Notas e Relatos: Thigor MC lança seu primeiro DVD

O evento foi parte da programação da IV edição da Semana do Hip Hop em Bauru

Por Bibiana Garrido*

Se o trabalho de Thiago Luiz da Silva pudesse ser resumido em uma só palavra ela seria superação. Ou talvez amor. Talvez fé. Uma mistura de tudo isso resulta num show impactante por si só, e mais do que tudo, que envolve a plateia ali em pé, cantando junto a uma só voz. O rapper Thigor MC teve em sua infância uma trajetória comum a de tantos outros meninos do bairro Nova Esperança em Bauru. Drogas, morte, violência. E como ele chegou até aqui? Vamos deixar ele falar por si só, porque, como diz o famoso rap bauruense, o interior tem voz.

CasaH2Bauru: Quando foi que você percebeu que seu caminho era a música?

Foto: Bibiana Garrido
Foto: Bibiana Garrido

Thigor: Eu conheci a música com 12 anos de idade, na percussão da capoeira, na verdade. Acompanhava meu pai nesse trabalho e de ouvir bastante acabei tendo uma noção musical. Aprendi a tocar pandeiro também e, mais velho, participei de um grupo de samba, mas até então nunca cantava. Depois tive um envolvimento com drogas e acabei me afastando de tudo isso. Mas quando me recuperei senti a necessidade de passar isso paras as pessoas, transformei em música aquilo que eu vivi e comecei a cantar e a escrever, com uns 18, 19 anos.

CasaH2Bauru: Como foi esse começo da sua carreira?

Thigor: Quando eu comecei a escrever rap me juntei com o D’Bronx, que já tinha um grupo lá no bairro. Depois montamos o Guerreiros da Luz, que era um grupo gospel de rap, conseguimos lançar um CD e a coisa começou a andar, mas não durou muito tempo. Quando o grupo terminou, comecei com a minha carreira solo. Agora tô aí, o CD foi lançado em 2006, o Caminhando Na Fé, depois consegui lançar um EP, A Caminhada Continua… e hoje o DVD.

Foto: Bibiana Garrido
Foto: Bibiana Garrido

CasaH2Bauru: Olhando pra trás, qual você acha que foi o papel da música na sua vida até agora?

Thigor: A música me ajudou bastante em relação a fortalecer algumas ideias pra poder enfrentar as dificuldades que eu enfrentei durante todo esse tempo. Foi fundamental na minha formação social e ideológica. Hoje ela me ajuda a me manter nesse caminho que eu escolhi, e é uma responsabilidade muito grande que eu tenho com as pessoas que se inspiram no meu trabalho. É muito no sentido de me manter de pé. Faz uns dois anos que eu vivo só de música, larguei meu trabalho na metalúrgica e decidi me dedicar totalmente a isso. Deixei também a faculdade de música que eu tinha começado, ainda não consegui voltar, mas espero um dia concluir isso aí.

CasaH2Bauru: O que você espera com o lançamento do seu DVD aqui em Bauru? E como você vê a questão do Hip Hop se tornar cada vez mais difundido em outras camadas da sociedade, não só na periferia?

Foto: Bibiana Garrido
Foto: Bibiana Garrido

Thigor: Só de poder fazer esse show de no Sesc junto com as pessoas que acompanharam minha história desde o começo… é um momento marcante na minha vida. Para pessoa como a gente, que sempre vende CD no calçadão, poder estar onde estamos hoje é muito especial. Vou procurar dar o melhor para quem quiser ouvir e passar a mensagem contida em cada canção. E todo mundo pra mim é sempre bem-vindo, o meu trabalho é trazer a minha música e ela não tem preconceito ou descriminação nenhuma. Quanto mais gente puder conhecer, melhor.

 

*publicada originalmente em 9/11/14 no portal Participi

IV Semana do Hip Hop Bauru – Primeiro dia de Oficinas e Shows no SESC Bauru

Grafiteiros de Bauru colorem o SESC da cidade
Grafiteiros de Bauru colorem o SESC da cidade. Foto: Lucas Rodrigues

IV Semana do Hip Hop começa com muita formação e lançamento de DVD de Thigor MC no SESC Bauru

Por Keytyane Medeiros, para Semana do Hip Hop 2014

Sábado, 8 de novembro e o SESC Bauru é tomado por graffiteiros, beatmakers e dançarinos. A Semana do Hip Hop Bauru 2014 tem início com muita formação e arte! Logo pela manhã, Eveera, Sérgio Campos, L7M e Robinho começam a graffitar a área externa no Sesc Bauru em comemoração à mais uma edição da Semana. Com desenhos que lembram as quebradas de Bauru e uma homenagem a Thaíde, um dos precursores do Hip Hop nacional e um dos convidados do evento, os graffitis coloriam uma das áreas culturais mais importantes da cidade.

