Tarde de shows marca a abertura oficial da Semana do Hip Hop Bauru 2016

A programação continua na maior Semana do Hip Hop do país. O domingo foi marcado pelo empoderamento da mulher, ativismo e mais uma vez muito hip-hop.

Por Mariana de Moraes e Felipe de Sousa
Fotos: Guilherme Munhoz, Banca Moreira, Mari Soares, Cadu Oliveira

O segundo dia de atividades da Semana do Hip Hop Bauru foi um dos mais aguardados pelo público. A programação começou às 14h no Parque Vitória Régia, com Dj Ding no comando dos toca-discos com clássicos do rap nacional e internacional.

Diretamente de Belo Horizonte, Negra Lud e Neghaun, iniciaram as apresentações que foram marcadas principalmente pela mensagem de superação e resistência. Em entrevista, Neghaun conta que foi uma ótima experiência, “foi muito prazeroso, sair de Belo Horizonte e estar colando aqui em Bauru com vocês e sentir toda essa vibe, sentir que o hip hop permanece vivo e permanece.” Sobre o movimento Hip Hop, o mc minero fala que a sociedade já aceita e deve aceitar mais o movimento, ”O mais importante de tudo que nós, o nosso povo, tem que entender melhor o que a gente planta a varias décadas, a quase 5 décadas, nosso povo tem que entender mais, mas a sociedade está abraçando mais, a sociedade entende o que a gente falava a 20 anos atrás a época que eu comecei, eu acho que estamos no caminho e no progresso”.

Negra lud que também se apresentou afirma que foi uma linda experiência voltar a cantar em Bauru, “Eu acho muito bonito ver o hip hop acontecendendo e é um enorme prazer voltar, eu sinto que estou somando para o que acontece e com o real intuito que o evento tem. (…) O movimento está crescendo cada vez mais, eu acho que a gente ta se apresentando melhor e trazendo conteúdo para as pessoas entenderem o movimento, (…) as pessoas estão começando a receber melhor a proposta do Hip Hop. É interessante isso, as pessoas estão curiosas para saber qual é a desse movimento que está proliferando em todo país, eu diria em todo mundo, tá bonito demais e eu fico muito feliz com tudo isso”.

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As mulheres continuaram trazendo muito empoderamento e presença no evento. Odisseia das flores, o grupo paulistano formado por Jô, Chai e Letícia, chegou a Concha Acústica com rimas repletas de mensagem e força, levando as mulheres da platéia na mesma levada, e a se sentirem representadas.
Quem subiu logo em seguida, diretamente da Cidade Tiradentes, São Paulo, foi o grupo A’s Trinca. Com o trecho “Essa é pra aquele que se identifica, cidade tiradentes zona leste (a’s trinca), três minas no vocal e um Dj no vinil, representatividade das quebradas que emergiu..” da música “Se identifica”, elas mostraram que não estão no jogo pra brincar. Com Músicas sobre representatividade, e denuncia ao machismo, ainda mandaram a letra sobre sua recente presença na televisão, “o hip hop tem que estar em todo lugar!”

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Ao chegar da noite, a presença dos grupos de rap da cidade, Dilema e Origem Rap, empolgou e atraiu mais o público fã do rap do interior. O show contou com participação do Dentão Mc, também artista da cidade, e uma capela do som do grande Mestre Sabotage.

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O grupo RAP PLUS SIZE, formado por Sara Donato e Issa Paz, tomaram o palco e dominaram com rimas que desconstroem o padrão estético e denunciam o machismo, racismo, gordofobia, e buscam o empoderamento da mulher. As minas, que são amigas há tempos e se juntaram recentemente no palco, já estiveram presentes em outras edições da Semana do Hip Hop, mas como grupo esta foi a primeira vez, com músicas como “O pano rasga”, já conhecida do público, fez a galera presente cantar junto e animar ainda mais o role.

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Em uma passagem marcante, o grupo de rap Ordem Natural exibiu sua energia no palco, Os MC’s Gato Congelado e Luo cantaram suas músicas cheia de positivismo e empolgação.
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Próximo às 22h, a concha acústica do Parque Vitória Régia, se transformou ,na mais bela celebração cultural. O MC Rapadura com os sons do disco “Fita Embolada do Engenho” se apresentou e representou o norte e o nordeste do país, com influencia de Luiz Gonzaga, Dominguinhos e a mais pura literatura de cordel, o nordestino mostrou os seus sons mais conhecidos como ‘É doce mais não é mole”, “Moça Namoradeira”, “Norte Nordeste me Veste”, tornando a escadaria do parque um verdadeiro baile.

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A última atração da noite era umas das mais esperadas no cronograma da semana, Thaíde. O Mestre do Hip Hop chegou com seu clássico “Pra cima” numa versão Remix, na companhia do Mister Pumpa Killa e Mc Tifu. O artista com um repertório recheado de clássicos, mostrou todo o seu conhecimento e história no Hip Hop.

 

No decorrer do show, b-boys foram convidados trazendo à Semana do Hip Hop um sentimento da estação São Bento, onde o movimento surgiu e existe até hoje. Thaíde é considerando por sua história no cenário cultural e pelos seus discos considerados verdadeira obras de arte históricas, o MC encerrou o fim de semana de abertura da maior Semana do Hip Hop gratuita da América Latina.
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Mais informações sobre a semana do Hip Hop Bauru, acesse a página no Facebook, Semana do Hip Hop Bauru

Sob o peso da história, das palavras e dos versos

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Sarau do Viaduto, que foi parar na Estação, teve Renan Inquérito, Banks Back Spin, Sara Donato, poetas e militantes da literatura marginal

Por Lucas Mendes
Fotos: Lucas Rodrigues Alves da Silva

“Cada Sarau, cada roda de b.boy, cada graffiti, cada risco, é um movimento de resistência, e a resistência é a consciência”. Foi mais ou menos assim que rolou, na noite dessa sexta-feira 13 de novembro, a edição especial do Sarau do Viaduto, na V Semana Municipal do Hip Hop. Encontro de poesia, formação política e Hip Hop, com participação diversa que foi do cordel à poesia marginal.

