JotaF comemora 10 anos de carreira no palco da Semana do Hip Hop

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Em clima de celebração, o rapper bauruense fez do palco da V Semana do Hip Hop a sua casa e do público, sua família

Por Gabriela Martinez e Keytyane Medeiros
Fotos: Emanuella Quinalha

No último domingo, 8 de novembro, aconteceu a abertura cultural da V Semana do Hip Hop de Bauru. Pelo palco passaram artistas como Brisa Flow, Issa Paz, o grupo de maracatu Abayomi, Além da Rima, Rapadura, Inquérito, Thaíde e uma das pratas da casa, JotaF.

Ele subiu no palco como se estivesse em casa, vestido de uma energia tão positiva que ele e o público se tornaram uma coisa só. JotaF cantou músicas novas do seu próximo disco, como “No Tom” que teve participação especial do beatmaker Felipe Pezutti. Antes da música Africatividade, que fala da resistência histórica negra, JotaF parafraseou o rapper Renan Inquérito, que subiria no palco depois dele: “como diria meu mano Renan, resistência é mais que peça de chuveiro”.  Dono de um repertório que evidencia sua militância, o rapper ousou passear por outros estilos e agitou a galera quando mandou a “queridinha” “Saber Chegar”, que produziu com participação da Adriane Santana, vocalista da Banda bauruense Move Over, música que chegou ao TOP 50 das músicas mais tocadas nas principais rádios do estado de São Paulo, entre elas a Rádio 94FM. Eleita a música mais pedida do verão 2015 no Litoral Norte pela Rádio Beira Mar FM de Ubatuba/SP. O videoclipe do single ultrapassou a marca das 10.000 visualizações no Youtube.

Esta não é primeira vez que JotaF participa do palco da Semana do Hip Hop. Presente desde a segunda edição, Jota também é um dos organizadores do evento, participando das atividades de formação como o Combo 5 Elementos e organização de palco e artistas. Para ele, é muito significativo ocupar um lugar na agenda de shows depois de construir o festival ao longo do ano. “A militância pela cultura Hip Hop veio há uns 5 anos atrás. Me convidei para participar e fui bem acolhido pelo Ponto de Cultura Acesso Hip Hop, que é minha escola de Hip Hop, de cultura e informação. É uma honra fazer parte disso”, afirma. O rapper comentou ainda, de forma ímpar, que a Semana do Hip Hop enriquece a cidade de Bauru não apenas culturalmente: “A Semana do Hip Hop de Bauru faz com que tudo de positivo ao redor dela cresça e se desenvolva. As pessoas se tornam humanamente melhores, os lugares por onde a Semana passa são transformados positivamente, seja através da poesia, da música ou das cores.”

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Abanka Forte

 

Em 2015 JotaF completa 10 anos de carreira como MC. Natural de São Paulo se mudou para Bauru ainda na infância e durante a adolescência, se tornou skatista local na Praça da Paz. Em 2005 o artista participava no grupo Versos com o beatmaker Felipe Canela: “Éramos o Versos, ainda somos, e retornaremos em breve”, comenta JotaF. De lá para cá, JotaF já participou do coletivo “Epicentro” e seguiu carreira solo. Há dois anos lançou sua primeira mixtape “Direto ao Assunto” com participações especiais de Coruja BC1 e Felipe Canela.

JotaF lançou em 2012 a minissérie “DOP” (Desenvolvendo O Pensamento). Composta por 5 capítulos, o rapper aborda diferentes temas em forma poética pra estimular e desenvolver a reflexão e o debate entre os telespectadores.

Os videoclipes, “Direto Ao Assunto Mixtape”, a minissérie “DOP”, os singles e todo conteúdo podem ser apreciados através do canal oficial no Youtube.

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O ano de 2014 foi marcado por alguns lançamentos que antecedem a chegada do próximo disco do rapper as ruas. Singles como “Pro Seu Dia Ser Melhor”, “Vileragem”, “Agora Eu Fui” e “Saber Chegar” fazem parte do repertório do novo trabalho do JotaF, que concilia sua carreira com a militância pela cultura Hip Hop na cidade de Bauru através do Ponto de Cultura Acesso Hip Hop.

