Retrospectiva 2015: produtividade, conhecimento e luta na Casa do Hip Hop de Bauru

Casa do Hip Hop de Bauru é inaugurada e já se consolida como importante ponto de articulação cultural, política e social da cidade

Por Keytyane Medeiros
Imagens: Conrado Dacax, Felipe Moreno, Felipe Amaral, Heitor Facini, Lucas Mendes, Lucas Rodrigues, Lucas Zanetti, Mariana Lacava, Rebeca Farinelli, Thaine Cuba

2015 foi o ano do Hip Hop. Com aparições de peso de rappers na TV e na grande mídia como Emicida, Criolo e Tássia Reis, o movimento atingiu ainda mais visibilidade e públicos diversificados. Músicos como Bárbara Sweet e Rico Dalasam ocuparam espaços em veículos de mídia mais à esquerda protagonizando entrevistas sobre temas que normalmente não são vinculados ao movimento Hip Hop, embora na prática sejam recorrentes na militância, como questões de identidade e opressão de gênero. O Hip Hop, como movimento social rico, orgânico e criativo está se reinventando e incorporando discussões atuais em suas rimas, batidas e jatos de spray, politizando e atualizando nossas lutas diárias em todos os seus elementos. Além disso, o ano foi voltado para a formação e consolidação de contatos em rede em Bauru e no país.

Casa do Hip Hop de Bauru. Este ano foi marcante para o movimento Hip Hop em todo o estado de São Paulo. Cidades do interior paulista como Mogi das Cruzes, Piracicaba, Araçatuba, Campinas e Nova Odessa organizaram festivais, workshops e saraus, absorvendo e proporcionando novos ares ao movimento regional. Em Bauru, a inauguração da Casa do Hip Hop consolidou a cidade como um dos principais pólos de articulação política, cultural e social do movimento no Estado e no país.

A negociação por um espaço próprio para realizar atividades, oficinas e shows já acontecia por membros do Ponto de Cultura Acesso Hip Hop e militantes do movimento de Bauru junto a Prefeitura e Secretaria Municipal de Cultura desde janeiro de 2014, no entanto, a Casa do Hip Hop só se tornou realidade entre os meses de maio e julho deste ano, depois de extensivos acordos com os órgãos municipais. Em maio, junto aos trabalhadores e reeducandos do Instituto Penal Agrícola (IPA) de Bauru, demos início à ocupação de metade do primeiro andar da antiga Estação Ferroviária, espaço abandonado por mais de 20 anos pelo poder público e privado, com longas promessas de revitalização e ocupação nunca efetivadas. A ocupação é simbólica, já que a partir da Estação Ferroviária a cidade passou a se desenvolver cultural, social e economicamente no século XIX (saiba mais sobre a Ferroviária aqui).

As salas estavam sujas, precárias de infra-estrutura básica como iluminação e água e repletas de móveis velhos e mofados. Apesar disso, recebemos apoio financeiro e político da Prefeitura Municipal para a ocupação do espaço e por quase três meses, militantes do movimento deram novos ares a Casa e a Estação Ferroviária também. Antes abandonada e solitária, a Estação Ferroviária viu as cores do Hip Hop revitalizarem o espaço com graffiti, rap nacional e breaking, além de debates e encontros. Para Edson Moraes Timbá, um dos coordenadores do projeto, a intenção era “trazer os jovens para dentro do espaço e assim, dar vida a Casa”, afirma. Em 15 e 16 de agosto, nosso novo lar foi inaugurado. A segunda casa de todo militante da cultura Hip Hop em Bauru estava de portas abertas com shows de artistas locais e convidados como Coruja BC1, Betin MC, Menti Blindada, DJ Kamarão, Lunna Rabetti, Sara Donato, Sharylaine DJ DanDan e grupo Inquérito fechando os dois dias de comemoração e de festa na rua, às porta da Casa do Hip Hop. A participação da Frente Nacional de Mulheres no Hip Hop teve papel decisivo na inauguração da Casa do Hip Hop de Bauru, contribuindo para a formação de um ambiente mais igualitário e politizado no que diz respeito às questões de gênero e à presença feminina nos palcos.

Oficinas e formação. Com a Casa inaugurada as atividades de formação, que já aconteciam em espaços descentralizados da cidade, se consolidaram. Timbá afirma ainda que “a Casa do Hip Hop é muito importante porque com ela podemos repassar o conhecimento no breaking, rap, graffiti, DJ, no quinto elemento (conhecimento sobre a cultura) e na educação, transformando vidas através da cultura Hip Hop, tirando jovens da rua e da vida ociosa”.

São mais de 10 oficinas, totalmente gratuitas, realizadas todos os dias da semana na Casa do Hip Hop por voluntários e militantes culturais da cidade, que viram no espaço uma oportunidade de expandir seus conhecimentos e atingir diversos públicos. Entre as atividades estão oficinas dos quatro elementos formadores do Hip Hop, isto é, Rap, DJ, Graffiti e Breaking, além de aulas de kick-boxing, audiovisual, fotografia digital, stencil, costumização de roupas, capoeira angola, samba rock, jazz e dança contemporânea, entre outros.

Uma das maiores preocupações da Casa do Hip Hop de Bauru sempre foi a formação crítica e política não só dos coordenadores, mas principalmente do público e dos militantes da cultura. Em setembro demos início ao Cine Pixote, um cine clube colaborativo organizado em parceria com a Frente Feminina de Hip Hop de Bauru e a Biblioteca Móvel – Quinto Elemento e ao Cursinho Comunitário Acesso Popular, curso pré-vestibular gratuito coordenado junto ao Instituto Acesso Popular. Além disso, a Frente Feminina de Hip Hop de Bauru também organiza um grupo de estudos focado no movimento feminista negro e periférico, a fim de instrumentalizar e empoderar mulheres com relação a seus direitos, protagonismo na cena e liberdade de expressão e fim das opressões e violências de gênero. A Frente também participou do Encontro Regional de Mulheres no Hip Hop, realizado em julho na cidade de São Carlos. Lá pautas como feminismo, identidade de gênero e participação feminina nos eventos de Hip Hop foram discutidas e articuladas para 2016.

Shows e atividades musicais. Se antes, sem espaço próprio diversas apresentações musicais ligadas ao Hip Hop já aconteciam na cidade, movimentando a cultura bauruense, com a inauguração da Casa, mais duas atividades chegaram para ampliar as possibilidades artísticas de rappers, beatmakers e DJs. Além dos tradicionais Rap Hour e Projeto Ensaio, que levam Rap ao Teatro Municipal e aos bairros comunitários, respectivamente, o Estação Hip Hop estreou como mais uma atração mensal, realizada na área de desembarque ao lado dos antigos trens da Estação, a cada três domingos por mês.