Organizado pela Biblioteca Móvel – Quinto Elemento em parceria com a Casa do Hip Hop e a Secretaria de Cultura de Bauru, o Sarau do Viaduto vem movimentando o cenário cultural-marginal. Sempre com a presença de algum convidado especial, já passaram por ele Ni Brisant, Karluz Magum e Gracco Liveira e agora Renan Inquérito e Banks Back Spin.

Se a chuva impossibilitou o uso do viaduto da Duque de Caxias, o destino trazia algo de simbólico na mudança do evento pra Casa do Hip Hop, na Estação Ferroviária. Uma estação de trens, assim como era lá na São Bento, no auge dos anos 80.

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“Um local de tantos encontros, um dos maiores entroncamentos ferroviários do Brasil, daqui saia trem pro Brasil inteiro. É um lugar histórico e só de olhar a arquitetura você sente o peso da história”. Assim Renan Inquérito definiu a Estação, local onde a poesia fez sua morada passageira nessa noite.

Renan já é de casa. Presença constante na cidade, ele já tinha participado da abertura cultural da Semana, lá no Vitória Régia. Agora, num contato mais próximo com o público, pôde “olhar no olho e chamar as pessoas pelo nome”.

“Sarau é a poesia longe do pedestal”

“O show é aquela multidão, todo mundo emocionado, o Rap batendo forte, então é louco sentir a energia da massa explodindo e cantando junto. O outro momento, tão importante quanto, é quando rola o sarau. Porque no sarau não tem palco, muitas vezes nem microfone, holofote, e não tem multidão. Porém as pessoas falam de igual pra igual. É a poesia longe do pedestal, a poesia pisando o pé no chão”, observou Renan.

Banks Back Spin
Banks Back Spin

Outro que também marca presença na cena do Hip Hop bauruense é o Banks, da lendária Back Spin Crew, grupo que completa 30 anos em 2015. Ele colou com Cerébro IDP, diretamente de São Paulo, e já foi dando a letra.

“Brigamos, xingamos, discutimos e ofendemos, e não percebemos que o amor que sentimos nem sempre é demonstrado, de uma forma simples e direta. Porque a vida nos proporciona várias curvas, mas nosso sentimentos insistem em seguir sempre em linha reta”, diz Banks.

Desde sua última passagem na Semana do Hip Hop, Banks faz questão de destacar a evolução da cultura na cidade. “O caso da literatura, quando eu vim pra cá tinha o trabalho literário do Renato (Rapnobre) e da rapaziada, mas não tinha um sarau, e hoje tem um que tá bombando. Então ver essa evolução em menos de um ano é o suficiente pra voltar carregado de energias positivas”.

Banks, que era b.boy e passou a se dedicar ao quinto elemento do Hip Hop – o conhecimento, disse estar “revigorado” com a boa energia de “paz, união e fraternidade” que pairou no Sarau.

Major e Banks
Major e Banks

Além das poesias, ainda deu tempo pra declarações especiais. Uma delas foi do próprio Banks, que a certa altura chamou o b.boy bauruense Major, pra comentar do seu ingresso na sexta geração de b.boys da Back Spin.

Conhecimento inerente ao sujeito. Willian Rodrigues, um dos idealizadores da Biblioteca Móvel e também organizador dos Saraus, acredita que “o conhecimento não está dissociado do sujeito”, daí a questão de que o conhecimento percorre os outros elementos do Hip Hop também.

“Qualquer tipo de informação, qualquer tipo de conhecimento, seja ele inserido num suporte enquanto livro, ou até mesmo num microfone, ou usando outros meios tecnológicos pra se divulgar ou propagar a informação, é importante e é imprescindível pra uma cultura como a do Hip Hop”, atesta ele.

Apesar da Semana do Hip Hop chamar bastante a atenção quando ocorre, para Willian “ela vem coroar o trabalho que já é desenvolvido ao longo do ano”. Segundo ele, “todos os finais de semana a gente vem trabalhando, ocupando o espaço público, fazendo os empréstimos de livros e garantindo o acesso ao conhecimento. E hoje o Sarau vem ganhando força dentro do movimento, e isso é interessante porque, de certa forma, o movimento estava limitado até então aos quatro elementos, e quando vem o Sarau e a literatura, o movimento ganha novos aportes”.

“Hip Hop que senta no chão com a comunidade”. Além dos monstros convidados, o Sarau também contou com a participação de Sara Donato e Karluz Magum, de São Carlos, e da rapaziada nova do Rap bauruense, como o David MC.

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Helô e Renan

Momento marcante foi quando a pequena Helô, de sete anos, foi até o microfone pra declamar os versos. Ela tinha entregue uma cartinha para Renan, pedindo pra ele cantar a música “Carrossel”. O pedido, claro, foi atendido por ele.

Para além dos eventos e apresentações, o que fica cada vez mais certo é a importância da Semana do Hip Hop. “Ela causa um impacto no Brasil inteiro, porque é uma semana que vem ganhando um amplitude dentro da cultura”, disse Banks.  

Na mesma linha defende Renan Inquérito. “Tem que ter a Semana do Hip Hop todo ano, tem que ser uma Lei, pra ficar estabelecido. Então viva a Semana do Hip Hop de Bauru! Eu me sinto privilegiado de estar aqui e levar essa boa nova aos quaro cantos do Brasil, pra que existam outras semanas do Hip Hop, nas quebradas desse mundaréu afora”.