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Beatdance. Durante a tarde, aconteceu o encontro entre beatmakers e bboys do movimento Hip Hop na área de convivência do Sesc.  A união foi acompanhada com atenção pelas pessoas que estavam no espaço, que bateram palmas e comentavam sobre a dança “diferente” e “rápida”.

Dançarino na área de convivência do SESC. Foto: Lucas Rodrigues

Rafael MoonhBeat’s, um dos beatmakers convidados pela Semana para participar do evento, espera que o evento possa chamar a atenção para o trabalho dos beatmakers e DJs, “não muito lembrados, mas que sem os beats não ia ter música nem dança”, afirma. Para ele, “a importância da Semana do Hip Hop é passar conhecimento e resgatar jovens, mostrar para a molecada que o mundo não é só ostentação, por exemplo”. MoonhBeat’s ainda destaca que foi “resgatado” durante uma Semana do Hip Hop há alguns anos e que estar ontem no Sesc é algo muito significativo para ele e para o movimento.

Notas e Relatos de Thigor MC. Além de todas as atividades durante a manhã e a tarde, a abertura da Semana do Hip Hop contou com o show especial de lançamento do DVD do Thigor MC. O DVD “Notas e Relatos” é o primeiro a ser lançado entre os MCs e grupos de rap de Bauru e além das músicas, conta com clipes e o documentário “A praga do século”, realizado em parceria com Dom Black e Conrado Dacax. O filme fala sobre crack e como é o processo de reabilitação dos dependentes químicos a fim de sensibilizar o público acerca da doença.

Foto: Felipe Moreno
Foto: Felipe Moreno

O show estava lotado e era possível ver muitas famílias, crianças e grupos de amigos aproveitando o clima do evento. Thigor MC ainda destaca que, apesar da apresentação no Sesc ter participações especiais como do rapper D’Bronx, o DVD apresenta apenas composições próprias, gravadas em estúdio, “minha vida está ali”, afirma. Para ele, “lançar esse DVD aqui no Sesc é algo muito especial” e é algo que vai marcar a vida dele. Entre os presentes, estava o filho do cantor, que com apenas 4 anos, já cantava todas as músicas do pai.

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Foto: Felipe Moreno

“Eu tenho medo do descontrole do vício” – Entrevista com Dom Black

 

Dom Black. Foto: Guaíra Maia
Dom Black. Foto: Guaíra Maia

Por Keytyane Medeiros, para o blog e-Colab*

Toco a campainha da sede o Ponto de Cultura Acesso Hip Hop pela quarta vez em menos de duas semanas e imediatamente penso que o simpático Felipe Canela – que sempre me recebeu muito bem – já deve ter cansado da minha cara. É bem provável. Lá em cima, o rapper e também aspirante a documentarista, Dom Black me aguarda. Super prestativo e bem humorado, Dom Black me recebeu em nome da equipe do e-Colab para falar um pouco mais sobre o processo de produção do documentário realizado em parceria com Thigor MC, outro importante músico de Bauru. O filme intitulado “A Praga Do Século” funciona como uma extensão de uma canção homônima da dupla e assim como a música, fala sobre o crack, a depredação pessoal gerada pelo uso e, sobretudo, indica que os usuários podem se livrar da dependência química e retornar a uma vida saudável e próxima de seus familiares. Ouça “A Praga Do Século” aqui.

Qual o objetivo principal do documentário “A Praga Do Século”?
O objetivo é conscientizar a molecada a não se envolver com drogas, e também mostrar a realidade do usuário e da família dele. Todo mundo pensa “ah, ele é nóia” e eu penso que ele [o usuário] não é isso, e sim um cara doente que está passando por um momento difícil. O consumo de crack é um problema que a sociedade tem que se mobilizar para resolver.

E por que a opção de estender esse tema para um documentário, se vocês já haviam tratado do assunto na canção “A Praga Do Século”?
Nós achamos que seria pouco só cantar esses problemas da droga, porque algumas pessoas ouvem, acham legal, entendem, mas acabou por ali. Não fazem mais nada além de ouvir a música. Já vi muita gente fazendo rap, cantando os problemas e isso faz bem, mas podemos fazer alguma coisa a mais, podemos ir e mostrar como é realmente. Uma coisa é a pessoa ouvir, a outra é ela ver e entender o que está acontecendo a partir da voz de outros usuários que conhecem a droga, que fumam e que sabem como ela age.