Os shows são ótimos espaços de encontro entre o público e os cantores, com infra-estrutura de som, iluminação e DJ, além de espaço para que b.boys e b.girls da cidade demonstrem seu talento. No entanto, o Hip Hop não deve viver só de shows. Uma das características que tornam o Hip Hip um movimento tão vívido e dinâmico é a realização de batalhas de MCs. Na década de 1970, com a criação das primeiras festas de rap nos bairros de Nova York, criadores do cultura como Afrika Bambaataa, Kool Herc, GrandMaster Flash e Cindy Campbell incentivavam batalhas de rimas, a fim de criar uma competição saudável que pudesse envolver jovens e afastá-los das drogas e da violência. Estas batalhas diminuíram o número de pessoas envolvidas em gangues e estimulava a criatividade para criar rimas, poemas e compor canções no tempo livre. Em Bauru não é diferente. A cidade necessitava de mais espaços de batalhas de rimas, já que as poucas que existiam foram desaparecendo com o tempo. Por isso, a Batalha da Panelinha passou a fazer parte das atividades musicais da Casa, todas as sextas-feiras, convidando rimadores locais e de cidades da região para batalhar com criatividade, desenvoltura e talento.

Rede Nacional das Casas do Hip Hop e Encontros Regionais. A Casa do Hip Hop de Bauru é uma entidade autônoma integrada a outros articuladores culturais e sociais no nosso movimento. Por isso desde 2013, a Casa, por meio do Ponto de Cultura Acesso Hip Hop, faz parte da Rede Nacional das Casas da Cultura Hip Hop e Empreendimentos Solidários, integrando, gerenciando e organizando os pilares do primeiro setorial de cultura do país. A Rede, composta atualmente por mais de 15 casas e empreendimentos solidários, tem como objetivo proporcionar o comércio justo e horizontal de produtos e serviços entre seus membros, fomentando uma economia própria, sem exploração do trabalho. Desta forma, cada Casa da cultura Hip Hop no país pode produzir camisetas, bonés, bottons, shows e eventos de qualidade e oferecê-los ao próprio público, de maneira direta, sem intermediários e assim, gerar emprego e renda para os ‘nossos’. (Saiba mais sobre Economia Solidária e Hip Hop aqui).

Rede Nacional das Casas no 4º Congresso da Unisol Brasil.
Rede Nacional das Casas no 4º Congresso da Unisol Brasil.

Por conta disso, a Casa compôs importantes espaços de debate sobre os rumos do movimento Hip Hop e a intersecção com a Economia Solidária ao longo do ano, especialmente nos meses de junho, agosto, outubro e novembro. Para Renato Magú, um dos coordenadores da Casa do Hip Hop de Bauru participar da Rede Nacional das Casas e de outros pontos de articulação cultural pelo país é muito importante e positivo, “porque assim conseguimos dividir nossas experiências de alguns avanços e retrocessos com outros companheiro/as e realizar essa troca com eles, sobre o que funciona ou não, tendo mais fruição, tanto receber essas pessoas na nossa cidade, quanto ser recebido em outros locais”, afirma. Com relação à Rede, Magú destaca que ela surgiu da necessidade de ter mais representatividade política entre os militantes da cultura,“quando a gente se organiza em rede, fica mais fácil obter alguns progressos, tanto na formação, quanto na questão de obtenção de recursos” e assim obter mais independência e autonomia. Além disso, a Casa também teve representantes em outros importantes encontros regionais do movimento.

Em 2015, participamos do Encontro Paulista de Hip Hop, realizado no Memorial da América Latina e do Festival Emergências no Rio de Janeiro. “Por exemplo no Encontro Paulista de Hip Hop, do jeito que tem sido feito pela assessoria estadual para a cultura Hip Hop, entendo como um encontro paulistano de Hip Hop e toda vez que a gente participa, vamos justamente para pautar que o Hip Hop não é feito só na capital, é feito no interior também e que merece respeito. Ainda que a assessoria não tenha essa visão hoje, trata-se de um órgão estadual, então ela tem por obrigação dar atenção para pólos fora da capital”, defende. No Nação Hip Hop, realizado no início de dezembro em São Bernardo do Campo, a participação da Casa de Bauru também foi significativa, a medida que levou produtos produzidos dentro da lógica da economia solidária para outros pontos do Estado durante o evento. “Foi muito importante para nós porque tem roupas e produtos nossos espalhados pelo país inteiro e tivemos a oportunidade de apresentar a Rede Nacional das Casas da Cultura Hip Hop para vários outros coletivos”. No Rio de Janeiro, puxamos a feira de Economia Solidária durante o Festival Emergência, inclusive contando com o apoio do Ministro da Cultura, Juca Ferreira, afirmando que este modelo de empreendimento é uma saída possível para a crise econômica que o país enfrenta nos últimos dois anos.

Semana do Hip Hop 2015. Há dois anos, por meio de mobilização social, a Semana Municipal do Hip Hop de Bauru se tornou uma política cultural da cidade, por meio da aprovação da lei 6358/2013, contando com o apoio da Prefeitura Municipal e da Secretaria Municipal de Cultura para a sua realização. Por meio da lei, a Semana tem se consolidado como o maior festival gratuito de Hip Hop do país, com apresentações musicais de relevância política e cultural como Crônica Mendes, Rapadura Xique-Chico, grupo Inquérito, Issa Paz, Sara Donato, Feniks, Tássia Reis, Lunna Rabetti, Negra Lud, Jota F, Além da Rima, Menti Blindada e Betin MC, estes últimos importantes expoentes regionais. De 6 a 15 de novembro foram nove dias de atividades, incluindo visitas em escolas e entidades sociais como a SORRI, CIPS e Legião Mirim para apresentação do Combo 5 Elementos, no qual os elementos da cultura Hip Hop e do feminismo são apresentados para crianças e jovens de maneira descontraída e envolvente.

Além dos shows e dos Combos, houve debates e mostra audiovisual com os filmes “O Rap pelo Rap”, “Reis de Dogtown – história do skate nos Estados Unidos” e “Profissão MC” em espaços abertos da cidade e workshops sobre o movimento, como “Nos tempos da São Bento”, com Marcelinho BackSpin, um dos fundadores da primeira crew de breaking do país. O debate sobre produção cultural e presença feminina no Hip Hop com Tássia Reis e Sara Donato realizado no Sesc em parceria com a Frente Feminina de Hip Hop de Bauru e a Frente Nacional de Mulheres no Hip Hop, que participou de todo o evento, também foi muito importante para a consolidação da discussão de gênero no movimento, enriquecendo a vivência dos militantes da cultura. Com um público de aproximadamente 30 mil pessoas no show de encerramento no Parque Vitória Régia, Emicida elogiou o movimento na cidade e reforçou a importância de eventos deste porte no interior do país.