No primeiro semestre de 2015 mais novidades chegaram as ruas, como o model de shapes e a linha de camisetas assinada por JotaF em collab com a Black Thing Skates. JotaF se apresentou no “One Take”, projeto audiovisual produzido pela gravadora Valetes Records. Mais um lançamento foi apresentado ao público, “No Tom”, música que integra o repertório do seu próximo disco.

No segundo semestre, JotaF foi selecionado para participar do Festival Reviva Rap, um dos principais festivais do gênero no país. Divido em três etapas, nas cidades de Jacareí, Santos e Piracicaba (onde esteve JotaF). O evento contou com mais de cem artistas inscritos (e depois, dez para cada município-sede). Os três primeiros colocados de cada etapa, além de prêmios, são convidados a participar da Coletânea Reviva Rap. Na 6ª edição do festival, o rapper bauruense se classificou em 2º lugar, sendo assim, JotaF também integra a coletânea com a música “Africatividade”. Em outubro de 2015 o rapper participou do show de lançamento da coletânea, realizado no bairro de Perus em São Paulo.

 

Tássia Reis leva o público ao delírio com carisma, breaking e muito Rapjazz

 

Tássia Reis
Tássia Reis

Pela primeira vez em Bauru, a rapper esbanjou talento com suas músicas e passos de dança

Por Thamires Motta
Fotos: Felipe Amaral, Lucas Rodrigues e Mariana Caires

A rapper Tássia Reis, que se iniciou no movimento Hip Hop por meio da dança, começou ensaiando alguns passos logo no início do show no último dia 11 de novembro. Com o Espaço de Convivência lotado no SESC, o público pôde curtir as faixas principais do EP “Tássia Reis”, que a cantora lançou no ano passado.

Misturando blues, soul, reggae e jazz, influências que recebeu desde criança, e inspirada por grandes nomes como Etta James, Sarah Vaughan, Nina Simone e Aretha Franklin, Tássia Reis consegue juntar com maestria o ritmo envolvente das suas inspirações com as rimas rápidas, certeiras, pesadas e politizadas, talento que desenvolve desde 2005.

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Numa releitura de Erykah Badu, a primeira música trouxe a voz de Tássia nos beats da cantora estadunidense, sem deixar absolutamente nada a desejar entre a musicalidade e a afinação das duas. Num show entusiasmado e animado, o público acompanhou a cantora nos refrões, admirados com a voz aveludada que Tássia intercala entre rimas, misturando saxofones e notas de piano em beats e scratches do DJ.

Sob o beat de Notorious B.I.G, a MC apresentou algumas músicas de fora do EP. Bauru teve a honra de escutar pela primeira vez em um show o recém-lançado “Ouça-me”, faixa da série “Make Noise”, em colaboração com o produtor Arthur Joly, que cria sintetizadores. Emocionada, Tássia mandou a letra que fala sobre empoderamento feminino, a luta contra o racismo e a vontade de ser escutada. Aproveitou o espaço para expressar a felicidade em ver as mulheres negras se fortalecendo dentro e fora do movimento Hip Hop, e convidou a também rapper Sara Donato a subir no palco e mandar uma letra. Inspirada pelo momento, Sara cantou “Peso na Mente”, em que critica o preconceito, o machismo e os padrões de beleza a que mulheres são submetidas.

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Tássia Reis e Sara Donato

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A euforia do público veio depois das faixas “Asas”, “No seu Radinho” e “Meu Rapjazz”. Tássia soltou um beat e começou canções fortemente inspiradas no soul de Tim Maia e Erykah Badu, ao que o público respondeu abrindo uma roda de break dance bem em frente ao palco. A plateia chegou ao delírio quando a B-girl Ana Gabriela Rodrigues chegou mandando seus movimentos, inspirando até a própria Tássia a descer e demonstrar toda sua habilidade na dança.

Num show inesquecível para a cidade de Bauru e para a Semana do Hip Hop, a rapper prometeu voltar em breve ao interior paulista, trazendo cada vez mais seu talento e todo o seu Rapjazz.