Combo 5 Elementos no CIPS

_MG_4468A molecada cantou, dançou, pintou e deixou claro que entendem do assunto

Por Gabriela Martinez
Fotos: Gabriela Martinez

Nesta quinta-feira, 12 de novembro, o Combo 5 Elementos esteve com cerca de 250 jovens do CIPS (Consórcio Intermunicipal da Promoção Social) durante a tarde, interagindo, ensinando e aprendendo também. Com o lema de Pitágoras “eduque um menino e não será preciso castigar os homens”, o CIPS funciona como uma ONG de interesse e utilidade pública, que desde 1960, promove atividades educativas e de qualificação profissional como programa “Jovem Aprendiz”, além de fazer acompanhamento de famílias em situações de risco pessoal ou social.

Enquanto a equipe da organização ajustava os últimos detalhes para começar a apresentação, os olhinhos da molecada acompanhavam atentamente cada detalhe. “Eles estavam esperando vocês ansiosamente” comenta Edson Stahl, coordenador pedagógico do CIPS.

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Vinicius Thomas

A apresentação do Combo 5 Elementos começou com a explicação de cada um dos elementos do Hip Hop, sendo eles o Rap, o Breaking, o Graffitti, o DJ e o quinto, o Conhecimento. A galera interagiu tanto, que era possível confundir quem estava aprendendo e quem estava ensinando ali. Perguntas sobre o significado da palavra “Rap” ou do termo “Hip Hop” foram motivos de muitos braços levantados e disputa para serem escolhidos para responder.

A rapper Sara Donato também participou do evento. Pegou o microfone e conversou com a molecada sobre a escassez de mulheres em evidência no Hip Hop, logo, do machismo impregnado em nossa sociedade e terminou recitando a letra de uma de suas músicas “Peso na mente”, que aborda de forma crítica os padrões de beleza impostos pela mídia.

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Sara Donato representa Frente Feminina de Hip Hop levantando questões de gênero

Depois de toda prosa, a molecada desceu da arquibancada para arriscar passos de breaking e traços de tinta no graffitti. O CIPS é uma ONG (Organização Não Governamental) que trabalha com crianças de 3 à 17 anos, com o objetivo de tirá-las da rua e prepará-las para o mercado de trabalho, profissionalizando-as. O trabalho é feito através de aulas que ensinam ética, cidadania e atividades lúdicas para os mais novos. Para Edson, Coordenador Pedagógico da ONG, “tudo que é voltado para a Cultura é importante, ainda mais quando falamos da cultura do Hip Hop que está tão próxima da realidade deles”.

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Beatriz Benedito fala sobre graffiti

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Tássia Reis leva o público ao delírio com carisma, breaking e muito Rapjazz

 

Tássia Reis
Tássia Reis

Pela primeira vez em Bauru, a rapper esbanjou talento com suas músicas e passos de dança

Por Thamires Motta
Fotos: Felipe Amaral, Lucas Rodrigues e Mariana Caires

A rapper Tássia Reis, que se iniciou no movimento Hip Hop por meio da dança, começou ensaiando alguns passos logo no início do show no último dia 11 de novembro. Com o Espaço de Convivência lotado no SESC, o público pôde curtir as faixas principais do EP “Tássia Reis”, que a cantora lançou no ano passado.

Misturando blues, soul, reggae e jazz, influências que recebeu desde criança, e inspirada por grandes nomes como Etta James, Sarah Vaughan, Nina Simone e Aretha Franklin, Tássia Reis consegue juntar com maestria o ritmo envolvente das suas inspirações com as rimas rápidas, certeiras, pesadas e politizadas, talento que desenvolve desde 2005.

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Numa releitura de Erykah Badu, a primeira música trouxe a voz de Tássia nos beats da cantora estadunidense, sem deixar absolutamente nada a desejar entre a musicalidade e a afinação das duas. Num show entusiasmado e animado, o público acompanhou a cantora nos refrões, admirados com a voz aveludada que Tássia intercala entre rimas, misturando saxofones e notas de piano em beats e scratches do DJ.

Sob o beat de Notorious B.I.G, a MC apresentou algumas músicas de fora do EP. Bauru teve a honra de escutar pela primeira vez em um show o recém-lançado “Ouça-me”, faixa da série “Make Noise”, em colaboração com o produtor Arthur Joly, que cria sintetizadores. Emocionada, Tássia mandou a letra que fala sobre empoderamento feminino, a luta contra o racismo e a vontade de ser escutada. Aproveitou o espaço para expressar a felicidade em ver as mulheres negras se fortalecendo dentro e fora do movimento Hip Hop, e convidou a também rapper Sara Donato a subir no palco e mandar uma letra. Inspirada pelo momento, Sara cantou “Peso na Mente”, em que critica o preconceito, o machismo e os padrões de beleza a que mulheres são submetidas.

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Tássia Reis e Sara Donato

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A euforia do público veio depois das faixas “Asas”, “No seu Radinho” e “Meu Rapjazz”. Tássia soltou um beat e começou canções fortemente inspiradas no soul de Tim Maia e Erykah Badu, ao que o público respondeu abrindo uma roda de break dance bem em frente ao palco. A plateia chegou ao delírio quando a B-girl Ana Gabriela Rodrigues chegou mandando seus movimentos, inspirando até a própria Tássia a descer e demonstrar toda sua habilidade na dança.

Num show inesquecível para a cidade de Bauru e para a Semana do Hip Hop, a rapper prometeu voltar em breve ao interior paulista, trazendo cada vez mais seu talento e todo o seu Rapjazz.

