Duas mulheres e uma só voz

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A participação do grupo Rimação na V Semana do Hip Hop mostrou que, assim como o interior, as minas também tem voz

Por: Gabriela Martinez

Fotos: Rebeca Farinelli

O último sábado da V Semana do Hip Hop aconteceu no Vitória Régia. Enquanto rolava a Primeira Feira de Economia Solidária do Hip Hop do Estado de São Paulo no gramado central, o Rap Nacional tomou conta do palco Interior Tem Voz.

Por ali já haviam passado Bruno Bl, Dois1dois e Negra Lud quando chegaram as minas do Rimação.

Com músicas que refletem a luta da mulher brasileira para conquistar seu espaço, o grupo Rimação mandou o recado e recebeu de volta fortes aplausos da galera que, aos poucos, lotava as arquibancadas.

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Marcia e Camila são de Mauá-SP, juntas vieram pela primeira vez para a Semana do Hip Hop, já Camila esteve na edição anterior do evento em Parceria com as MC’s Issa Paz e Sara Donato e comenta que é muito importante a união que um evento como esse promove entre cidades e até estados.

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O Rimação, que significa a junção das palavras “rima” e “ação”, existe nesta formação desde 2012, porém a caminhada das duas no movimento Hip Hop é bem mais antiga. Marcia e Camila são MC’s há aproximadamente dez anos e participaram de outros grupos antes de consolidarem o Rimação.

Com um videoclipe gravado, o grupo lança ainda este ano o primeiro CD com o nome “Maria da Penha”, título de uma das músicas que compõem o CD. Com 12 faixas, o CD vem como a realização de um sonho e o início de outro, pois as duas já estão pensando no próximo CD, “talvez intitulado Carolina Maria de Jesus”, como comenta Marcia.

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Quem diz que mina não pode ser Sensei? Com a palavra, Drik Barbosa

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Texto: Thamires Motta
Fotos: Lucas Rodrigues Alves da Silva e Felipe Amaral

Drik Barbosa: em algum momento, você já ouviu falar esse nome. A MC começou nas rodas de freestyle da Batalha do Santa Cruz, em São Paulo, e logo começou a ser reconhecida pela voz inconfundível e pelo talento no free. Já teve participações nos discos de Marcello Gugu, DJ Caique, Novato e mais recentemente na faixa “Mandume”, de Emicida. Convidada pelo rapper para dividir o palco em Bauru, ela cantou o single e entoou vários refrões durante o show.

Arrepiando em “Mandume”, Drik leva feminismo e mais voz para as mulheres negras nos seus versos. Ela acredita que o próprio Rap já tinha dificuldades em alcançar visibilidade, mas que elas estão chegando cada vez mais longe, já que as portas foram abertas pelas mulheres que batiam de frente. “Quero que a gente possa falar do que a gente quer, não só falar de violência e preconceito, que é extremamente importante, mas que a gente passe nossa visão sobre amor, felicidade, sobre rolê. Que não fique só essa perspectiva do homem”, explica a rapper.

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Para ela, a maior importância da Semana do Hip Hop está em alcançar as pessoas e mostrar o poder da cultura. “É importante trocar uma ideia legal cara a cara com as pessoas, não ser só essa parada de internet”, conta. “Tem muita gente que fala que falta mais show aqui, principalmente de mina, mas é uma coisa que vai chegar”, acredita a MC.

Para o próximo ano, Drik Barbosa está envolvida em dois projetos, e planeja o lançamento de um EP. “Espero pode lançar uns singles antes, uns acústicos. Em 2016 a gente vai chegar bolada”, afirma. E nós esperaremos ansiosos.

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1° Fórum Municipal do Hip Hop: a expressão da periferia ainda tem sua essência original?

Militância no movimento e retorno à comunidade são alguns dos assuntos discutidos no evento que reúne rappers, MCs e grafiteiros de Bauru

Por Bibiana Garrido, para Portal Participi*

Foto: Bibiana Garrido
Foto: Bibiana Garrido

As cadeiras que estavam primeiramente colocadas em fileiras na sala logo deram lugar a uma grande roda de conversa, organizada pelos próprios participantes do 1° Fórum Municipal do Hip Hop de Bauru. Reviver o antigo para entender o atual. Esse foi o centro da discussão entre os já veteranos do rap, do grafite, do break, da pixação e toda a atividade de protesto cultural na cidade, e também os iniciantes no caminho do hip hop bauruense.

Cada um dos presentes, os integrantes da mesa, teve o hip hop como uma mãe. Um meio de superação das dificuldades que – para quem nunca viveu na periferia – parecem algo distante, algo que infelizmente acontece. É, acontece. Onde não tem oportunidade tem crime, tem tráfico, tem violência e tem a válvula de escape. A arte, a música, a dança. Tudo se junta numa coisa só que é o sentimento e o viver do hip hop.

“Eu sei da onde eu vim, eu sei a que classe eu pertenço. Sei o que barra o hip hop na sociedade e o que a gente tem pela frente”, desabafa Renato, o “RapNobre”. São vinte e cinco anos na luta pela valorização do hip hop aqui em Bauru, e desde aquela época são organizados campeonatos, batalha de MCs, a união dos grupos começou como uma família.  De acordo com os manos presentes na roda, hoje existe um divisor de águas no rap. “Tudo que tá em atividade tem tendência há mudança. O rap agora começa a sair dos lugares tradicionais e aparecer na mídia, televisão, novela. E começaram a misturar música eletrônica, com rock, com samba, o que dividiu as águas entre um rap da modinha e um rap da velha escola”.