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Freestyle, Luiz Gonzaga e encerramento a capela no meio do povo marcam o show frenético de Rapadura

IMG_0387Artista leva público ao delírio em sua apresentação marcada por originalidade e carisma na V Semana do Hip Hop de Bauru

Por Lucas Zanetti
Fotos: Lucas Rodrigues e Felipe Moreno

A diversidade de apresentações na abertura da V Semana Municipal do Hip Hop de Bauru foi consagrada pela apresentação do músico cearense Rapadura Xique-Chico. O carisma e a presença de palco do artista, em conjunto com a extrema valorização das raízes negra e indígena do povo brasileiro, sem dúvida vão ficar guardados por muito tempo na cabeça de quem esteve presente no parque Vitória Régia no último domingo, 8 de novembro.

Na levada rítmica da sanfona nordestina, ao som do mestre Luiz Gonzaga, a apresentação de Rapadura contou também com freestyle, idioma indígena e não foi finalizada no palco! Terminou lá em baixo, na catarse do público que cantava junto com ele a capela. No palco e fora dele, o artista deu uma verdadeira aula de humildade, originalidade e de cultura brasileira.

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Rapadura com meninas do Abayomi

“O maracatu e a cultura é o que vem naturalmente e a gente se identifica só de olhar no olho, de dar um abraço”

Antes de sua performance, o artista havia se apresentado com Abayomi, grupo bauruense de maracatu, que rendeu comoção de algumas integrantes do grupo. ”Meu olho encheu d’água porque eu vi as minas ali tocando e elas estavam chorando. Foi uma coisa muito bonita. O maracatu e a cultura é o que vem naturalmente e a gente se identifica só de olhar no olho, de dar um abraço”, diz Rapadura sobre o momento. Depois, retornou aos palcos novamente em parceria com o Inquérito.

Há três dias sem dormir direito, Rapadura fez muito barulho no Vitória Régia, levando o público ao delírio ao lado de seu DJ oficial, Rodrigo RM, que tem 13 anos de carreira e acumula 18 prêmios. Em 2008 RM ficou entre os 10 melhores DJs do mundo quando ganhou o prêmio ”DCM BRASIL”. Sua apresentação na abertura da Semana levou o povo ao delírio e foi digna de sua grandeza.

A mistura do rap com o repente. Rapadura é um artista de vanguarda. Seu som mistura elementos do rap com o repente, o maracatu, o coco, o forró e o baião típicos da cultura nordestina. ”Estes dois movimentos estão concentrados dentro de mim, então eu só jogo para fora o que tem aqui dentro”, conta o artista.

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Para ele, os ritmos convergem em diversos aspectos, o que torna esta mistura bem natural. ”O discurso é o mesmo, é contra o preconceito, é contra o racismo é a favor de melhorias para o povo então tem tudo a ver o rap com o repente”, explica. Toda esta complexidade rendeu a ele o Prêmio Hutúz 2009 como melhor artista Norte/Nordeste.

Apesar das diferenças, o rapper vê muitas semelhanças entre a cultura nordestina e a do interior paulista. ”As pessoas do interior daqui são parecidas com o interior de lá no acolhimento, no sorriso, no abraço, no carinho. Hoje eu recebi muito calor humano. Eu vejo que o nordeste está aqui e aqui está no nordeste”, opina.

“A gente vive em um país que não tem como dizer que é branco. Nosso país é negro, é indígena. Só que a gente se vê pouco nas representações”

O povo brasileiro não é branco. Um dos principais elementos da apresentação de Rapadura foi a valorização do povo negro e indígena brasileiro, que estão marcadas em nossos traços físicos e culturais. ”A gente vive em um país que não tem como dizer que é branco. Nosso país é negro, é indígena. Só que a gente se vê pouco nas representações. Desde quando eu aprendi o que é Hip Hop eu aprendi que existe um compromisso social”, comenta.

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A transformação do Hip Hop. Rapadura acredita que o novo sempre é bem vindo, desde que contribua de maneira positiva para o movimento. Ele critica os artistas que se utilizam da cultura Hip Hop sem saber o seu real significado e importância. ”O movimento tá crescendo bastante, mas eu vejo um lado que tá crescendo sem o conhecimento do Hip Hop. A galera chega, mas não sabe como começou isso, da onde veio, quem foram os precursores. Quantas pessoas apanharam para você poder usar um boné na cabeça hoje, quantas pessoas apanharam para você poder subir no palco e poder ter liberdade de expressão”, critica.

Ele acredita que os antigos e os novos devem trabalhar em conjunto para o progresso positivo do movimento. ”Nós mais antigos também temos a responsabilidade de chegar na molecada e trocar uma ideia”, completa.