Em entrevista exclusiva ao portal da Casa do Hip Hop de Bauru, o rapper reforçou que “o Hip Hop é o único movimento cultural brasileiro que se aprofundou a ponto de trazer elementos da nossa cultura brasileira antiga, é a rapaziada que samplea o samba, por exemplo, e ao mesmo tempo, o Hip Hop é uma coisa contemporânea”. Por isso, eventos como a Semana proporcionam momentos de encontro entre artistas e fãs, militantes e leigos da cultura. “Isso aqui faz as pessoas se encontrarem e essa relação é mais importante para o Hip Hop, porque o Hip Hop acontece na rua. Quando você consegue levantar um palco, uma luz legal, um som legal e uma rapaziada bacana se apresentando com coisa legal para falar, isso é uma vitória para o Hip Hop mundial, não só do Brasil”, afirma. “Acho que o que tá acontecendo aqui hoje é uma grande vitória para o Hip Hop mundial porque não é fácil fazer isso, em instância nenhuma, mover as coisas num país tão preconceituoso e racista”, aponta.

Em dezembro, a Casa também apoiou o movimento secundarista local contra a chamada “reoganização escolar” promovida pelo governo do Estado de São Paulo, sob gestão do governador Geraldo Alckmin. Oferecemos oficinas e realizamos o Combo 5 Elementos nos colégios Ferreira de Menezes e Stela Machado, localizados em regiões periféricas da cidade. Pontuamos a necessidade da educação e da cultura como ferramentas de luta e discussão política e parabenizando os estudantes pela luta e pela resistência diária contra a privatização dos direitos constitucionais básicos.

Perspectivas para o futuro. Com um ano repleto de conquistas e vitórias, a Casa do Hip Hop promete ainda mais integração em 2016. Timbá destaca que as oficinas profissionalizantes e atividades esportivas tiveram ótimos resultados neste ano, atraindo crianças, jovens e adultos para o espaço, instrumentalizando os participantes e distribuindo conhecimento. O desafio agora é fazer com que a Casa, que possui 7 salas e um auditório compartilhado com outras entidades culturais na Estação Ferroviária, estejam permanentemente ativas, gerando ainda mais conhecimento e proporcionando a ocupação do espaço público por meio da arte e da tecnologia. “Ano que vem teremos um telecentro e daremos ainda mais atenção para as atividades profissionalizantes. Também temos que pensar mais nos jovens que desejam seguir carreira artística e por meio da Casa, dar uma perspectiva melhor de vida para estes jovens”, afirma Timbá. Em 2016, as atividades da Casa do Hip Hop de Bauru vão enriquecer ainda mais o cenário político e cultural da cidade. Oficinas, shows e o cursinho pré-vestibular Acesso Hip Hop estarão a todo vapor, na antiga Estação Ferroviária de Bauru, onde tudo começou e agora, mais de um século depois, esta parte da cidade volta a ser revisitada, revitalizada e colorida pelas cores e batidas da cultura Hip Hop.

Emicida, Coruja BC1 e Drik Barbosa fazem show de encerramento da Semana do Hip Hop 2015 no Vitória Régia

IMG_1632Rapper traz discussão racial e periférico para o coração do Vitória Régia

Por Keytyane Medeiros
Fotos: Lucas Rodrigues Alves e Felipe Amaral

Vozes e passos firmes de uma tropa de soldados sem bandeira a caminho do campo de batalha inundaram o Vitória Régia no domingo, 15 de novembro. Como se estivesse em Casa, com paus, pedras e mísseis, Emicida comandou um exército de sonhadores pela noite de encerramento da Semana do Hip Hop de Bauru, consagrando mais de 20 anos de luta e militância da cidade com um show eletrizante, combativo e envolvente.

Após dez dias de atividades com shows, debates, cinema e celebração dos quatro elementos da cultura Hip Hop pela cidade, a Semana não poderia ter encerrado de maneira mais adequada. Com a presença de um dos maiores ícones da música nacional e uma das referências de resistência e poder negro entre os jovens, Emicida chegou a Bauru com uma apresentação carregada de significados e disputas discursivas, trazendo o debate racial e periférico para o centro do Vitória Régia, com a ajuda de artistas que entendem muito bem do assunto como Drik Barbosa, Muzzik e a prata da casa, Coruja BC1.

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A voz da criança irada gritando e ecoando “nunca deu nada pra nois, carai! nunca lembrou de nois, carai!” em Mandume reverberou por quilômetros abaixo, acima e ao lado do palco na voz do público.  Num dos momentos mais marcantes do show, esse era o grito dolorido de toda uma geração que se vê representada na canção, na voz de Emicida e Drik Barbosa, de um grupo que sofreu opressões diárias por várias gerações, era o grito preso dos pretos, pobres e periféricos dessa cidade sem limites. O feminismo preto da Drik Barbosa assumiu o protagonismo nos palcos quando sua participação no single Hoje Cedo fez correr pela espinha de cada um da plateia o drama e a tragédia cotidiana de milhares de mulheres negras do Brasil, numa sintonia e troca muito mais enérgica e simbólica que a melancolia da versão original.

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Drik Barbosa

Em mais de uma ocasião, Emicida trouxe para o repertório músicas de seus primeiros trabalhos profissionais, sempre acompanhado pelo público. O artista parece ter estudado muito bem a cidade, pois trouxe canções como Então Toma!, I Love Quebrada e Bang!, numa levada pesada, com beats bem elaborados e renovados. I Love Quebrada, lançada há cinco anos voltou repaginada com beat pesadão, estilo gangsta, levando o público ao delírio.

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Coruja BC1

Coruja BC1, rapper em ascensão na capital e muito querido em Bauru, passou o show inteiro no palco, consagrando mais uma vez a cidade como um pólo de articulação cultural, absolutamente relevante no cenário Hip Hop nacional, haja vista a quantidade de artistas locais que passou pelo palco Vitória Régia horas antes. Além de acompanhar as músicas e mandar um freestyle improvisado e ovacionado, Coruja também cantou a inédita “Gana”, de seu próximo CD, ao lado do mestre e ídolo Emicida. Outro momento inesperado desse show que já entrava na história da cidade antes mesmo de chegar ao fim, foi a chegada repentina de Renan Inquérito, que subiu ao palco descalço, de surpresa, dando Corpo e Alma ao lado de Emicida e Coruja.

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Renan Inquérito, Coruja e Emicida

A Semana do Hip Hop de Bauru, a maior do país, segundo Emicida, é um momento divertido de encontro e trocas de saberes. “Acho que o que tá acontecendo aqui hoje é uma grande vitória para o Hip Hop mundial porque não é fácil fazer isso, em instância nenhuma, mover as coisas num país tão preconceituoso e racista, você conseguir brigar fazer um evento desse porte falando ‘isso aqui é a Semana do Hip Hop de Bauru’. As vezes, as pessoas da cultura local nem entendem o Hip Hop como uma propriedade da cidade”, afirmou em entrevista exclusiva.