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Tássia Reis e Sara Donato debatem sobre produção independente e as mulheres no Hip Hop

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Numa discussão inspiradora, duas grandes referências femininas no cenário do Rap nacional falaram sobre dificuldades, conquistas, representatividade e machismo

Por Thamires Motta
Fotos: Mariana Caires e Letícia Abreu

Vindas do interior do Estado de São Paulo, respectivamente Jacareí e São Carlos, as rappers Tássia Reis e Sara Donato soltaram o verbo no debate sobre produção cultural independente e a presença feminina no Hip Hop, que aconteceu no SESC Bauru na última quarta, 11 de novembro.

Para as duas MC’s, a história começou de forma parecida: foi a dança e os eventos de break que as atraíram para o coração do movimento Hip Hop. Conversando sobre o cenário independente e representatividade, elas explicaram suas visões sobre ser mulher no rap.

Debate no auditório
Debate no auditório

Tássia começou a ensaiar os primeiros passos com 14 anos, por influências familiares, já que seu pai, apaixonado por James Brown, tinha um grupo de dança. As rimas começaram em freestyles, aos 21 anos, quando subia aos palcos convidada por amigos e desenvolvia o free. “Quando conheci o Hip Hop, foi o momento em que eu pensei: aqui tem um monte de gente parecida comigo, que é de periferia, com a mesma cor que eu, o mesmo cabelo crespo.” conta. “Achei meu lugar e me senti inserida em alguma coisa pela primeira vez”. Para a MC, que nasceu no Vale do Paraíba, ser independente é fazer o que for preciso, já que “o machismo está aí, e o corre é o dobro para as mulheres”, explica.

“Eu acreditava tanto no meu sonho que fazia outras pessoas sonharem comigo”

Em 2013, depois de cerca de cinco anos escrevendo, surgiu a ideia de gravar um EP, e no ano seguinte ele já estava pronto: sete faixas com fortes influências do jazz, blues, soul e reggae, sem perder as rimas certeiras e melódicas. “Eu acreditava tanto no meu sonho que fazia outras pessoas sonharem comigo”, conta Tássia. “Se você luta por aquilo todos os dias, você é a presidente da parada”, defende ela. Ser independente é ao mesmo tempo uma delícia e uma dificuldade, já que a artista possui mais abertura para tomar decisões, mas ao mesmo tempo, a questão financeira é um entrave.

Para a são carlense Sara Donato, representando a Frente Nacional de Mulheres do Hip Hop, a primeira paixão também foi o break: acompanhando o irmão nos bailes, ela ficou admirada de ver algumas poucas mulheres ousando enfrentar b.boys nas batalhas de dança. Se dedicando à composição de letras, Sara juntou cinco amigas e iniciou seu primeiro grupo de rap, que durou pouco tempo. Sem desanimar, juntou-se ao irmão num grupo masculino e manteve-se durante quatro anos, para algum tempo depois iniciar uma carreira sozinha. “Eu queria que me ouvissem. E disso surgiu o Made In Roça”, explica ela.

Sara Donato
Sara Donato

A mixtape, que nasceu em 2013, foi um dos discos “que você não pode deixar de ouvir” segundo o Vai Ser Rimando, e passou a ter um grande alcance, levando a MC para o programa Encontro, na Rede Globo. “No começou, eu hesitei. Quando a gente vê coisas da nossa quebrada é sempre na página policial. Mas eu fui pra falar o que sempre falo, minha música”, conta Sara. Para ela, o que mais emociona é o apoio que recebeu da cena independente. “Eu acho que tive muita sorte, meus parceiros me ajudaram em tudo. No Made In Roça eu não usei um real, foram as pessoas que acreditam no meu trampo que me ajudaram”, diz.

Representatividade. Com maioria feminina e negra na plateia, as MC’s falaram sobre a representatividade das mulheres no rap e aproveitaram para desmistificar algumas ideias. “Precisamos destruir a ideia machista de que só brigamos entre nós. Para a cena existir, é preciso que todo mundo colabore”, explicou Tássia Reis, ao receber a pergunta se mulheres seriam mais organizadas na produção artística. A questão da representatividade, para ela, vai mais além: “Isso é um fato. Muitas mulheres se enxergam em mim. Hoje eu acredito que minhas letras são muito mais incisivas no recorte de gênero e racial”, argumenta ela.

Tássia Reis
Tássia Reis

Sara é ainda mais enfática: “Eu canto para as mulheres se sentirem representadas, mesmo. A ideia não é segregar, é fortalecer”, explica. A música “A Bela”, primeira composição da MC, critica os padrões de beleza e a futilidade, ideia que chegou ainda mais longe com a faixa “Peso na Mente”, que fala diretamente sobre o preconceito, com rimas cabulosas, como “minha meta não é ser aceita, não preciso me camuflar. Quem foi que disse que pra ser linda não pode engordar?”. A MC conta também que recebe muitos agradecimentos de mulheres nos shows, que ficam emocionadas ao escutar canções que falam sobre suas vidas. “As minas vem tendo mais visibilidade, e a ideia é essa”, diz.

O interior tem voz? Para Tássia, que nasceu em Jacareí e mudou-se recentemente para São Paulo, muitas vezes o interior paulista não possui estrutura para auxiliar os produtores de cultura, em especial do Hip Hop. “Somos muito desestimulados”, conta. “Informações de editais não chegam, as prefeituras não ajudam, parece que nem querem… mas a internet possibilita que você more no interior e realize coisas”, explica. Já Sara Donato ainda não se vê vivendo na grande metrópole. “Se você não se fortalece primeiramente na sua cidade, ir pra São Paulo é ser só mais uma”, acredita.
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Keytyane Medeiros, representante da Frente Feminina de Hip Hop de Bauru, acredita que o debate tem relevância no momento atual. “Vivemos um momento de grande número de produtores culturais, onde os meios de se obter financiamento para veículos de comunicação, peças de teatro e shows, não dependem mais exclusivamente de editais públicos ou privados, todos nós somos produtores de conteúdo e podemos vender esse serviço de maneira autonôma. Entender a participação das mulheres nesse processo é essencial para descontruir o machismo e o racismo no meio cultural também, nossa luta é diária”. 