 

 

Pesando na ideia: AlemdaRima tocando em casa e tirando onda

alemdarimaAbertura cultural da V Semana do Hip Hop trouxe artistas de peso e pratas da casa

Por Lucas Mendes
Fotos: Lucas Rodrigues

De tudo um pouco e um pouco de tudo. Quem colou no Parque Vitória Régia nesse domingo pôde aproveitar boa parte do melhor do rap nacional. O rolê foi o terceiro dia de atividades da V Semana Municipal do Hip Hop, considerado a abertura cultural do evento. Com artistas da cidade e convidados de fora, as atrações se estenderam até o final da noite, com as pedradas de Rapadura, Inquérito e Thaíde.

No começo da tarde, quem tomou conta do palco foi muita mina zica com rimas pesadas contra o machismo e as opressões da mulher, seguidas logo depois pelo show do AlemdaRima, grupo formado por Henrique Thomas e Allisson Ferreira. A dupla é da Casa, e eles já desenvolvem um trabalho com o Hip Hop há muito tempo. No show, eles foram acompanhados pelo DJ Ding, deejay residente da Casa do Hip Hop de Bauru.

“Pra nós aqui é tocar em casa, mano, e tirar uma onda. Aqui é tocar à vontade, nem dá pra sentir a pressão de tocar no palco do Vitória, pra nós é bem tranquilo, já não é a primeira vez, então é gostoso porque é um lugar que marca a cidade, que o pessoal se encontra aqui, e pra gente é mó daora de fazer parte”. É o que diz Henrique, logo depois da apresentação no palco do Vitória Régia.

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O grupo já há cinco anos vem propagando seu trabalho com o Hip Hop bauruense, a partir da formação que essa cultura possibilita. A presença nas edições anteriores da Semana também foi fundamental, como destaca Allisson. “Pra nós é uma satisfação imensa. A gente participou já da segunda edição em diante, e pra nós é muito louco ver tudo isso acontecendo, ver todo mundo que trampou o ano inteiro e o tanto de público que a gente alcançou… e esse é só o terceiro dia da Semana”.

Nova e Velha Escola. Apesar de recente, o trabalho da dupla já causou muito barulho. Prova disso é a sua participação garantida nas edições da Semana, além de terem dado o “pontapé inicial” nesta quinta edição do evento, abrindo as atividades lá na Estação Ferroviária, na última sexta-feira.

“Isso tudo é da gente, mas é também porque já tinha gente mais velha aqui, uma velha escola em Bauru estruturada e aberta para o novo”, reconhece Henrique. “Então a gente chegou e eles falaram ‘vem, vamo fazer assim’, e não teve café-com-leite, a gente chegou já brincando sério”, completa.

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Além das rimas e do trabalho em cima do palco, os caras participam da própria organização dos eventos. Como relembra Henrique, “todas as Semanas a gente tava envolvido com a produção, não só com o palco. O palco na verdade é só o fim do negócio”, diz ele. “A gente tá participando, vai na reunião. Tem projeto que só a gente desenvolveu na Semana, a gente que faz. Pra nós a Semana foi quem amadureceu a gente, porque a gente não teve tempo de brincar, foi chegar e fazer de verdade”, emenda.

Hip Hop de casa nova. Com a recente inauguração da Casa da Cultura Hip Hop, em agosto, novas oportunidades surgiram pra população bauruense e para a transmissão do legado da cultura Hip Hop. “Abrange um novo pessoal né?”, diz Allisson. “Tem muita gente que tem preconceito com o Hip Hop, por ele ser da rua, mas é tão influente na cidade que não tem como a pessoa falar mais nada”, completa.

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Pra ele, a oportunidade de um local próprio vai desenvolver melhor a cultura. “Essas oficinas vão chamar mais um público pra esse local, e só tem a ganhar a Casa do Hip Hop de Bauru. Porque o que a gente quer é construir mais e mais e deixar o bagulho o maior possível”, finaliza ele.

“A Semana ainda vai mexer com muita gente, ainda vai ter muita emoção, muita coisa louca. Ainda tá no começo e já foram coisas maravilhosas. Tá muito legal e a gente espera que seja um sucesso, tem muita gente trampando empenhada em fazer com carinho, fazer bem feito, quem tá vindo agora, não vai deixar de vir no próximo, quem não veio vai ouvir falar e vai querer vir. Então só tende a alcançar mais, ainda tá no começo e já tá desse jeito”, prevê Henrique.