Em Bauru, ficou evidente pela voz das 30 mil pessoas presentes no parque Vitória Régia que o Hip Hop é parte da identidade cultural da cidade, das mentes inquietas e dos militantes de milianos da Rui Barbosa. Depois de tantos murros no estômago e gritos engasgados finalmente liberados numa celebração narrada linha a linha pelas letras decoradas, verdadeiros hinos de resistência, Emicida lembrou ao público que mais do que cinco elementos, o Hip Hop é postura, conduta e sonho. Satisfeito com os milhares de acompanhantes da noite, mais um grito sincero, desta vez, da estrela do palco para a constelação da plateia,  “aí Bauru, na moral, eu amo esse lugar!”.

Muzzik e Emicida
Muzzik e Emicida
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Muzzik, Drik Barbosa, Emicida, Coruja BC1 e DJ Nyack

Quem diz que mina não pode ser Sensei? Com a palavra, Drik Barbosa

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Texto: Thamires Motta
Fotos: Lucas Rodrigues Alves da Silva e Felipe Amaral

Drik Barbosa: em algum momento, você já ouviu falar esse nome. A MC começou nas rodas de freestyle da Batalha do Santa Cruz, em São Paulo, e logo começou a ser reconhecida pela voz inconfundível e pelo talento no free. Já teve participações nos discos de Marcello Gugu, DJ Caique, Novato e mais recentemente na faixa “Mandume”, de Emicida. Convidada pelo rapper para dividir o palco em Bauru, ela cantou o single e entoou vários refrões durante o show.

Arrepiando em “Mandume”, Drik leva feminismo e mais voz para as mulheres negras nos seus versos. Ela acredita que o próprio Rap já tinha dificuldades em alcançar visibilidade, mas que elas estão chegando cada vez mais longe, já que as portas foram abertas pelas mulheres que batiam de frente. “Quero que a gente possa falar do que a gente quer, não só falar de violência e preconceito, que é extremamente importante, mas que a gente passe nossa visão sobre amor, felicidade, sobre rolê. Que não fique só essa perspectiva do homem”, explica a rapper.

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Para ela, a maior importância da Semana do Hip Hop está em alcançar as pessoas e mostrar o poder da cultura. “É importante trocar uma ideia legal cara a cara com as pessoas, não ser só essa parada de internet”, conta. “Tem muita gente que fala que falta mais show aqui, principalmente de mina, mas é uma coisa que vai chegar”, acredita a MC.

Para o próximo ano, Drik Barbosa está envolvida em dois projetos, e planeja o lançamento de um EP. “Espero pode lançar uns singles antes, uns acústicos. Em 2016 a gente vai chegar bolada”, afirma. E nós esperaremos ansiosos.

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Sob o peso da história, das palavras e dos versos

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Sarau do Viaduto, que foi parar na Estação, teve Renan Inquérito, Banks Back Spin, Sara Donato, poetas e militantes da literatura marginal

Por Lucas Mendes
Fotos: Lucas Rodrigues Alves da Silva

“Cada Sarau, cada roda de b.boy, cada graffiti, cada risco, é um movimento de resistência, e a resistência é a consciência”. Foi mais ou menos assim que rolou, na noite dessa sexta-feira 13 de novembro, a edição especial do Sarau do Viaduto, na V Semana Municipal do Hip Hop. Encontro de poesia, formação política e Hip Hop, com participação diversa que foi do cordel à poesia marginal.

Organizado pela Biblioteca Móvel – Quinto Elemento em parceria com a Casa do Hip Hop e a Secretaria de Cultura de Bauru, o Sarau do Viaduto vem movimentando o cenário cultural-marginal. Sempre com a presença de algum convidado especial, já passaram por ele Ni Brisant, Karluz Magum e Gracco Liveira e agora Renan Inquérito e Banks Back Spin.

Se a chuva impossibilitou o uso do viaduto da Duque de Caxias, o destino trazia algo de simbólico na mudança do evento pra Casa do Hip Hop, na Estação Ferroviária. Uma estação de trens, assim como era lá na São Bento, no auge dos anos 80.

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“Um local de tantos encontros, um dos maiores entroncamentos ferroviários do Brasil, daqui saia trem pro Brasil inteiro. É um lugar histórico e só de olhar a arquitetura você sente o peso da história”. Assim Renan Inquérito definiu a Estação, local onde a poesia fez sua morada passageira nessa noite.

Renan já é de casa. Presença constante na cidade, ele já tinha participado da abertura cultural da Semana, lá no Vitória Régia. Agora, num contato mais próximo com o público, pôde “olhar no olho e chamar as pessoas pelo nome”.

“Sarau é a poesia longe do pedestal”

“O show é aquela multidão, todo mundo emocionado, o Rap batendo forte, então é louco sentir a energia da massa explodindo e cantando junto. O outro momento, tão importante quanto, é quando rola o sarau. Porque no sarau não tem palco, muitas vezes nem microfone, holofote, e não tem multidão. Porém as pessoas falam de igual pra igual. É a poesia longe do pedestal, a poesia pisando o pé no chão”, observou Renan.

Banks Back Spin
Banks Back Spin

Outro que também marca presença na cena do Hip Hop bauruense é o Banks, da lendária Back Spin Crew, grupo que completa 30 anos em 2015. Ele colou com Cerébro IDP, diretamente de São Paulo, e já foi dando a letra.

“Brigamos, xingamos, discutimos e ofendemos, e não percebemos que o amor que sentimos nem sempre é demonstrado, de uma forma simples e direta. Porque a vida nos proporciona várias curvas, mas nosso sentimentos insistem em seguir sempre em linha reta”, diz Banks.

Desde sua última passagem na Semana do Hip Hop, Banks faz questão de destacar a evolução da cultura na cidade. “O caso da literatura, quando eu vim pra cá tinha o trabalho literário do Renato (Rapnobre) e da rapaziada, mas não tinha um sarau, e hoje tem um que tá bombando. Então ver essa evolução em menos de um ano é o suficiente pra voltar carregado de energias positivas”.

Banks, que era b.boy e passou a se dedicar ao quinto elemento do Hip Hop – o conhecimento, disse estar “revigorado” com a boa energia de “paz, união e fraternidade” que pairou no Sarau.

Major e Banks
Major e Banks

Além das poesias, ainda deu tempo pra declarações especiais. Uma delas foi do próprio Banks, que a certa altura chamou o b.boy bauruense Major, pra comentar do seu ingresso na sexta geração de b.boys da Back Spin.

