com o repente. Rapadura é um artista de vanguarda. Seu som mistura elementos do rap com o repente, o maracatu, o coco, o forró e o baião típicos da cultura nordestina. ”Estes dois movimentos estão concentrados dentro de mim, então eu só jogo para fora o que tem aqui dentro”, conta o artista.

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Para ele, os ritmos convergem em diversos aspectos, o que torna esta mistura bem natural. ”O discurso é o mesmo, é contra o preconceito, é contra o racismo é a favor de melhorias para o povo então tem tudo a ver o rap com o repente”, explica. Toda esta complexidade rendeu a ele o Prêmio Hutúz 2009 como melhor artista Norte/Nordeste.

Apesar das diferenças, o rapper vê muitas semelhanças entre a cultura nordestina e a do interior paulista. ”As pessoas do interior daqui são parecidas com o interior de lá no acolhimento, no sorriso, no abraço, no carinho. Hoje eu recebi muito calor humano. Eu vejo que o nordeste está aqui e aqui está no nordeste”, opina.

“A gente vive em um país que não tem como dizer que é branco. Nosso país é negro, é indígena. Só que a gente se vê pouco nas representações”

O povo brasileiro não é branco. Um dos principais elementos da apresentação de Rapadura foi a valorização do povo negro e indígena brasileiro, que estão marcadas em nossos traços físicos e culturais. ”A gente vive em um país que não tem como dizer que é branco. Nosso país é negro, é indígena. Só que a gente se vê pouco nas representações. Desde quando eu aprendi o que é Hip Hop eu aprendi que existe um compromisso social”, comenta.

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A transformação do Hip Hop. Rapadura acredita que o novo sempre é bem vindo, desde que contribua de maneira positiva para o movimento. Ele critica os artistas que se utilizam da cultura Hip Hop sem saber o seu real significado e importância. ”O movimento tá crescendo bastante, mas eu vejo um lado que tá crescendo sem o conhecimento do Hip Hop. A galera chega, mas não sabe como começou isso, da onde veio, quem foram os precursores. Quantas pessoas apanharam para você poder usar um boné na cabeça hoje, quantas pessoas apanharam para você poder subir no palco e poder ter liberdade de expressão”, critica.

Ele acredita que os antigos e os novos devem trabalhar em conjunto para o progresso positivo do movimento. ”Nós mais antigos também temos a responsabilidade de chegar na molecada e trocar uma ideia”, completa.

 

 

Thaíde volta à Bauru pela terceira vez consecutiva para a Semana do Hip Hop

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Importante pilar do rap nacional, o rapper agitou o público e se emocionou com o crescimento da cultura Hip Hop na cidade de Bauru

Por Gabriela Martinez
Fotos: Felipe Moreno e Lucas Rodrigues

O primeiro domingo de atividades da V Semana do Hip Hop, que aconteceu no Parque Vitória Régia neste domingo (8), foi fechado com chave de ouro com o show do rapper paulistano Thaíde. Com a casa lotada, o rapper vibrou com a energia da galera que o esperava ansiosamente.

Pela terceira vez consecutiva na Semana do Hip Hop, Thaíde disse à nossa equipe que o movimento Hip Hop em Bauru está cada vez mais forte, parabenizou a equipe e comentou a crescente potência do movimento Hip Hop na cidade: “Chegar em 2015 e encontrar essa multidão de pessoas aplaudindo, segurando a onda de pé e cantando todas as músicas, isso a gente não pode deixar esfriar, tem que esquentar cada vez mais.” O rapper, que está na estrada desde os anos 80 e é considerado um dos mais importantes e influentes nomes da velha guarda no cenário do rap atual, conta que a primeira vez que veio à Bauru foi na década de 90 e que sempre foi muito bem recebido: “Em Bauru a gente sempre foi recebido com a cultura Hip Hop local, não é uma coisa copiada, é uma coisa de Bauru mesmo e isso é muito importante.”

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Quando questionado sobre a luta do movimento Hip Hop contra o racismo, Thaíde ressaltou que o racismo sempre foi tema de outros estilos musicais, mas que de uma maneira tão direta e agressiva, somente o Hip Hop abordou. “A música rap, sem dúvida nenhuma, é uma grande arma contra o racismo no Brasil e em qualquer outra parte do mundo”.

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Thaíde e Ding

Thaíde ainda presenteou o DJ residente, DJ Ding com um exemplar de seu próprio disco a ser lançado na semana que vem, por ocasião do aniversário de ambas ser bastante próximo, Ding faz aniversário dia 4 e Thaíde comemora o nascimento no dia 5 de novembro. Ano passado Ding o presenteou com um DVD do primeiro show de Thaíde em Bauru, em 1992. Em retorno, Thaíde o presenteou com um vinil com remixes da música “Pra cima”, sucesso em 2007.

O primeiro domingo da Semana do Hip Hop encerrou-se com o show do grande Thaíde, mas recebeu também artistas consagrados do cenário atual, como o rapper cearense Rapadura Xique-Chico e o grupo Inquérito, além de artistas locais e uma linda apresentação de Maracatu.
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