AlemdaRima, muito além do show


Por Mariana Lacava
Fotos: Lucas Rodrigues e Felipe Amaral

AlemdaRima, DJ Ding e DJ Shinpa abrem a V Semana do Hip Hop com muito rap nacional de qualidade, mostrando a forma que o interior paulista tem e o quão influente é a música que sai da nossa cidade.

DJ Ding, residente da Casa do Hip Hop de Bauru e um dos produtores culturais essenciais na cidade permanceu ao lado de DJ Shinpa, atual vice-campeão do DMC Brasil, um dos maiores campeonatos de DJ do mundo. Ambos prestigiaram a abertura da Semana do Hip Hop 2015 lá na Estação, tocando muitos clássicos e inovações autorais. 

O grupo AlemdaRima conta com os integrantes Henrique Thomas e Allisson Ferreira, que há cinco anos desenvolve trabalhos em Bauru por meio da cultura Hip Hop na cidade. Ainda muito jovens, acreditam que todo esse processo evolutivo no movimento social cultural se deu por conta da formação e da militância que as edições anteriores da Semana do Hip Hop proporcionaram através de oficinas, debates e worskshops.

Henrique e Alisson começaram no Hip Hop por causa do amor e da habilidade com a musicalidade negra e as rimas. Sobre a Semana do Hip Hop, Henrique destaca que o festival deve um papel crucial na sua formação. “A gente aprendeu a ser militante, aprendemos sobre o que é a cultura de verdade, em suas raízes. Acompanhamos as outras edições desde o começo, brigamos pra virar lei, aprendemos como fazer, estávamos todos juntos brigando por isso. Participamos da construção da Semana desde as primeiras, de forma mais completa e nisso fomos nos desenvolvendo também como artistas, como grupo. As semanas do Hip Hop de Bauru são, pra nós, um grande marco em nossa carreira e em nossas vidas”, afirma.

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Allisson. Além da Rima.

Allisson complementa dizendo que aprendeu a trabalhar em conjunto e que isso o ajudou muito crescimento do grupo e pessoal. “Na nossa carreira a maior influência da Semana é o aprendizado, a experiência com palco, com produção de show essas paradas, bastidores…”

Formação. A Semana do Hip Hop de Bauru é um projeto que vem crescendo muito conforme os anos e nesta quinta edição apresenta uma forte programação de formação e militância por meio da cultura Hip Hop. Sobre a distância da capital e como isso influenciaria a produção musical, Henrique acredita que as influencias são positivas. “Não que influencie muito o conteúdo, mas acho que a distância é outro universo né, o interior é outro universo perto das grandes capitais. Por mais que a gente seja parecido não é a mesma coisa, então acaba que a gente desenvolve uma outra forma de fazer a parada, uma forma que realmente aborde nosso público daqui, que é diferente do público de lá.”

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“Num evento como a Semana, a gente agrega pessoas que não conheciam o movimento com pessoas que já conhecem, as pessoas que gostam e tem interesse, sabe? A gente mostra pra elas que existem pessoas que trabalham e que lutam pra desenvolver a cena”, afirma Henrique. A cena local é muito importante para a formação não só de público, mas principalmente de militantes e de jovens críticos, artistas, produtores. “Nossa cidade tem Hip Hop de qualidade, tem graffiti, tem DJ, tem MC e tem b.boy pra caramba”, afirma.

Realização pessoal. O show do AlemdaRima foi muito esperado pelo público e pelos jovens do grupo, por conta de todo o envolvimento desde a construção das primeiras Semanas até se apresentar no palco, hoje, cinco anos depois. Allisson pontua ainda que essa edição, por ser a maior até hoje, proporcionou pra eles um grande aprendizado e evolução pessoal e profissional.  “Foi ‘sem palavras’ abrir o palco dessa semana, como o próprio nome do nosso novo disco diz, ‘Abrindo a trilha’, conseguimos chegar com músicas novas e foi muito emocionante ver as pessoas cantando nossa música, foi um bagulho emocionante, ver que o Hip Hop esta realmente chegando a diversos pontos da cidade e não só da nossa cidade…”, sonha.