O debate chegou ao fim com o sentimento de garantia de que as mulheres cada vez mais estarão tomando os espaços, fortalecendo a cena e cantando suas visões de mundo. “A caminhada pode ser difícil, mas a gente tá aí pra colocar uma bomba no sistema, não estamos sozinhas. É clack boom”, finaliza Tássia.

Entrevista: De tanta porta fechada, as mina se organizaram

Frente Nacional Mulheres no Hip Hop participa da V Semana de Hip Hop Bauru, reivindicando a presença feminina no movimento

Entrevista por Ana Carolina Moraes
Fotos: Mariana Lacava, Lucas Rodrigues e Felipe Amaral

Elas vieram de São Paulo para somar com movimento de Bauru. A Frente Nacional Mulheres no Hip Hop (FNMH²), coletivo feminino fundado em 2010, acompanhou o desfile de moda urbana no sábado, 7 de novembro, e participa da Abertura Cultural da Semana do Hip Hop 2015, fortalecendo a luta  das mulheres neste universo. Entre desabafos e risos, Lunna Rabetti, DJ Niely, DJ-Rua César, Gabi Nyarai e Issa Paz contam os desafios e satisfações do que é ser mulher dentro do movimento.

Quem é quem. Mãe e filha, Lunna Rabetti e DJ Niely permanecem juntas inclusive se o assunto for Hip Hop. Lunna é uma das fundadoras da Frente Nacional Mulheres no Hip Hop, idealizadora do site Mulheres no Hip Hop e foi membro do grupo Livre Ameaça. Já Niely, 13 anos, compõe o grupo Livre Ameaça desde os 5 anos de idade e  hoje, além do disc jockey, a DJ dedica-se ao 5º elemento do movimento, o conhecimento, participando de debates e roda de conversas.

Gabi Nyarai é rapper, compositora, cantora e trabalhadora, participa de batalhas de conhecimento. DJ-Rua César tem 19 anos de Hip Hop e cultura de rua. Atua como DJ amador há 5 anos e toca para Issa Paz, MC desde 2004, freestyleira de batalha de sangue e de conhecimento, lançou seu primeiro álbum de estúdio, “A arte da refutação”, em meados de 2015.

Issa Paz no palco de abertura
Issa Paz no palco de abertura

 

É uma cultura de silenciamento, na realidade.

Como é ser mulher no universo Hip Hop?
DJ Niely: É difícil ainda, né… A gente não tem tanto espaço que nem os manos tem. Então é difícil uma mina conseguir subir num palco porque tem muito homem, muito machismo no Hip Hop, né. Claro que tem mulher no Hip Hop, só que a gente não ganha tanto espaço para se pronunciar. E essa é uma luta de mil anos atrás, desde Sharylaine, que é uma das pioneiras do movimento, e prevalece hoje quase que sem mudança, porque o machismo ainda é muito forte.

Issa Paz: É uma cultura de silenciamento, na realidade. O Hip Hop ele prega a igualdade, e dentro dele fala-se muito de liberdade, de união. A gente tem que lidar não só com o machismo na cena, mas com a hipocrisia de cada uma dessas pessoas que acredita nisso e quando tem a oportunidade, oprime uma mulher. Então, não é só o boicote aos espaços, não é só o silenciamento da mulher nesses espaços, mas também o uso frequente da própria arte para oprimir.

Gabi Nyarai: O Hip Hop tá na sociedade né, então reflete a dificuldade de ser mulher também nesse espaço. E ao mesmo tempo tem todo um julgamento do que é certo ou errado dentro movimento, e quando você pensa na mina, tem toda carga de opressão porque tá dentro da sociedade. É foda! Tanto que tem toda essa movimentação das mulheres, né, igual a música da Sara Donato, “de tanta porta fechada, as mina se organizou”.

Gabi no palco de abertura
Gabi no palco de abertura

Quais espaços enfrentam mais resistência à presença feminina no movimento?
Lunna Rabetti: As mulheres, em todos os elementos, têm suas dificuldades. De repente fica mais evidenciado no rap porque o rap é o que normalmente está na frente do palco… Mas a gente conta nos dedos quantas DJs têm no Brasil e elas também sofrem as mesmas dificuldades. Por exemplo, DJ é um elemento muito caro por causa de todo equipamento, e ai você fica dependendo se o evento vai ter ou não, e os caras gostam mesmo é de complicar, né.

DJ-Rua César: E a melhor DJ do mundo é brasileira, a DJ Cinara Martins, né. Duas vezes seguida, bicampeã nacional do Red Bull Thre3Style e tem muita gente que nem conhece ela.

Lunna Rabetti: Elas não tem visibilidade. Isso porque a gente tá falando de Hip Hop, mas se a gente for falar de futebol, que é paixão nacional, também vai encontrar esse problema. Acho que essa invisibilidade é num contexto geral.

Issa Paz: Quando eu comecei a me envolver com as mina da FNMH², comecei a realmente ter contato com o Hip Hop na sua forma essencial, eu percebi que é a mesma coisa que a gente passa enquanto MC. O machismo está na sociedade, é normal. Só que não pode ser normalizado. A gente tem que enfrentar isso, em todos os espaços, por isso a FNMH² acolhe todo mundo

A arte ter que ser um contexto subversivo para questionar o que existe.