Ao contrário de canções que em geral falam da maconha e das bebidas, por que você escolheu falar justamente do crack no seu projeto? 
Em primeiro lugar, porque eu tive problemas com parentes próximos que se tornaram usuários e então eu vi essas pessoas ficarem fora de si. Eu acho que todas as outras drogas, a bebida, a maconha, são a porta de entrada dos vícios e eu tenho medo do descontrole do vício. Não só do vício nas drogas, mas em qualquer coisa.

E na sua opinião, por que o consumo de crack têm crescido em Bauru e nas outras cidades do interior do Brasil? 
Crack é barato e vicia rápido. O traficante sabe que vai ter sempre aquele usuário que vai comprar a pedra uma vez e vai retornar atrás de outra. Entre as drogas, o crack é a única que te pega de uma vez só. Acho que só a heroína, que é injetável faz isso também.

Como a temática da droga e dos usuários está sendo tratada no documentário? 
As pessoas não tem dimensão da delicadeza do problema. Queremos mostrar as coisas do jeito são mesmo, desde o familiar que não sabe como lidar até o usuário que quer sair do vício, mas não sabe como fazer isso. Na maioria das vezes, o usuário quer sair, mas não sabe a quem recorrer, e também o usuário em recuperação que sabe que vai ter que lutar contra a dependência química a vida inteira, e outras situações. Não quero formar a opinião de ninguém, eu quero que as pessoas vejam e tirem suas próprias conclusões sobre o crack e sobre os usuários.

Como está sendo o processo de produção e quais as dificuldades de gravar “A praga do século”? 
Tá sendo difícil. Nem todo mundo quer falar abertamente sobre isso, alguns têm medo que patrão descubra que o individuo já foi usuário vai tratá-lo diferente, e coisas assim. Têm muita gente ajudando, mas é difícil por causa do dinheiro também, do deslocamento dos materiais até os locais de filmagem… É complicado, mas está sendo gratificante. A gente tá vendo a melhora de muitas pessoas e sabemos que quando o documentário sair vai abrir a mente de muita gente sobre o crack e sobre os usuários.

Com três meses de produção, Dom Black conta que “A Praga Do Século” ainda não tem data de lançamento definida, mas pela conversa que tive com esse experiente músico e artista bauruense, posso garantir: uma boa obra de denúncia social está por vir. Bauru, assim como o Brasil, precisa compreender que não dá mais para ignorar o efeito devastador do crack, e que ele deve ser tratado urgentemente como uma questão de saúde pública.

*publicado originalmente em 21/08/2012

Entre shows, debates, filmes e atividades de formação, a III Semana do Hip Hop de Bauru ganha robustez e traz Thaíde, GOG e Projota

Com mobilização social, a Semana Municipal do Hip Hop de Bauru tornou-se política pública da cidade. Evento ganha robustez e traz nomes de peso à Bauru.

Por Keytyane Medeiros, para Casa do Hip Hop Bauru

Realizada entre os dias 9 e 17 de novembro, a III Semana Municipal do Hip Hop de Bauru entrou para o Calendário Oficial de atividades da cidade. Até então produzida de maneira independente, a Semana Municipal do Hip Hop se tornou política pública em maio de 2013 por meio de mobilização social pela aprovação da Lei 6258. Com isso, a Semana Municipal do Hip Hop passa a ter também apoio financeiro e de infra-estrutura garantidos pela Secretaria Municipal de Cultura da cidade.

Nesta edição, a Semana trouxe shows de grandes artistas do Hip Hop nacional para participações especiais em shows e oficinas. Com shows de Thaíde e GOG, precursores da primeira e segunda onda do movimento no Brasil, a Semana passa a ser focada em atividades de formação de público e prioriza o quinto elemento: o conhecimento sobre a cultura Hip Hop, sobre a luta dos movimentos negros no país e sobre a criminalização da pobreza.