Vinão, convidado pelo Além da Rima
Vinão, convidado pelo Além da Rima

Hoje a missão foi “dar o primeiro toque na bola em final de copa do mundo”, segundo Henrique. “A questão de ter o maior ou menor palco, ou maior público, não é importante pra nós, não tem isso. A gente quer ajudar a construir e desenvolver a cena do nosso jeito, mas o nosso foco é o nosso pessoal, nosso público que é a nossa família. Foi muito emocionante e muito gratificante toda essa energia e movimento bonito que rolou hoje aqui… Nossa, é uma honra tremenda pra nós”.

Esse primeiro dia da V Semana do Hip Hop foi mesmo recheada de muito rap nacional com as apresentações dos grupos Renegados Mc’s e AlemdaRima, levando a galera ao máximo da emoção com muita música e energia do bem. A exposição de Graffiti “Quem é quem” também trouxe muita cultura aos nossos olhos, reunindo 10 artistas locais e regionais.

Renegados MCs
Renegados MCs

A batalha de MC levou ainda mais emoção para o público, fechando as atividades do primeiro dia da Semana do Hip Hop Bauru 2015.

E não para por aí! Hoje ainda tem Encontro de Graffiti no Viaduto da Nações Unidas,  Cortejo Hip Hop,  II Fórum Nacional de Hip Hop de Bauru e o Desfile de moda urbana “Favela Fashion Zic”.

Confira a programação completa no nosso site >> http://bit.ly/1MafXg3

Dexter na Semana do Hip Hop 2014: “Bauru, já sinto Saudades Mil”

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Foto: Felipe Moreno

Por Keytyane Medeiros, para Semana do Hip Hop 2014*

20h30 e ouve-se o Clic Clec reverberar pelo Sambódromo. A pista e as arquibancadas estavam lotadas de famílias, jovens e crianças. Bauru tremeu.

Dexter chegou na marra típica de um “mano que viveu, mas te diz (sic) que a pena não valeu”. No som pesado, recheado de histórias da prisão, amor pela liberdade e pela quebrada, Dexter destaca que é preciso manter a paz e prevalecer o amor, o carinho e o respeito em todas as festas de Rap e nas periferias do Brasil.

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Foto: Felipe Moreno e Lucas Rodrigues

Quando nos perguntou “Como vai seu mundo?”, o Oitavo Anjo lembrou do mundo dele, nos dizendo que tem parentes na cidade e que está em liberdade há 3 anos. Ao entoar, “Salve-se quem puder”, não esteve sozinho e a plateia, que sabia todas as músicas de cor, acompanhou o músico.

Como não poderia deixar de ser, um mestre que sempre menciona outros mestres, cantou “Jesus Chorou” dos Racionais MCs, adaptando os trechos do Capão Redondo à realidade bauruense. O show seguiu até que em “Sou função”, a arquibancada e toda a platéia estremeceram. Dexter, ao sair do palco cantou a bola, “Bauru, já sinto Saudades Mil”.

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Foto: Felipe Moreno

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

*publicado originalmente em 9/11/2014

Entrevista Exclusiva РGOG fala sobre SEPPIR e auto-gesṭo no Hip Hop

Foto: Lucas Rodrigues da Silva
Foto: Lucas Rodrigues da Silva

Entrevista por Keytyane Medeiros e Gabriela Martinez, para Semana do Hip Hop Bauru*

O rapper GOG, do Distrito Federal, se apresentou no encerramento da IV Semana Municipal do Hip Hop de Bauru, no último dia 16 de novembro e conversou um pouco com a equipe de comunicação do evento sobre Hip Hop, auto-gestão e sobre ser padrinho oficial do evento. A Semana do Hip Hop é uma realização do Ponto de Cultura Acesso Hip Hop e da Prefeitura Municipal de Bauru.

Em meio à turnê de shows, você conseguiu encaixar Bauru e a Semana do Hip Hop na sua agenda, inclusive apadrinhou o evento. Como é que foi isso?
Bom, na realidade tudo é um processo. Eu já conheço o Magú já faz um tempo, a gente tem um carinho e um respeito mútuo, e a Semana do Hip Hop é uma coisa que foi pensada, gestada. Na primeira impressão as pessoas pensam “pô, aconteceu”, mas teve toda uma história lá atrás pra que isso acontecesse. Como a gente conversou isso lá atrás, a gente pensava isso, então quando a Semana se personifica, a gente ta aqui não só na elaboração, mas pra conferir e participar também, no sentido de ver as coisas acontecerem e participar também. E Bauru é um eixo que a gente sempre passa, é um ponto de encontro, o povo gosta da gente, tem uma identificação, então agora receber o convite para ser o padrinho da Semana do Hip Hop, embora seja motivo de orgulho, também é natural diante do processo histórico.