Conhecimento inerente ao sujeito. Willian Rodrigues, um dos idealizadores da Biblioteca Móvel e também organizador dos Saraus, acredita que “o conhecimento não está dissociado do sujeito”, daí a questão de que o conhecimento percorre os outros elementos do Hip Hop também.

“Qualquer tipo de informação, qualquer tipo de conhecimento, seja ele inserido num suporte enquanto livro, ou até mesmo num microfone, ou usando outros meios tecnológicos pra se divulgar ou propagar a informação, é importante e é imprescindível pra uma cultura como a do Hip Hop”, atesta ele.

Apesar da Semana do Hip Hop chamar bastante a atenção quando ocorre, para Willian “ela vem coroar o trabalho que já é desenvolvido ao longo do ano”. Segundo ele, “todos os finais de semana a gente vem trabalhando, ocupando o espaço público, fazendo os empréstimos de livros e garantindo o acesso ao conhecimento. E hoje o Sarau vem ganhando força dentro do movimento, e isso é interessante porque, de certa forma, o movimento estava limitado até então aos quatro elementos, e quando vem o Sarau e a literatura, o movimento ganha novos aportes”.

“Hip Hop que senta no chão com a comunidade”. Além dos monstros convidados, o Sarau também contou com a participação de Sara Donato e Karluz Magum, de São Carlos, e da rapaziada nova do Rap bauruense, como o David MC.

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Helô e Renan

Momento marcante foi quando a pequena Helô, de sete anos, foi até o microfone pra declamar os versos. Ela tinha entregue uma cartinha para Renan, pedindo pra ele cantar a música “Carrossel”. O pedido, claro, foi atendido por ele.

Para além dos eventos e apresentações, o que fica cada vez mais certo é a importância da Semana do Hip Hop. “Ela causa um impacto no Brasil inteiro, porque é uma semana que vem ganhando um amplitude dentro da cultura”, disse Banks.  

Na mesma linha defende Renan Inquérito. “Tem que ter a Semana do Hip Hop todo ano, tem que ser uma Lei, pra ficar estabelecido. Então viva a Semana do Hip Hop de Bauru! Eu me sinto privilegiado de estar aqui e levar essa boa nova aos quaro cantos do Brasil, pra que existam outras semanas do Hip Hop, nas quebradas desse mundaréu afora”.

Da São Bento a Rui Barbosa: o Hip Hop nos trilhos de Bauru

Workshop "Nos Tempos da São Bento"
Workshop “Nos Tempos da São Bento”

Dança e história são temas de workshop no dia mundial do Hip Hop

Por Ana Carolina Moraes
Fotos: Conrado Dacax e Fernando Martins

Memória, arte e cultura se cruzaram na Estação na quinta-feira, 12 de novembro, mas não por acaso. A V Semana do Hip Hop de Bauru trouxe o b.boy da Back Spin Crew e um dos percussores do movimento no Estado de São Paulo, Marcelinho, para debater sobre a história do Hip Hop. O workshop, que inicialmente seria realizado no SESC, foi realocado para a Casa do Hip Hop, acontecendo simultaneamente às demais atividades previstas para noite.

Durante o workshop, Marcelinho pontuou a fragmentação do movimento em quatro elementos como um desafio do atual momento do Hip Hop no Brasil. Quando indagado sobre o motivo para tal entendimento, o b.boy explicou que a divisão em elementos enfraqueceu o pensamento do que é Hip Hop enquanto movimento. “A gente se perdeu no sentimento. Agora tudo é profissional, ‘se aquele cara não está na mídia, por que eu vou chamá-lo para vir aqui?’ Para mim, estar na mídia ou não é a mesma coisa. O hip hop não precisa estar na mídia, o que a gente precisa é estar juntos”, comenta.

“O Hip Hop não precisa estar na mídia, o que a gente precisa é estar juntos”

Assim também é a percepção do coordenador do Ponto Cultura Acesso Hip Hop, Renato Magu, sobre o movimento hoje. “Como as coisas se facilitaram, hoje a gente se divide em elementos, deixando de lado o sentimento do movimento Hip Hop”, comenta. Dessa forma, trazer o Marcelinho pra cá “é  beber da fonte”, segundo Magu, permitindo que mais pessoas tenham o conhecimento do que é o Hip Hop enquanto movimento de resistência. “Essa galera foi a que começou toda história aqui no Brasil, então quando a gente traz os novos, a gente também tem que trazer os velhos [para a Semana]”, conclui.

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Ouvintes do workshop “Nos tempos da São Bento”

“É importante saber do passado para entender o presente. E a Semana do Hip Hop, para mim, é uma resistência dentro da cultura”, ressalta Marcelinho. O workshop reuniu mais de 30 pessoas para conversar sobre Hip Hop o movimento “nos tempos da São Bento” por quase duas horas. Apesar do imprevisto, o b.boy se sentiu contemplado pela receptividade do público, afinal, o “Hip Hop é uma cultura que se passa muito pela oralidade, nada substitui o contato humano”.

Marco Zero. O local que hoje abriga a Casa do Hip Hop de Bauru foi considerado o marco zero da cultura Hip Hop da cidade, pois, como apresentado por Magu, “ao mesmo tempo que as coisas estavam esfervecendo lá [na São Bento], aqui também estava assim. A galera pegava o trem para ir lá e beber da fonte. Acho que é por isso que a gente tem um movimento tão forte: porque ele passa por várias gerações, por várias pessoas”.

“A gente se perde é quando se esquece da nossa memória, da nossa ancestralidade, esquece quem foram os verdadeiros arquitetos da nossa cultura”

Mesmo com as diferenças temporal e espacial, o coordenador aponta as questões da militância e crença num sonho como semelhanças entre o movimento de Bauru e de São Paulo. O desafio é mesmo resgatar a essência da cultura para manter o Hip Hop forte. “A gente se perde é quando a gente esquece da nossa memória, da nossa ancestralidade, esquece quem foram os verdadeiros arquitetos da nossa cultura”, comenta.  

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Marcelinho Back Spin

Conciliar a história do movimento na São Paulo e em Bauru é um meio de fortalecer o Hip Hop como um todo. Marcelinho explica que falar da São Bento “é a [falar da] história da minha vida. Então, essa história da memória, da dança, do hip hop em São Paulo, tá começando a se fortalecer, porque tem outros irmãos que também estão correndo junto”.

Sobre o espaço ocupado pela Casa do Hip Hop de Bauru, Marcelinho diz estar muito contente com lugar que encontrou. “Aqui é um espaço totalmente diferente, que tem uma possibilidade incrível de fazer coisas, um lugar extremamente poético”, explica. O b.boy ainda afirmou que esta é a casa “mais linda que vai existir”. “A casa ainda tá em construção porque o espaço tem muito potencial para ser explorado, não só pelo movimento Hip Hop, mas com por toda cultura popular. E essa construção se faz nas conversas, nas ações, nas reflexões. Afinal você nunca tem a arte acabada, ela tá sempre em processo”, comenta.