O show de abertura ficou sob responsabilidade do rapper Thaíde, no Muamba Music. O rapper faz parte da primeira geração do Hip Hop no país, iniciando sua carreira nos anos 80. Ao lado do ex-parceiro DJ Hum participaram da primeira coletânea de rap nacional, Hip Hop Cultura de Rua. O cantor entoou seus maiores sucessos como “Senhor Tempo Bom”, “A noite” e “Apresento meu amigo” com a casa lotada.  Além de Thaíde, a noite de abertura também contou com a participação de rappers locais como Jota F, BetinMC, Abanka e Dois1Dois.

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Formação. Uma das atividades consolidadas com a parceria com a Secretaria Municipal de Cultura está o aumento do número de escolas atendidas pelo Combo 5 Elementos. O projeto levou conhecimento e mini-oficinas dos cinco elementos do Hip Hop (graffiti, breaking, DJ, Rap e conhecimento) para oito escolas municipais e estaduais. O projeto ainda contou com a participação da Frente Feminina de Hip Hop de Bauru que levou questões de gênero para estudantes das escolas, alertando para igualdade de gênero e violência doméstica como males a ser evitados por todos.

A Frente Feminina ainda trouxe duas rappers para ocupar os palcos Interior Tem Voz com Sara Donato no dia 10 de novembro e Tábata Alves no palco de encerramento no dia 17. Além delas, a b.girl Aline Afrobreak ainda ministrou oficinas de breaking durante a Semana.

EMEF Lydia Alexandrina
EMEF Lydia Alexandrina
Henrique Tomas no Combo 5 Elementos
Henrique Tomas no Combo 5 Elementos
EMEF Guia Lopes
EMEF Guia Lopes

Cinema de crítica social. O Cine Hip Hop, realizado no Pontilhão da 13 de Maio, em parceria com a Casa Fora do Eixo de Bauru, trouxe produções audiovisuais bauruenses como o clipe com forte crítica social de Thigor MC e Dom Black, “A Praga do Século” e “Livre Escolha”, documentário de Thigor MC.

Cine Hip Hop II SEMANA
Cine Hip Hop na Semana 2013

Ambas as produções levantam problemas relacionados ao crack, a chamada praga do século. Longe da droga há quase 10 anos, Thigor MC conta em seu documentário como se afastou do vício e como o rap, o Hip Hop e a religião tiveram participação fundamental nesse processo. As produções alertam para uma inversão na lógica do tratamento do crack. Comumente associado à segurança pública, o crack é e deve ser tratado, segundo os produtores, como um problema de saúde pública. Além disso, as produções criticam o descaso do poder público com os usuários, que por meio da higienização da cidade afasta os usuários da paisagem urbana sem resolver seus problemas de saúde ou propor tratamentos alternativos. Os vídeos foram produzidos por Rafael Pessoto, Conrado Dacax e D’Bronx MC.

Shows de encerramento. A Semana foi encerrada com a participação mais que especial de GOG, rapper de Brasília e o primeiro a possuir um selo de gravadora independente do país em 1996, “Só balanço”.

Com canções críticas e politicamente posicionadas como “Brasil com P”, GOG chama a atenção para a questão racial no Brasil. Segundo suas letras, os mortos pelo poder público no Brasil tem CEP e cor, sendo em sua maioria jovens negros de periferias, como o Mapa da Violência 2012 comprova. Em dezembro de 2007, GOG lançou o CD “Cartão Postal Bomba!” totalmente online, apresentando uma nova proposta de negociação, divulgação e distribuição de música independente no país, promovendo o debate sobre auto-gestão entre artistas nacionais. O rapper visionário abriu o show para uma das promessas nacionais do mundo do rap, o jovem Projota.

Projota no encerramento da III Semana Municipal do Hip Hop de Bauru. Foto: Luringa
Projota no encerramento da III Semana Municipal do Hip Hop de Bauru. Foto: Luringa

Projota ganhou destaque no cenário independente após vencer quatro vezes a batalha de mcs da Santa Cruz, em São Paulo. A partir daí, o jovem de 26 anos lançou as mixtapes “Carta aos meus” em 2009 e “Projeção” em 2010. O rapper encerrou a Semana do Hip Hop 2013 com canções de sucesso, alegrando a molecadinha que tem se aproximado ultimamente do movimento Hip Hop. Entre suas canções mais famosas está “Rezadeira”, muito aplaudida pelo público de aproximadamente 10 mil pessoas no Parque Vitória Régia.