Como conciliar arte e militância para disseminar cultura em busca de política públicas de gênero?
Issa Paz: Não tem como separar arte de militância. Ou a militância tá inserida na arte, ou não é nem arte, é entretenimento. Porque a arte ter que ser um contexto subversivo para questionar o que existe.

Gabi Nyarai: Não é para ser só uma coisa legal, é para surtir efeito. Tem que ter qualidade, tem que ter propósito. Eu encaro a música como empoderamento, então, se eu ‘respirei’, minha missão é também proporcionar ‘respiro’ às outras pessoas. Isso é arte. Se não for por isso, por quê? Para ser legal, estar na moda ou render dinheiro? Não! É luta, é militância!

Lunna Rabetti: Mas vale lembrar que nem todo mundo tem essa ideologia. Tem muita gente que fala que canta rap, mas não é da militância. E tem também quem faça uma militância contrária a que o Hip Hop deveria fazer. Acho que não é todo mundo que pensa assim, mas deveria ser. Na verdade, acho que até essas pessoas que se dizem não ser militante, um dia vai cair a ficha de que é e se entender. Que nem mulher que é do movimento Hip Hop e se diz não ser feminista: em algum momento ela vai falar ‘Caramba! Eu sempre fui feminista’.

Como é ser referência para outras mulheres no Hip Hop?
Issa Paz: Não me sinto como referência… É que a gente está trabalhando e isso incomoda, né. É muito bom porque você fortalece outras mulheres, que fortalecem outras mulheres, e é uma corrente do bem do fortalecimento, do empoderamento e disseminação de ideias. Se Sharylaine plantou uma sementinha lá atrás, hoje ela é uma floresta gigante que está se multiplicando. Essa é a ideia, cada uma de nós somos referência.

DJ Vivian, uma das referências da jovem DJ Nielly
DJ Vivian, uma das referências da jovem DJ Niely

DJ Niely: Uma vez, a minha mãe estava numa roda de debate na qual só tinha homens. E nisso, ela estava discutindo sobre o tema quando uma menininha começou a fazer uma pergunta. No final, o pai dela veio falar com a minha mãe dizendo que ela nunca tinha pegado num microfone antes. E depois a menininha mesmo disse que se sentiu representada vendo aquela mulher ali. Isso para mim é representatividade, ser referência.

Lunna Rabetti: Essa história é tão interessante porque o pai dessa menininha é o Ferréz, e ele também estava na roda de debate. Aí abriu para plateia e ela fez uma pergunta para ele, e depois o Ferréz comentou que ela sempre o acompanha, mas nunca fez nenhuma pergunta. E aí ela mesma falou que se sentiu mais a vontade porque tinha  mais mulheres falando na mesa. Então eu acho que isso é muito importante, a gente se torna referência nesse sentido. Não no sentido de ser uma artista consagrada, mas no sentido de ser empoderar outras mulheres.

DJ-Rua Cézar: São anos de repressão né, então às vezes a pessoa já se sente reprimida porque a sociedade toda já a reprime. Às vezes ela quer falar, quer dá uma opinião, mas ela não se sente a vontade. Então precisa de um exemplo, igual ao exemplo de uma mulher no palco.

Gabi Nyarai: Eu já participei de batalha na qual eu ganhei antes mesmo de cantar porque tinha muita mina na plateia. E geralmente a mina está com o namorado, meio que desinteressada, mas quando eu subi no palco elas foram para frente e começaram a gritar e aplaudir, porque é ação, é fazendo.

Exigindo seu espaço com garra e determinação, a FNMH² participa da Semana do Hip Hop 2015, em mais dois momentos. Em debate sobre produção cultural independente, por meio da Frente Feminina de Hip Hop de Bauru e durante o fim de semana com a presença de Feniks, Sara Donato e Negra Lud se apresentando nos palcos Interior tem Voz e palco de encerramento, além de ter participado do palco de abertura, no dia 8 de novembro com Issa Paz, Brisa Flow, Gabi Nyarai e DJ Vivian Marques.

 

Combo dos 5 elementos agita Moraes Pacheco, no Bela Vista

IMG_2528Atividade levou a cultura Hip Hip e debates para alunos do ensino médio no Bela Vista

Por Thamires Motta e Lucas Zanetti
Fotos: Mariana Lacava e Thamires Motta

Hoje foi dia de Hip Hop na E.E. Moraes Pacheco. Cerca de 420 alunos participaram do Combo dos 5 Elementos, projeto realizado pela V Semana Municipal do Hip Hop. O objetivo da atividade é levar os elementos do Hip Hop para as escolas, trabalhando de forma teórica e prática, com mini oficinas. Cada elemento é explicado e debatido e depois os alunos são convidados a experimentarem cada um deles da prática.

”A gente tenta interagir com os alunos e fazer eles participarem também dos elementos. No breaking, fazendo passos. No RAP, mandando uma rima”, explica Vinicius Thomas, 18, um dos organizadores do projeto.

Participaram do evento, o grupo AlémDaRima, a rapper Sara Donato, o cantor JotaF, os grafiteiros Zion Jorge, Beatriz Benedito e o coletivo CURA, Magum MC, B-boy David MC, Allisson Ferreira de DJ.

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Vinicius acredita que a importância do evento se dá principalmente por despertar no jovem, por meio da cultura Hip Hop, o senso crítico. ”O Hip Hop tem um caráter muito transformador. Ele mostra pra juventude que tem uma alternativa, que eles podem escolher outras coisas, que eles podem desenvolver artes. Eles aprendem a contestar, a debater, a se impor na sociedade, com outra postura”, explica.