GOG, você começou lá em 1996, com a sua gravadora “Só balanço”, com a idéia de auto-gestão no rap. Como você encara o movimento Hip Hop hoje, acredita que algo mudou com o tempo sob essa perspectiva?
Tem uma frase de uma música nova minha, chamada África Tática, e diz o seguinte: “não desviar na reta do fim das vozes do início”, ou seja, não valeria a pena se agora a gente desviasse totalmente do caminho, nos finalmentes, quando o Hip Hop toma essa gramatura, a gente mudar as pedras que alicerçam a nossa cena. É bem verdade também que muita coisa, se você não tiver o pensamento histórico aguçado e toda hora vendo o trajeto, você acaba se enganando porque vão pintando várias cenas no meio do caminho que parece que são verdades, mas não tem a força e o alicerce das pedras que nós colocamos lá atrás. Eu acredito muito na auto-gestão, pratico, enquanto a gente ta aqui conversando, tem uma lojinha rolando vendendo CDs, livro, camisetas e isso não só pela geração econômica, mas pela possibilidade de criar novas cenas, pela idéia de criar um território negro, periférico, que perambula, que dialoga com o estado negro. A gente sempre chega sem muito foco, numa cara de quem vai pedir ajuda, como quem quer negociar um favor, na auto-gestão não, lidamos de maneira profissional com o outro. Acho que o caminho do Hip Hop agora é se organizar no sentido de a cada lançamento vender 1 milhão de discos de cada artista nosso sem precisar ir na mídia convencional. É uma contradição, mas eu quero fortalecer as mídias comunitárias, os celulares, os blogs, as mídias independentes. As pessoas falam que a mídia televisiva e de revista é importante, mas o Racionais vendeu 1 milhão de discos quando tudo isso não era possível,antes da era digital, antes da internet. Nosso povo trafica, vende droga, você sabe que existe isso no nosso meio, mas a gente não consegue comercializar disco. Eu acho que são esses os divãs que nós precisamos sentar e discutir com a nossa comunidade e ver onde estamos errando e é isso, a auto-gestão é oxigênio.

Foto: Felipe Moreno
Foto: Felipe Moreno

Sobre a sua possível participação como ministro da Secretaria de Política e Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), como andam as negociações?
Eu recebi com surpresa essa cena, as pessoas sempre falavam que eu tenho perfil pra esse tema, mas eu tenho colocado dentro de mim que eu tenho que ser o fogo que aquece a água da chaleira, o movimento social é isso. A crise hoje não é da política brasileira, mas do movimento social brasileiro, hoje nossas maiores militâncias, as pessoas que estavam na linha de frente, hoje estão nos gabinetes, eles que estão dizendo “não” pras nossas demandas e eu não quero dizer “não” pra um parceiro meu no sentido de discutir políticas afirmativas e você não poder falar “vamos resolver” e eu dizer pra ele “olha mano, a máquina é realmente complicada e não tem o que fazer”. Então recebo com muito orgulho a notícia, mas acho muito difícil isso ir adiante. Existe uma pressão do movimento negro, do movimento cultural, eu vejo também isso com naturalidade porque nós temos muitos quadros nas paredes, mas não temos quadros perambulando e essa carência de quadros perambulando, faz com que as pessoas olhem pra outras e falem “pô cara, você poderia ser” [o representante], mas eu acho que já to na posição ideal, to bastante satisfeito com o papel que eu desempenho, fico muito feliz, mas acho difícil se concretizar.

A Semana Municipal do Hip Hop de Bauru é realizada de maneira independente desde 2011 e a partir de 2013, tornou-se lei e parte do calendário oficial da cidade, sendo realizada em parceria com o Ponto de Cultura Acesso Hip Hop e a Prefeitura Municipal de Bauru.

*publicada originalmente em 17/11/2014, via MadMimi