Combo 5 Elementos encerra a semana de ensinamentos no Legião Mirim

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O grupo de jovens do Combo 5 Elementos percorreu diversos locais diferentes, espalhando a cultura hip-hop a centenas de jovens bauruenses

Por Fernando Martins
Fotos: Allison Ferreira e Mariana Lacava

Por volta das 14 horas de uma sexta-feira, 13 de novembro, partia da Casa do Hip Hop de Bauru, a Van mais barulhenta da cidade, rumo ao centro de educação Legião Mirim. Os compartilhadores da cultura, Vinicius Thomas, Allisson Ferreira, Luana Nayhara, Sara Donato, Beatriz Benedito e David Wise ocupavam os bancos surrados da perua branca do prefs Agostinho.

No caminho até a escola, as lembranças da Semana contagiavam a todos, especialmente ao recordar as melhores sacadas e piores brechas da Batalha de MC’s, último evento do dia anterior, quando comemorou-se o Dia Mundial da Cultura Hip Hop e onde David Wise sagrou-se campeão da “Batalha da Panelinha”.

Ao chegar no local, cerca de 50 jovens, todos do sexo masculino, com idade entre 14 e 17 anos, que são preparados para o primeiro emprego, aguardavam o grupo, que trazia na bagagem muita música, dança, diversão e conhecimento para trocar com a molecada.
Após as caixas de som darem seus primeiros zunidos, o Mestre de Cerimônias Vinicius Thomas, de apenas 18 anos, pegou o microfone, comandou o show e arrastou os possíveis projetos de rappers, breakers, grafiteiros ou djs para dentro do universo Hip Hop.

Vinicius Thomas
Vinicius Thomas

Suas primeiras palavras levaram os adolescentes ao contexto da década de 60, quando a tensão racial nos EUA chegou ao ápice. O país vivia intensa segregação entre brancos e negros, sendo os afroamericanos perseguidos pela Ku Klux Klan e até mesmo sem acesso a direitos básicos. O enfrentamento ao racismo americano tinha como referências Martin Luther King, Malcolm X, Angela Davis e o partido dos Panteras Negras. Foi em meio a esse caótico cenário que o original funk, o R&B e o Sound System se misturaram, junto a outros elementos, para dar origem aos primeiros rascunhos do que viria a ser o movimento Hip Hop – explicado de maneira bem simplista diante toda a complexidade dessa rica e criativa cultura.

Após a aula de história, os cinco elementos foram apresentados, trazendo um pouco de cada uma dessas vertentes que compõem a cultura Hip Hop. O primeiro deles foi o graffitti, que busca trazer para o visual alguns dos conceitos do gênero. Exemplificado por Allisson Beats, a função do DJ também foi apresentada aos olhos vidrados dos manos presentes. Já pra falar do breaking, David Wise assumiu a responsa e relembrou a origem da dança, como uma alternativa às violentas disputas de espaço e pontos de comércio entre gangues rivais nova iorquinas e que passaram a competir com passinhos cabulosos e muito estilo.

David MC
David Wise

O quarto elemento, na sua função, Vinícius falou do papel do MC, o mestre de cerimônias, ou ainda, do rap em si. Que vai da função de animar a galera ao levantamento a questões sociais, como drogas, guerras e o próprio racismo, entre outros temas polêmicos. Por fim, o elemento que permeia e costura todos os anteriores: o conhecimento, único componente abordado do primeiro ao último minuto de Combo.

Para o estudante Marcos Vinicius de Almeida, de 15 anos, o contato com uma cultura diferente é muito importante para entender outras realidades: “Conhecer algo novo, algo que está próximo, mas muitas vezes está longe também, é muito bom, ainda mais como o hip-hop, que traz essa ideia de manifestação cultural, tratando questões como a violência através da dança, da música, do graffitti e do conhecimento desses povos”.

A primeira interação com os jovens veio quando a pergunta foi lançada: “Vocês conhecem alguma poesia?”, indagou Vinicius Thomas. A maioria balançou a cabeça negativamente. Mas após a declamação dos primeiros versos da música Jesus Chorou, do grupo Racionais MCs, todos mudaram a direção do balancear, e de cima a baixo, acompanhavam a letra decorada de uma das poesias escritas por Mano Brown.
Mas não só de homens é composto o movimento, e pra falar sobre a questão de gênero, Beatriz, representando o graffiti, Luana Nayhara, da Frente Feminina de Hip Hop de Bauru, e a MC Sara Donato. Questões como a popular “cantada de rua”, a falta de protagonistas femininas, a diferença entre salários, a violência doméstica e outras formas de opressão foram temas apresentados pelas poderosas professoras.

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Sara Donato
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Luana Nayhara e Beatriz Benedito

Pra pesar na mente da galera, Sara Donato deu início a sequência de letras e poesias declamadas com o som autoral “Pesou na Mente”, que prega o respeito ao corpo feminino e a quebra dos padrões de beleza vigentes na sociedade. Na sequência, letras próprias dos integrantes do combo se misturaram a outras já consagradas de monstros da cultura  como Renan Inquérito, Sérgio Vaz e Sabotage, em um mini-sarau.

Mas em meio a tantas feras, o destaque ficou mesmo com Ronaldo Soares, um dos instrutores de curso do centro educacional. Apontado como um apreciador de poesias, Ronaldo apostou no freestyle e criou uma letra ali mesmo, onde pregava igualdade entre os povos.

Após mais de duas horas de trocas intensas de ideias, o convite de visita a Casa do Hip Hop foi feito a todos, especialmente para conhecerem as variadas oficinas oferecidas pela Casa, envolvendo não só os principais elementos apresentados ali, mas também outros como artes marciais e o cursinho pré-vestibular

A tarde se encerrou e a van mais barulhenta da cidade foi novamente ocupada, mas antes de partir, Vinicius Thomas, como um dos idealizadores do projeto, pediu a palavra e agradeceu a todos os envolvidos em mais uma edição do Combo, em mais uma histórica Semana de Hip Hop de Bauru.

Batalha da Panelinha edição Semana do Hip Hop 2015

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Batalha da Panelinha edição especial da V Semana do Hip Hop lota estação ferroviária e leva o público ao delírio

Por Keytyane Medeiros
Fotos: Fernando Martins, Conrado Dacax e Mariana Lacava

12 de novembro é um segundo aniversário para muitos militantes da cultura Hip Hop. A data marca, em 2015, os 42 anos do movimento social, quando Afrikaa Bambaataa e Kool Hurc fundaram a Zulu Nation, primeira ONG (Organização Não-Governamental), no bairro do Bronx. Com o objetivo de difundir os ideais do movimento recém-nascido, a Zulu Nation se tornou a principal referência mundial do Hip Hop nas décadas seguintes. Por meio de palestras sobre história afro-americana, matemática, ciências e economia, a ONG instrumentalizava jovens dos bairros nova iorquinos sobre seus direitos e artes dos quatro elementos.