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Encerramento da III Semana do Hip Hop Bauru no parque Vitória Régia. Foto: Ponto de Cultura Acesso Hip Hop

 

III Semana Municipal de Hip Hop de Bauru: evento entra no calendário oficial da cidade

Terceira edição conta com nomes como GOG, Thaíde, Sombra e Projota

por Revista Rap Nacional*

Já consagrada como um dos maiores eventos culturais de Bauru, a Semana Municipal de Hip Hop chega à sua terceira edição mais forte que nunca. De 9 a 17 de novembro, o festival vai ocupar diversas áreas da cidade com shows de rap, exposições de graffiti, batalhas de breaking, sessões de cinema, oficinas, debates e ações educacionais.

É a primeira vez em que a Semana acontece como parte integrante do Calendário Oficial de Eventos da cidade, instituída pela Lei 6358, de 24 de maio de 2013. O reconhecimento do poder público trouxe novas dimensões ao festival, que este ano conta com quatro nomes de peso do rap nacional em sua programação. Thaíde, GOG, Sombra e Projota são shows confirmados, respectivamente, para os dias 9, 10, 16 e 17.

A agenda de shows inclui também artistas e grupos que fazem sucesso no cenário local do movimento. A escalação de bauruenses para a Semana conta com AlemDaRima, DJ Ding, D’Bronx, JotaF, BetinMC, Abanka, Dois1Dois, Thigor MC, Ment Blindada, Bandidos em Harmonia, Tiago Vurto, D’Quebra, Dom Black, RapNobre MC e Coruja BC1, menino prodígio que vem conquistando reconhecimento no circuito nacional desde o ano passado.

 

Palco “Interior tem voz”. Buscando valorizar a rica produção do Hip Hop além dos holofotes das grandes cidades, o festival realiza no feriado do dia 15 uma sequência de shows trazidos de diferentes cidades do interior paulista. Ao longo de toda a tarde, a praça pública do Parque Santa Edwiges recebe apresentações de Veneno H2 (Franca), Ramonstro (Barretos), Lheo Zotto (Ribeirão Preto), Sintonia Sonora (Barra Bonita), Daniel Garnet e Pqnoh (Piracicaba), Revolução LDE (Marília) e Prodígios (Jaú).

Lugar de mulher é no palco. Tendo entre seus organizadores a Frente Feminina de Hip Hop da cidade, a Semana não poderia deixar de ter atrações que representassem a força das mulheres no movimento. Duas MCs têm presença confirmada no evento: a são-carlense Sara Donato, que canta no Sambódromo no dia 10, e a paulistana Tábata Alves, escalada para o encerramento no Parque Vitória Régia, no dia 17. Além delas, a b.girl Aline Afrobreak vem da capital para ministrar uma oficina de breaking para meninas no dia 14, no Centro Cultural.

Hip Hop no currículo. Consciente do papel do Hip Hop como ferramenta de formação, a Semana tem como uma das suas principais características a realização de atividades educativas e conscientizadoras. Serão oficinas, debates e outras ações, com o objetivo de incentivar a reflexão e circular informação entre o público do evento.

Seis dos nove dias de festival contam com oficinas, dedicadas a oferecer informações básicas a quem gostaria de atuar em diversas vertentes do movimento. Haverá aulas gratuitas sobre produção de vídeos, graffiti, breaking e criação de beats. Já os debates e as rodas de bate-papo abordarão temas que vão da discriminação de camadas sociais desfavorecidas à presença da mulher no Hip Hop.

Henrique Tomas no Combo 5 Elementos

Além disso, a terceira edição da Semana tem como novidade a realização dos chamados “Combos dos Cinco Elementos” em escolas públicas de Bauru, levando bate-papos e apresentações aos alunos. Ao todo, oito escolas receberão os Combos, que acontecem nos dias 11, 12, 13 e 14.

 

Construção colaborativa. A 3ª Semana Municipal de Hip Hop é uma realização do Ponto de Cultura Acesso Hip Hop e da Prefeitura Municipal, em parceria com Frente Feminina de Hip Hop de Bauru, CurtaBauru, Casa Fora do Eixo Bauru, Wise Madness, Frente de Hip Hop do Interior Paulista, Rede Nacional das Casas de Hip Hop, Bauru Breakers Crew, Oficina Cultural Glauco Pinto de Moraes e Secretaria de Estado da Cultura. A iniciativa conta com o apoio de Caritas Diocesana, Conselho Regional de Psicologia, Rádio Unesp FM e Madiba Shop e Projeto Colorindo o Interior.