Sara Donato também acredita no potencial transformador do Hip Hop e que, além de levar a cultura, o Combo é uma oportunidade de promover debates críticos com os jovens sobre o combate ao machismo e à violência doméstica. Na atividade de hoje, a rapper falou sobre gênero. ”O Hip Hop vai além de palco, som e dança. É uma ferramenta de transformação e a gente vê isso trazendo para a escola, conversando com a molecada”, opina Sara.

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Com alta interação com o público, logo os alunos foram perdendo a vergonha e curtiram muito o evento. Puderam se arriscar em qualquer elemento e, quem sabe, descobrir um talento a ser trabalhado e uma identificação maior com o universo Hip Hop. Destaque para as minas, que representaram muito no breaking. Uma delas, mandou um poema feminista.

O aluno Felipe Pereira, do 2º ano, também mandou um poema. ”Se a vida fosse bela, todo mar teria ondas, todo som seria rap e todo mar faria nossa cabeça”, recitou. Ele acredita que o evento é muito positivo e acredita que o rap manda a real sobre as coisas. ”É sempre bom passar uma visão para a galera do que está acontecendo e ninguém está vendo. Eu acho esse tipo de evento muito daora”, conta o estudante.

A coordenadora da Moraes Pacheco, Karina Martins, elogiou a iniciativa. Para ela, trazer o movimento para dentro da escola, é uma forma de aproximar a escola da realidade dos próprios estudantes. ”A gente consegue envolver eles no projeto e fazer com que eles tenham mais iniciativa até mesmo na sala de aula”, explica. ”O Combo está sempre valorizando atitudes positivas e isso tem muito a ver com aprendizagem e a formação do cidadão”, completa.

“Em Bauru, me sinto em casa”, diz Renan do grupo Inquérito

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Pela terceira vez na cidade no intervalo de um ano, o Grupo Inquérito agita a abertura da V Semana do Hip-Hop

Por Fernando Martins
Fotos: Felipe Moreno e Lucas Rodrigues


Pela terceira vez na cidade no período de um ano, o Grupo Inquérito mostrou na noite deste domingo que Bauru é mesmo um segundo lar da banda, natural de Nova Odessa, próxima a Campinas.  Às quinze pras 21h, Renan, Pop Black e o Dj Duh subiram ao palco do Parque Vitória Régia pra fazer muito barulho e colocar o volumoso público
 em êxtase com a pulsante apresentação.

Com um estilo agressivo, o grupo soltou logo a primeira pedrada da noite com o som Póesia, composição batida pesada, misturando rock e poesia. Seguindo pela mesma estrada, a próxima parada ficou por conta de “Cidade sem Cor”, onde Renan critica a era digital, industrializada e individualista, de nosso mundo moderno. Na sequência, brincando com as palavras, como bom poeta, a canção Mister M, do penúltimo álbum “Mudança”, traz apenas palavras iniciadas com a letra M.

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Na primeira pausa do show, o vocalista e doutor em geografia abriu o baú da memória e trouxe uma curiosidade que aprofunda a proximidade da banda com a Cidade Sem Limites. Em tom de agradecimento, Renan lembrou da banda bauruense “Desacato Verbal”, que, em 1993, seis anos antes da criação do Inquérito, gravou o primeiro disco de rap fora da capital São Paulo. Ele lembrou ainda que o grupo contava inclusive com o DJ Ding, atual referência da discotecagem na região.

Pra não perder a pegada, o hit “Versos Vegetarianos”, produzido em parceria com Arnaldo Antunes, colocou a multidão pra cantar e acompanhar os versos que criticam a miséria, a educação e a mídia, entre outros assuntos. Logo depois, pra lembrar que Inquérito já é de casa, a música Carrossel enfatizou, não importando de onde vem e nem pra onde vai, a necessidade de manter as portas abertas pra poder voltar.

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O que certamente não podem voltar foram algumas lágrimas derramadas com a música “Meu Super Herói”, que aborda a transformação do herói, dos brinquedos infantis na saudade dos pais. Pra continuar no clima nostálgico, o sample de Cássia Eller em “Eu Só Peço a Deus” fala sobre guerras e desigualdades no país cordial, onde “quem não tem sangue de preto nas veias, deve ter nas mãos”.

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Luiza Romão

Em nova pausa para água e algumas palavras, Renan destacou a importância da participação igualitária da mulher no hip hop e na sociedade. A fala ganhou aplausos de Sara Donato, rapper são carlense, autora de letras que visam o empoderamento feminino: “É importante esse discurso posicionado até mesmo para incentivar outros caras a darem atenção e voz para as mulheres no movimento”. Mas nada mais representativo do que uma mulher subir ao palco naquele momento, quando a poetisa Luiza Romão assumiu a responsa e foi aclamada com fervor após recitar uma de suas fortes letras.

Outra participação especial ficou por conta de Rapadura, com a música Dívida Interna. O RAPentista cearense também foi uma das atrações deste domingo da V Semana do Hip Hop de Bauru e já havia levado o público a loucura com a mistura entre o rap e gêneros nordestinos, como o baião e o xaxado.

O último convidado não poderia ser mais que especial: Coruja BC1, sob muitos aplausos, subiu ao palco e se uniu a Renan para cantar “Se Liga”. O bauruense se disse honrado pela participação e lembrou da importância da presença desses ícones do gênero na cidade: “Em uma cidade que vem se tornando referência no hip hop nacional, como Bauru, trazer um artista como o Renan ou o Thaíde, que são alicerces da nossa cultura, é muito importante pra educação da nova molecada que tá chegando agora”, afirma Coruja.