Foto: Bibiana Garrido
Foto: Bibiana Garrido

A questão do protesto, de mostrar a violência através da música, muitas vezes não marca presença em estilos de rap que vão surgindo tanto no Brasil quanto no exterior. Ao decorrer da conversa fica a lição de aprender a somar ao invés de dividir o movimento. “A gente tem que respeitar todo o tipo de rap que tá por aí, tem público para todo mundo”, defende André, participante do Fórum e também da cena cultural do hip hop na cidade.

Com cada vez mais visibilidade nos meios convencionais de informação, o hip hop tenta se ater ao compromisso original da arte, transmitir a mensagem da periferia, a realidade que é escondida por essa mesma mídia. “As grandes mídias são uma coisa que não tem nada a ver com o que a gente representa”, orgulha-se Renato. Pode-se dizer que o saldo do 1° Fórum Municipal de Hip Hop é retomar e relembrar o porquê dessa cultura estar aí, nas ruas, nas rádios, na cidade como um todo. É “plantando a sementinha” do questionamento, como diz um dos integrantes da roda no meio da discussão, da essência humilde e de união, de lembrar o que é o hip hop, que essa cultura vai poder se expandir e ser entendida tal como é por um público cada vez maior. Tendo batida eletrônica ou não, na galeria ou na rua, a mensagem política e a essência vão estar sempre presentes no que é a cultura de periferia de verdade. Como diz Edson, abraçado a seu pequeno filho Ian, “o hip hop não é só chegar e subir num palco. Tem que ter uma consciência e postura, não é só martelar os outros”.

*publicado originalmente em 9/11/2014, para Portal Participi 

O hip hop em cores

Semana do hip hop abre com encontro de grafiteiros e pintura em painel no Sesc

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Por Paula Monezzi

A Semana do Hip Hop de Bauru teve início neste sábado com o Live Paint Graffiti, um encontro de grafiteiros que rendeu um painel dos artistas Sérgio Campos e Cláudio (Nego DM), dupla da Comics Crew, Robinho BlackStar, Everaldo Luiz(Evera) e L7M.

O encontro rolou no Sesc, das 13h às 18h e para quem passou por lá, a cara era de surpresa. Os tons de cinza do muro do Sesc foram substituídos pelo painel cheio de cores vibrantes e traços diferentes trazidos pelos artistas.

A CasaH2Bauru entrevistou Robinho BlackStar, um dos artistas do encontro e coordenador de arte do Ponto de Cultura Acesso Hip Hop.

CasaH2Bauru: Como você se iniciou na arte e no graffiti?

Robinho BlackStar: Eu sou formado em artes plásticas e designer e trabalho com o hip hop no Ponto de Cultura há uns oito anos já. Trabalho com todas as artes, fotos, imagens do Acesso Hip Hop e graças ao graffiti nós conquistamos muitas coisas.

CasaH2Bauru: Quando você desenha, você não traz um caderno com esboços, como é isso?

Robinho BlackStar: Eu procuro trabalhar com adaptação de ambiente. Como é um evento, eu procuro usar muitas cores, para chamar a atenção e, a partir da reação do público, eu desenvolvo a arte. Os desenhos já estão definidos na cabeça e eu só vou jogando na parede só. Eu acho que isso é um pouco de treino. Alguns preferem trazer cadernos. Eu desenho o dia todo, então eu já tenho tudo bem definido na cabeça. A arte já está dentro de mim.

CasaH2Bauru: Que outras áreas do hip hop você trabalha?

Robinho BlackStar: Fora o graffiti, eu sou especializado em estampas de camiseta. Desenhamos para marcas famosas, urbanas street. Então eu passo mesmo o dia desenhando. (risos)

CasaH2Bauru: O desenho é mesmo a sua área. Como você se descobriu nisso?

Robinho BlackStar: Eu desenho desde os 9 anos de idade. Eu fiz um curso lá no Centro Cultural, no Teatro Municipal e o professor, que também chamava Robinson – hoje ele é desenhista da Marvel – ele achou que eu tinha uma aptidão muito boa para desenhar Homem Aranha. Nessa época eu tinha 9 anos e eu fui para São Paulo concorrer a um prêmio de HQ e ganhei. Logo depois eu conheci um cara que foi muito importante na minha vida na parte do hip hop, que foi o Casca – hoje já falecido – e foi ele que deu o primeiro caderninho e disse “cara, você desenha bastante, porque você não faz um graffiti?”. E eu comecei a estudar, pesquisar. No começo a gente pagava para fazer o graffiti: tinha que comprar tinta, pedir pra pessoa deixar a gente fazer na parede. Aí eu conheci o Magú, conheci o pessoal; o Magú já é uma amizade de uns 10 anos…e estamos aqui hoje.

CasaH2Bauru: E o que você diria do cenário do hip hop de Bauru?

Robinho BlackStar: Hoje o cenário de hip hop daqui de Bauru é espetacular. Temos o nosso nível de aprendizagem e evolução compatível com o de uma capital. Não são todos os lugares que conseguem fazer uma Semana do Hip Hop, com a diversidade de eventos que estamos tendo aqui.E isso, perto do que era há 10 anos atrás, é extraordinário. Sem contar que hoje o movimento é bem mais aberto; antes era bem mais segregado.

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*publicado originalmente em 9/11/2014, para Portal Participi