Dessa maneira, com o passar dos anos, a data remete ao aniversário da cultura e motiva celebrações no mundo inteiro. Em Bauru, a comemoração aconteceu na Estação Ferroviária com muita formação e batalha. Com o workshop “Nos tempos da São Bento”, Marcelinho Back Spin, da primeira geração de b.boys do país trouxe informação, história e conhecimento à Estação Ferroviária.

Workshop "Nos Tempos da São Bento"
Workshop “Nos Tempos da São Bento”

 Logo em seguida, outro elemento e ritual bastante importante da nossa cultura também estava presente. Com aproximadamente dois meses de existência, a Batalha da Panelinha foi uma batalha de sangue na quinta-feira. Nada de origem animal ou humana, mas o choque de ideias foi inevitável. Ali, na batalha, uma geração bastante jovem, de 17 a 19 anos participavam da batalha, que com três rounds, começou devagar até chegar numa crescente com vozes e dizeres estridentes e nocauteadores.

A Batalha, uma realização da Casa do Hip Hop de Bauru ainda que recente, é muito comentada na cidade porque é um dos poucos espaços onde os rimadores podem desfrutar de infraestrutura básica para improvisar. Os beats, originais da cidade, comandam a levada e o freestyle dos MCs que se desenrolam para fazer das rimas as melhores possíveis, mesmo que de vez em quando, saiam uns frangos do galinheiro.12236662_1072463352798809_982033960_o

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Canela, Timbá e David MC

Nesta quinta-feira, 12 de novembro, o primeiro round empatou entre Jotav e Mael MC, o segundo foi vencido por Dentão, que batalhou contra Neguim e David MC levou o terceiro round em cima das rimas de Rabelo MC. No fim das eliminatórias, com a estação cheia de espectadores ansiosos para saber quem seria o grande vencedor e o ganhador do primeiro troféu Batalha da Panelinha, David MC e Pão, da Zona Leste, fizeram o confronto final. Com muita ginga, canja e algumas penas esvoaçadas de dois grandes rimadores disputando espaço e palavras numa panela fervilhando rap e freestyle, a panela começa a exceder seu limite com as rimas de David MC. O rapper e b.boy, que está lançando CD novo na praça, “Eu Faço Rap”, levou a melhor da noite e fechou a tampa desse longo dia de comemorações e manifestações da cultura Hip Hop.

David MC leva o prêmio Batalha da Panelinha
David MC leva o prêmio Batalha da Panelinha

Combo 5 Elementos no CIPS

_MG_4468A molecada cantou, dançou, pintou e deixou claro que entendem do assunto

Por Gabriela Martinez
Fotos: Gabriela Martinez

Nesta quinta-feira, 12 de novembro, o Combo 5 Elementos esteve com cerca de 250 jovens do CIPS (Consórcio Intermunicipal da Promoção Social) durante a tarde, interagindo, ensinando e aprendendo também. Com o lema de Pitágoras “eduque um menino e não será preciso castigar os homens”, o CIPS funciona como uma ONG de interesse e utilidade pública, que desde 1960, promove atividades educativas e de qualificação profissional como programa “Jovem Aprendiz”, além de fazer acompanhamento de famílias em situações de risco pessoal ou social.

Enquanto a equipe da organização ajustava os últimos detalhes para começar a apresentação, os olhinhos da molecada acompanhavam atentamente cada detalhe. “Eles estavam esperando vocês ansiosamente” comenta Edson Stahl, coordenador pedagógico do CIPS.

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Vinicius Thomas

A apresentação do Combo 5 Elementos começou com a explicação de cada um dos elementos do Hip Hop, sendo eles o Rap, o Breaking, o Graffitti, o DJ e o quinto, o Conhecimento. A galera interagiu tanto, que era possível confundir quem estava aprendendo e quem estava ensinando ali. Perguntas sobre o significado da palavra “Rap” ou do termo “Hip Hop” foram motivos de muitos braços levantados e disputa para serem escolhidos para responder.

A rapper Sara Donato também participou do evento. Pegou o microfone e conversou com a molecada sobre a escassez de mulheres em evidência no Hip Hop, logo, do machismo impregnado em nossa sociedade e terminou recitando a letra de uma de suas músicas “Peso na mente”, que aborda de forma crítica os padrões de beleza impostos pela mídia.

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Sara Donato representa Frente Feminina de Hip Hop levantando questões de gênero

Depois de toda prosa, a molecada desceu da arquibancada para arriscar passos de breaking e traços de tinta no graffitti. O CIPS é uma ONG (Organização Não Governamental) que trabalha com crianças de 3 à 17 anos, com o objetivo de tirá-las da rua e prepará-las para o mercado de trabalho, profissionalizando-as. O trabalho é feito através de aulas que ensinam ética, cidadania e atividades lúdicas para os mais novos. Para Edson, Coordenador Pedagógico da ONG, “tudo que é voltado para a Cultura é importante, ainda mais quando falamos da cultura do Hip Hop que está tão próxima da realidade deles”.

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Beatriz Benedito fala sobre graffiti

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JotaF comemora 10 anos de carreira no palco da Semana do Hip Hop

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Em clima de celebração, o rapper bauruense fez do palco da V Semana do Hip Hop a sua casa e do público, sua família

Por Gabriela Martinez e Keytyane Medeiros
Fotos: Emanuella Quinalha

No último domingo, 8 de novembro, aconteceu a abertura cultural da V Semana do Hip Hop de Bauru. Pelo palco passaram artistas como Brisa Flow, Issa Paz, o grupo de maracatu Abayomi, Além da Rima, Rapadura, Inquérito, Thaíde e uma das pratas da casa, JotaF.

Ele subiu no palco como se estivesse em casa, vestido de uma energia tão positiva que ele e o público se tornaram uma coisa só. JotaF cantou músicas novas do seu próximo disco, como “No Tom” que teve participação especial do beatmaker Felipe Pezutti. Antes da música Africatividade, que fala da resistência histórica negra, JotaF parafraseou o rapper Renan Inquérito, que subiria no palco depois dele: “como diria meu mano Renan, resistência é mais que peça de chuveiro”.  Dono de um repertório que evidencia sua militância, o rapper ousou passear por outros estilos e agitou a galera quando mandou a “queridinha” “Saber Chegar”, que produziu com participação da Adriane Santana, vocalista da Banda bauruense Move Over, música que chegou ao TOP 50 das músicas mais tocadas nas principais rádios do estado de São Paulo, entre elas a Rádio 94FM. Eleita a música mais pedida do verão 2015 no Litoral Norte pela Rádio Beira Mar FM de Ubatuba/SP. O videoclipe do single ultrapassou a marca das 10.000 visualizações no Youtube.