Atendendo a pedidos, Renan afirmou que não poderia mais uma vez ir embora daqui sem mandar uma música pedida, então “Som pra Ladrão”, do terceiro disco da banda, entusiasmou fãs mais antigos da banda. 

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Destaque especial da noite, o backing vocal Pop Black chamou a atenção com um solo mesclado de técnica e resistência antes de pedir ao público para cantarolar o início de um dos maiores sucessos da banda: a música “Sonhos”, que contém trechos do mais famoso discurso de Martin Luther King e versos do poeta Sergio Vaz.

Por fim, a música “Corpo e Alma”, que também nomeia o quarto e mais recente álbum do grupo, encerrou com chave de ouro mais uma participação do Inquérito em uma Semana de Hip Hop da cidade.

Após o show, Renan destacou a íntima ligação que vem sendo construída na parceria com a cidade: “Cara, acho que não é coincidência o Inquérito ter vindo aqui várias vezes. Eu acho que é uma questão de identificação, reflexo do nosso trabalho e da organização dessa Semana do Hip Hop. Bauru tá de parabéns, pois isso aqui é um espelho pra todo o Brasil e espero voltar sempre, pois me sinto muito em casa por aqui. Tamo junto, de corpo e alma!”.

 

III Semana Municipal de Hip Hop de Bauru: evento entra no calendário oficial da cidade

Terceira edição conta com nomes como GOG, Thaíde, Sombra e Projota

por Revista Rap Nacional*

Já consagrada como um dos maiores eventos culturais de Bauru, a Semana Municipal de Hip Hop chega à sua terceira edição mais forte que nunca. De 9 a 17 de novembro, o festival vai ocupar diversas áreas da cidade com shows de rap, exposições de graffiti, batalhas de breaking, sessões de cinema, oficinas, debates e ações educacionais.

É a primeira vez em que a Semana acontece como parte integrante do Calendário Oficial de Eventos da cidade, instituída pela Lei 6358, de 24 de maio de 2013. O reconhecimento do poder público trouxe novas dimensões ao festival, que este ano conta com quatro nomes de peso do rap nacional em sua programação. Thaíde, GOG, Sombra e Projota são shows confirmados, respectivamente, para os dias 9, 10, 16 e 17.

A agenda de shows inclui também artistas e grupos que fazem sucesso no cenário local do movimento. A escalação de bauruenses para a Semana conta com AlemDaRima, DJ Ding, D’Bronx, JotaF, BetinMC, Abanka, Dois1Dois, Thigor MC, Ment Blindada, Bandidos em Harmonia, Tiago Vurto, D’Quebra, Dom Black, RapNobre MC e Coruja BC1, menino prodígio que vem conquistando reconhecimento no circuito nacional desde o ano passado.

 

Palco “Interior tem voz”. Buscando valorizar a rica produção do Hip Hop além dos holofotes das grandes cidades, o festival realiza no feriado do dia 15 uma sequência de shows trazidos de diferentes cidades do interior paulista. Ao longo de toda a tarde, a praça pública do Parque Santa Edwiges recebe apresentações de Veneno H2 (Franca), Ramonstro (Barretos), Lheo Zotto (Ribeirão Preto), Sintonia Sonora (Barra Bonita), Daniel Garnet e Pqnoh (Piracicaba), Revolução LDE (Marília) e Prodígios (Jaú).

Lugar de mulher é no palco. Tendo entre seus organizadores a Frente Feminina de Hip Hop da cidade, a Semana não poderia deixar de ter atrações que representassem a força das mulheres no movimento. Duas MCs têm presença confirmada no evento: a são-carlense Sara Donato, que canta no Sambódromo no dia 10, e a paulistana Tábata Alves, escalada para o encerramento no Parque Vitória Régia, no dia 17. Além delas, a b.girl Aline Afrobreak vem da capital para ministrar uma oficina de breaking para meninas no dia 14, no Centro Cultural.

Hip Hop no currículo. Consciente do papel do Hip Hop como ferramenta de formação, a Semana tem como uma das suas principais características a realização de atividades educativas e conscientizadoras. Serão oficinas, debates e outras ações, com o objetivo de incentivar a reflexão e circular informação entre o público do evento.

Seis dos nove dias de festival contam com oficinas, dedicadas a oferecer informações básicas a quem gostaria de atuar em diversas vertentes do movimento. Haverá aulas gratuitas sobre produção de vídeos, graffiti, breaking e criação de beats. Já os debates e as rodas de bate-papo abordarão temas que vão da discriminação de camadas sociais desfavorecidas à presença da mulher no Hip Hop.

Henrique Tomas no Combo 5 Elementos

Além disso, a terceira edição da Semana tem como novidade a realização dos chamados “Combos dos Cinco Elementos” em escolas públicas de Bauru, levando bate-papos e apresentações aos alunos. Ao todo, oito escolas receberão os Combos, que acontecem nos dias 11, 12, 13 e 14.

 

Construção colaborativa. A 3ª Semana Municipal de Hip Hop é uma realização do Ponto de Cultura Acesso Hip Hop e da Prefeitura Municipal, em parceria com Frente Feminina de Hip Hop de Bauru, CurtaBauru, Casa Fora do Eixo Bauru, Wise Madness, Frente de Hip Hop do Interior Paulista, Rede Nacional das Casas de Hip Hop, Bauru Breakers Crew, Oficina Cultural Glauco Pinto de Moraes e Secretaria de Estado da Cultura. A iniciativa conta com o apoio de Caritas Diocesana, Conselho Regional de Psicologia, Rádio Unesp FM e Madiba Shop e Projeto Colorindo o Interior.

 

Flyer da III Semana Municipal de Hip Hop de Bauru
Flyer da III Semana Municipal de Hip Hop de Bauru

 

*publicado originalmente em 7/11/2013