 

Flyer da III Semana Municipal de Hip Hop de Bauru
Flyer da III Semana Municipal de Hip Hop de Bauru

 

*publicado originalmente em 7/11/2013

Ernesto Hip-Hop: 2ª Semana Municipal do Hip Hop

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II Semana Municipal do Hip-hop invade o Geisel no feriado

Texto e Fotos: Higor Boconcelo para o blog e-Colab*

1“Em pleno feriado, meio dia, o cara me passa com essa música no último?”, reclama Gu, quando, como de costume, um carro qualquer corta a Alziro Zarur com o som “estourando”. Não que ele tivesse muita coisa contra Demi Lovato, mas aquele definitivamente não era dia para a música pop no Geisel, já que a II Semana Municipal de Hip-Hop tomava o bairro como palco para as atividades de seu quarto dia de programação.

Du é um dos grafiteiros escalados para exercer sua arte no muro da biblioteca ramal do bairro. Já estava fazendo seu trabalho havia quase meia hora quando o carro passou, o distraindo. Enquanto isso, o outro artista responsável pela grafitagem continuava a manejar a tinta spray.

Paulistano, Sergio Oliveira atua na arte há mais de sete anos. Ambos experientes, porém jovens, estavam trabalhando em uma nova “cara” para a biblioteca, atividade que fazia parte da programação do evento.

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Graffiti de Sérgio Oliveira

E ainda bem que o fazia. A obra não estava nem metade pronta e já arrancava elogios dos moradores que cruzavam por lá. “Isso nem parecia uma biblioteca! Olha como uma pinturinha já muda tudo”, comentou uma senhora do outro lado da rua. Não houve sequer uma criança que passasse em frente ao ramal sem voltar sua atenção para os jovens que grafitavam. Poucas horas depois, as palavras Biblioteca Ramal já ganhavam seus retoques finais pelos sprays de Sergio, e a obra de Du também estava quase pronta.

Mas se essa rapidez podia ser aplicada ao grafite dos garotos, certamente não era o caso para o que logo ia começar a rolar a poucos metros dali, no Bosque da Comunidade do Geisel. Lá, “o baguio ia estourar a tarde inteira”. Com o grafite já finalizado, ambos foram convidados pela organização à pintar um largo muro do bosque. Se estivessem pensando que seu trabalho estava chegando ao fim, certamente estariam se enganando.

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A selva tomada

Um palco, duas caixas de som e uma lona por cima formavam uma espécie de tenda, onde iriam subir vários MC’s durante a tarde. O Projeto Ensaio no Bosque estava marcado para começar às 15h, e se dependesse de público, poderia começar até antes.

Em meio às árvores do local havia todo o tipo de morador para prestigiar o evento. Crianças, famílias com seus cães, jovens e a dupla de grafiteiros, que já reiniciava sua arte nos muros da selva urbana.

O primeiro a mandar as rimas e as batidas foi o MC Vurto, abrindo a tarde de apresentações. A quadra de basquete onde o palco estava montado logo começou a ser preenchida de gente, vinda ora do próprio bosque (diga-se de passagem, grande), ora das próprias ruas do bairro.

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Em cima de um tapete quadriculado, os adeptos do breaking não paravam de rodar. Meia dúzia jogavam basquete na outra metade livre da quadra. As cabeças reagindo de maneira positiva às rimas que se propagavam.

Era assim com cada MC que subia naquele palco para executar suas próprias rimas. O rap independente mostrava naquela tarde a sua força – a maioria do público conhecia as letras compostas pelos artistas que, há alguns minutos atrás, também estavam curtindo outro MC rimar.

Seguiu rimando o MC Thigor, dando lugar depois para Betim. Após, foi a vez do RapNobre emendar rimas que protestavam contra a futilidade presente nas músicas comerciais e nos costumes da sociedade em geral.

Já conhecido do público, Coruja BC1 subiu ao palco junto do parceiro Dom Black e da dupla Além da Rima, em duas apresentações que mexeram com a galera presente. Ao fim da tarde, subia ao palco mais uma vez para rimar suas composições.

Mais de nove atrações mandaram suas rimas, beats e pensamentos para o público presente no bosque. Os rappers saldaram seus parceiros que vieram os assistir de vários bairros de Bauru, como também de outras cidades. A família do rap comemorou estar reunida novamente, e além disso, a realização da Semana pela prefeitura. Abrir espaço para uma festa de rap independente mostra que os artistas não estão trabalhando em vão, e mesmo que o preconceito ainda exista, os MCs continuam fazendo sua voz subir mais alto que ele. Tão alto que até Geisel deve ter ouvido.

* publicado originalmente em 19/11/2012