Esta não é primeira vez que JotaF participa do palco da Semana do Hip Hop. Presente desde a segunda edição, Jota também é um dos organizadores do evento, participando das atividades de formação como o Combo 5 Elementos e organização de palco e artistas. Para ele, é muito significativo ocupar um lugar na agenda de shows depois de construir o festival ao longo do ano. “A militância pela cultura Hip Hop veio há uns 5 anos atrás. Me convidei para participar e fui bem acolhido pelo Ponto de Cultura Acesso Hip Hop, que é minha escola de Hip Hop, de cultura e informação. É uma honra fazer parte disso”, afirma. O rapper comentou ainda, de forma ímpar, que a Semana do Hip Hop enriquece a cidade de Bauru não apenas culturalmente: “A Semana do Hip Hop de Bauru faz com que tudo de positivo ao redor dela cresça e se desenvolva. As pessoas se tornam humanamente melhores, os lugares por onde a Semana passa são transformados positivamente, seja através da poesia, da música ou das cores.”

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Abanka Forte

 

Em 2015 JotaF completa 10 anos de carreira como MC. Natural de São Paulo se mudou para Bauru ainda na infância e durante a adolescência, se tornou skatista local na Praça da Paz. Em 2005 o artista participava no grupo Versos com o beatmaker Felipe Canela: “Éramos o Versos, ainda somos, e retornaremos em breve”, comenta JotaF. De lá para cá, JotaF já participou do coletivo “Epicentro” e seguiu carreira solo. Há dois anos lançou sua primeira mixtape “Direto ao Assunto” com participações especiais de Coruja BC1 e Felipe Canela.

JotaF lançou em 2012 a minissérie “DOP” (Desenvolvendo O Pensamento). Composta por 5 capítulos, o rapper aborda diferentes temas em forma poética pra estimular e desenvolver a reflexão e o debate entre os telespectadores.

Os videoclipes, “Direto Ao Assunto Mixtape”, a minissérie “DOP”, os singles e todo conteúdo podem ser apreciados através do canal oficial no Youtube.

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O ano de 2014 foi marcado por alguns lançamentos que antecedem a chegada do próximo disco do rapper as ruas. Singles como “Pro Seu Dia Ser Melhor”, “Vileragem”, “Agora Eu Fui” e “Saber Chegar” fazem parte do repertório do novo trabalho do JotaF, que concilia sua carreira com a militância pela cultura Hip Hop na cidade de Bauru através do Ponto de Cultura Acesso Hip Hop.

No primeiro semestre de 2015 mais novidades chegaram as ruas, como o model de shapes e a linha de camisetas assinada por JotaF em collab com a Black Thing Skates. JotaF se apresentou no “One Take”, projeto audiovisual produzido pela gravadora Valetes Records. Mais um lançamento foi apresentado ao público, “No Tom”, música que integra o repertório do seu próximo disco.

No segundo semestre, JotaF foi selecionado para participar do Festival Reviva Rap, um dos principais festivais do gênero no país. Divido em três etapas, nas cidades de Jacareí, Santos e Piracicaba (onde esteve JotaF). O evento contou com mais de cem artistas inscritos (e depois, dez para cada município-sede). Os três primeiros colocados de cada etapa, além de prêmios, são convidados a participar da Coletânea Reviva Rap. Na 6ª edição do festival, o rapper bauruense se classificou em 2º lugar, sendo assim, JotaF também integra a coletânea com a música “Africatividade”. Em outubro de 2015 o rapper participou do show de lançamento da coletânea, realizado no bairro de Perus em São Paulo.

 

Tássia Reis leva o público ao delírio com carisma, breaking e muito Rapjazz

 

Tássia Reis
Tássia Reis

Pela primeira vez em Bauru, a rapper esbanjou talento com suas músicas e passos de dança

Por Thamires Motta
Fotos: Felipe Amaral, Lucas Rodrigues e Mariana Caires

A rapper Tássia Reis, que se iniciou no movimento Hip Hop por meio da dança, começou ensaiando alguns passos logo no início do show no último dia 11 de novembro. Com o Espaço de Convivência lotado no SESC, o público pôde curtir as faixas principais do EP “Tássia Reis”, que a cantora lançou no ano passado.

Misturando blues, soul, reggae e jazz, influências que recebeu desde criança, e inspirada por grandes nomes como Etta James, Sarah Vaughan, Nina Simone e Aretha Franklin, Tássia Reis consegue juntar com maestria o ritmo envolvente das suas inspirações com as rimas rápidas, certeiras, pesadas e politizadas, talento que desenvolve desde 2005.

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Numa releitura de Erykah Badu, a primeira música trouxe a voz de Tássia nos beats da cantora estadunidense, sem deixar absolutamente nada a desejar entre a musicalidade e a afinação das duas. Num show entusiasmado e animado, o público acompanhou a cantora nos refrões, admirados com a voz aveludada que Tássia intercala entre rimas, misturando saxofones e notas de piano em beats e scratches do DJ.

Sob o beat de Notorious B.I.G, a MC apresentou algumas músicas de fora do EP. Bauru teve a honra de escutar pela primeira vez em um show o recém-lançado “Ouça-me”, faixa da série “Make Noise”, em colaboração com o produtor Arthur Joly, que cria sintetizadores. Emocionada, Tássia mandou a letra que fala sobre empoderamento feminino, a luta contra o racismo e a vontade de ser escutada. Aproveitou o espaço para expressar a felicidade em ver as mulheres negras se fortalecendo dentro e fora do movimento Hip Hop, e convidou a também rapper Sara Donato a subir no palco e mandar uma letra. Inspirada pelo momento, Sara cantou “Peso na Mente”, em que critica o preconceito, o machismo e os padrões de beleza a que mulheres são submetidas.

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Tássia Reis e Sara Donato

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A euforia do público veio depois das faixas “Asas”, “No seu Radinho” e “Meu Rapjazz”. Tássia soltou um beat e começou canções fortemente inspiradas no soul de Tim Maia e Erykah Badu, ao que o público respondeu abrindo uma roda de break dance bem em frente ao palco. A plateia chegou ao delírio quando a B-girl Ana Gabriela Rodrigues chegou mandando seus movimentos, inspirando até a própria Tássia a descer e demonstrar toda sua habilidade na dança.

Num show inesquecível para a cidade de Bauru e para a Semana do Hip Hop, a rapper prometeu voltar em breve ao interior paulista, trazendo cada vez mais seu talento e todo o seu Rapjazz.

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